Views
5 years ago

O “eu - Fazendo Gênero - UFSC

O “eu - Fazendo Gênero - UFSC

Em A Câmara Clara,

Em A Câmara Clara, Roland Barthes (1984), diz que diante da “objetiva” de uma máquina fotográfica, ele (Barthes) é o “eu” que se julga ser, aquele que ele gostaria que o julgassem ser, aquele que o fotógrafo julga que ele seja e aquele de quem o fotógrafo se serve para exibir sua arte. Temos assim, nada menos do que quatro “eus”. Pensemos na “tela do computador” como sendo a “objetiva” de que fala Barthes e teremos o seguinte: ao se postar diante de um teclado o/a blogueiro/a tem a oportunidade de se recriar: ele/ela é o “eu” que é, o “eu” que se julga ser, o “eu” que ele constrói em sua narrativa e o “eu” que o/a internauta lê, intersectado pelos diferentes vetores que compõem sua identidade, atribuindo significado à narrativa do narrador/personagem. Os blogs, em particular, com seu caráter de imediatez, de transcrição quase simultânea dos sentimentos experimentados, com o frescor do cotidiano e do detalhe significante, propõem ao leitor ser levado a olhar pelo buraco da fechadura com a impunidade de uma leitura solitária e ao mesmo tempo de uma intervenção emotiva. Como propõe Felipe Pena 15 , “no palco contemporâneo, o espetáculo em cartaz é a vida. Os ingressos na bilheteria dão direito a entrar na intimidade dos atores”, formar subjetividades, alteridades e idealizar heróis, mas a platéia não está satisfeita e quer ela mesma encenar o espetáculo, numa espécie de via de mão dupla proporcionada pela postagem de comentários. Vejamos o que escreveu o blogueiro Márcio Markendorf em seu blog www.incorrespondencias.blogspot.com em 08.04.2006: (...) não é que meu correio andou agora a receber correspondências anônimas? Sem falar que percebi que fizeram notas embaixo de minhas fotos, no pé de página de algum texto. Pelo tom de algumas, desconfio que seja gente que conheço. Passado fazendo fantasmas de linguagem? Outras parecem algo do tipo “nunca te vi, sempre te amei” (...). O melhor é a superfície transparente: eu sou eu. [swift, disse eu sou o “eu”. Me deu até medo de loucura. História de duplos, desdobramentos]. (...) Claro que vez em quando faço pose, invento, desvio. Mas há de concordar comigo que a verdade também cansa. E por que não mostrar uma vida mais literária, dessas que se lê em biografias, memórias? Todo mundo vira herói”. 6

Nessa via, a força de observar, de confrontar o “eu” do blog e o “eu” que o lê, encontrar semelhanças e variáveis, se vão perfilando. A veracidade que é posta em jogo nos relatos vem, em geral, atestada pela ascensão do “eu”, pela insistência da “vida real”, pela autenticidade da história na escrita de seu/sua protagonista, mesmo que seja a autenticidade das câmaras da inscrição da palavra gráfica. É sobre a veracidade da escritura que se impõe o terreno resvaladiço da ficção. Onde a compulsão de realidade, resguardo efêmero da devoração midiática viabilizada pela interação com o/a internauta, parece colar-se como uma sombra num nome próprio, numa fotografia, num rosto, num corpo, numa vivência, numa retórica de intimidade. Referências: ARAÚJO, Nara. La autobiografia femenina, un género diferente? Debate Feminista, v. 8, n. 15, 1997, p. 72-84. ARFUCH, Leonor. El espacio biográfico - dilemas de la subjetividad contemporánea. Buenos Aires: Fondo de Cultura Econômica de Argentina, S.A. 2002. BARTHES, Roland. A Câmara Clara: nota sobre a fotografia / Roland Barthes. Tradução: Júlio Castañon Guimarães. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1984, 190 p. BUTLER, Judith. Problemas de Gênero - feminismo e subversão da identidade. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2003. CASTELLS, Manuel. A sociedade em Rede. Trad. Roneide Venâncio Majer. (A era da informação: economia, sociedade e cultura. Vol. 1). 8 ed. São Paulo: Paz e Terra, 1999. _____. O poder da identidade. Trad. Klaus Brandini Gerhardt. (A era da informação: economia, sociedade e cultura. Vol. 2). 3 ed. São Paulo: Paz e Terra, 1999. _____. Fim de milênio. Trad. Klaus Brandini Gerhardt e Roneide Venâncio Majer. (A era da informação: economia, sociedade e cultura. Vol. 2). 3 ed. São Paulo: Paz e Terra, 1999. FONSECA, Márcio Alves da. Michel Foucault e a constituição do sujeito. São Paulo: EDUC, 2003. FOUCAULT, Michel. A ordem do discurso. São Paulo: Edições Loyola, 12 ed. 2005. LEMOS, André; PALACIOS, Marcos - Orgs. Janelas do ciberespaço, comunicação e cultura. Porto Alegre: Sulina, 2001, 2 ed. PENA, Felipe. Teoria da biografia sem fim. Rio de Janeiro: Mauad, 2004, 100 p. 7

baixar edição completa - Centro de Ciências Jurídicas - UFSC
MEMÓRIA E ORALIDADE: - Fazendo Gênero - UFSC
A SOLIDÃO E O GRITO DO ESCREVER - Fazendo Gênero - UFSC
Download do Trabalho - Fazendo Gênero 10 - UFSC
Download do Trabalho - Fazendo Gênero 10 - UFSC
Giorgia de M. Domingues - Fazendo Gênero 10 - UFSC
Download do Trabalho - Fazendo Gênero - UFSC
Download do Trabalho - Fazendo Gênero - UFSC
Download do Trabalho - Fazendo Gênero 10 - UFSC
Download do Trabalho - Fazendo Gênero - UFSC
Download do Trabalho - Fazendo Gênero - UFSC
Download do Trabalho - Fazendo Gênero - UFSC
deslocamentos e conflitos - Fazendo Gênero 10 - UFSC
Escrevendo a história no feminino - Fazendo Gênero - UFSC
Download do Trabalho - Fazendo Gênero - UFSC
Download do Trabalho - Fazendo Gênero - UFSC
Download do Trabalho - Fazendo Gênero - UFSC
Download do Trabalho - Fazendo Gênero 10 - UFSC
Download do Trabalho - Fazendo Gênero - UFSC
Download do Trabalho - Fazendo Gênero - UFSC
Download do Trabalho - Fazendo Gênero - UFSC
as mulheres na escrita de roberto arlt - Fazendo Gênero - UFSC
Artur de Vargas Giorgi - Fazendo Gênero 10 - UFSC
Download do Trabalho - Fazendo Gênero - UFSC
Download do Trabalho - Fazendo Gênero - UFSC
Download do Trabalho - Fazendo Gênero - UFSC
Download do Trabalho - Fazendo Gênero - UFSC