Views
4 years ago

1 Corpos Discursivos: Gênero na Literatura e na Mídia ST. 04 ...

1 Corpos Discursivos: Gênero na Literatura e na Mídia ST. 04 ...

Anais

Anais do VII Seminário Fazendo Gênero 28, 29 e 30 de 2006 garotos atiram uma bola de neve em Regina e sua mãe a ajuda a se limpar. Voltamos à paisagem africana e ao garoto na bicicleta. “Lembro-me da Alemanha como um lugar sombrio, sem o sol e o calor do Quênia”. O contraste entre os dois lugares se prolonga, entre as lembranças da garota, que conta como os nazistas expropriaram sua família. O garoto na bicicleta entrega a carta para um bwana (“branco”), que descobriremos ser Süßkind, outro alemão expatriado, que parte para um chalé onde Walter padece da malária, cuidado pelo negro Owuor. A expropriação nazista e a perda de lugar na Alemanha são projetadas na figuração da África colonial, através de uma metaforização: a malária de Walter. A distância geográfica entre Alemanha e Quênia, Europa e África, se rarefaz na tela da perda de lugar, figurada como uma doença. Na Alemanha, a família está reunida no apartamento de Jettel, quando chega uma carta datada em Rongai, Quênia, 1937, com a notícia de que Regina e a mãe devem ir o quanto antes para a África. Em seguida, as duas se despedem da família; segue uma seqüência de Owuor cuidando de Walter. A recuperação de Walter se entrelaça com o movimento da viagem de Regina e Jettel. A perda de lugar na Alemanha, metaforizada na malária de Walter, leva ao deslocamento da viagem, metaforizado na cura da malária: no filme como um todo, tudo se passa como se o deslocamento para o “lugar nenhum na África” cicatrizasse a ferida da doença nazista: como se fosse preciso ir a lugar nenhum para, de volta, saber um lugar e recuperar o próprio, para saber o lugar próprio. O sujeito desse movimento é a família Redlich, que se encontra numa relação ambígua com a Alemanha: seu pertencimento nunca é pleno. De certa forma, o movimento da diegese se desenrola em torno da (im)possibilidade de uma relação metonímica entre a família judia e a nação alemã. Entre a nação e sua alteridade privilegiada na reconstituição histórica, a África aparece como a nulidade (“lugar nenhum”) que possibilita um espaçamento de capitalização para o retorno: * De um momento inicial em que a família ocuparia um lugar “próprio”, vivendo na Alemanha como numa casa (sem manter os costumes judaicos) como se pudesse representar metonimicamente a nação, passamos a um momento em que, confirmando uma incerteza em relação a esse pertencimento (o lugar próprio envolve sempre uma ansiedade), seu lugar é deslocado, perturbado, num prenúncio da expropriação nazista iminente; * Em seguida (estamos ainda na primeira meia-hora do filme e seguiremos até perto de seu final), passamos ao momento de um não-pertencimento, que se pensa ou figura como ausência de lugar – lugar nenhum na África – num Quênia dominado pelos ingleses, onde a família ocupa uma posição privilegiada em relação aos nativos, devido ao esquema racista epidérmico que organiza o colonialismo, mas ainda assim uma posição não afinada completamente com a dos colonizadores, dada sua condição de trabalhadores intermediários e 2

Anais do VII Seminário Fazendo Gênero 28, 29 e 30 de 2006 de refugiados. A família ocupa um lugar indeterminado e a relação metonímica com a nação é abalada, embora não apagada. Em todo caso, a história diz respeito à experiência de um nãopertencimento, um não-ter-lugar-no-mundo característico da situação de refugiados; * Finalizada a II Guerra Mundial e completado o período do não-pertencimento, a família pode recuperar seu lugar na Europa, no projeto de reconstrução da Alemanha Ocidental. O filme termina reinstaurando a metonímia família-nação. A viagem capitaliza, em torno do nome de África, o que no retorno se dá como reapropriação e recuperação do lugar no mundo, na Alemanha. Mas a relação metonímica entre família e nação não se realiza por inteiro. Regina figura a tensão do pertencimento com seu desejo de permanecer na África. Viagem e retorno operam como tropos que constituem África e Quênia, o espaço colonial, e Europa e Alemanha, o espaço ocidental, como lugares separados de subjetivação, reiterando a nomenclausura africanista: a constituição da África a partir de seu exterior. Mas, na reiteração, alteram-se parcialmente os termos, a partir do entre-lugar da família – nem alemã, nem judia, nem inglesa, nem nativa da África – que possibilita o desejo de não retornar por parte de Regina, cujas linhas de força desconstituem a separação dos espaços. Em noites em que procurava na Internet referências da filmografia africanista, utilizei programas de compartilhamento de arquivos, na tentativa de encontrar alguns filmes. Ao digitar “África”, “africanos”, “afro” etc. no campo de busca, esperava encontrar filmes cujos títulos contivessem alguma referência ao nome de África. Contudo, além de algumas poucas cópias disponíveis desses filmes (que em todo caso podem ser encontrados na imensa maioria das locadoras), deparei com uma enorme quantidade de vídeos com títulos pornográficos que também continham referências ao nome de África, que poderiam ser assistidos após um clique e poucos minutos de espera (embora decerto fossem parte de um comércio – tanto uma economia de mercado como uma economia pulsional e fantasiosa – mais subterrâneo, menos explícito que o das locadoras; dentro delas, talvez, em salas separadas). Naquele momento, o que se salientou foi a questão da relação entre pornografia e exotismo, erotização pornográfica e distanciamento racial-cultural fetichizante. Trata-se da problemática do “desejo colonial” (YOUNG, 2005), seu comércio ambíguo que trata da circulação de fantasias de sexo e contato corporal erotizado entre diferentes raças e culturas, sempre na encruzilhada de atração e repulsão, desejo fascinado e abjeção monstruosa: a ideologia racista, que constitui o presente a partir da herança do colonialismo – que é “uma máquina de guerra e administração, mas, também, uma máquina desejante” (p. 119) –, policia as fronteiras e, no mesmo movimento, alimenta a fantasia de sua transgressão, com uma imagem disseminada: “o incontrolável vigor sexual das raças não-brancas e sua ilimitada fertilidade” (p. 230). 3

Gênero na Literatura e na Mídia. ST. 4 ... - Fazendo Gênero
Gênero na Literatura e na Mídia ST. 4 Maria do Rosário da Silva ...
Gênero na Literatura e na Mídia ST. 4 Sandra Raquew dos Santos ...
- 1 - ST 49 – A Construção dos Corpos: Violência ... - Fazendo Gênero
1 Práticas Corporais e Esportivas – ST 21 Marcos ... - Fazendo Gênero
Gênero, Corpo e Diversidade Sexual (Sexualidades) ST.51 Marli de ...
Corpo, identidade e desejo na literatura para jovens
1 literatura: professor(a) regina (16/04/2011) - Colégio PREVEST