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1 Corpos Discursivos: Gênero na Literatura e na Mídia ST. 04 ...

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Anais

Anais do VII Seminário Fazendo Gênero 28, 29 e 30 de 2006 # Há uma cena de Lugar… em que novas cores banham a estrutura narrativa de viagem dispersiva e retorno re(con)stitutivo, remetendo ao aspecto sexual das políticas de gênero: Walter caminha ao lado de Jettel, na beira da plantação de que cuidam. Regina não está presente, portanto não pode ocupar a posição de narradora suposta neste trecho. Ele então diz à mulher para retirar a parte de cima das roupas, que caminhe adiante dele como “as africanas”. O que o nome de África designa aqui? Como se processa, nessa reiteração da nomenclausura africanista, a inscrição dos termos fantasiosos do desejo colonial? A alteração parcial que o entre-lugar da família implica na estrutura do filme se reproduz aqui? No filme em geral, os olhos de Regina guiam a câmera, mas na cena de Walter e Jettel, não se passa o mesmo. Qual é então a posição de narratividade ou o lugar de enunciação que abre a cena aos olhos e ouvidos espectatoriais? Laura Mulvey (1975) sugere que o olhar fílmico é constitutivamente masculino, enquanto o corpo feminino permanece como objeto de contemplação, no cinema narrativo clássico: “Woman as Image, Man as Bearer of the Look”, no que consistiria uma “heterosexual division of labor” na economia fílmica dos olhares (p. 11). Mulvey diferencia o olhar fílmico (da câmera), o olhar espectatorial e o olhar dos personagens entre si, que negaria os outros dois e os subordinaria na “screen illusion” (p. 17). E. Ann Kaplan, tentando pensar a relação entre o olhar fixo masculinista descrito por Mulvey e o “olhar imperial” (imperial gaze), sugere uma distinção entre gaze – um olhar unidirecional em que um sujeito ativo se contrapõe a um objeto passivo e se enreda numa teia de desejo e projeção fantasiosa, ansiedade e negação do objeto – e look – um processo múltiplo, uma relação de olhares (looking relation), que pode ser opressiva mas não o é necessariamente. 2 Reencontrando Jettel e Regina após um período de separação no início da Guerra, Walter consegue outro emprego, com a ajuda de um soldado que Jettel conhecera e com quem se envolvera, no hotel Norfolk, em que estivera internada com Regina e outras mulheres e crianças. Na plantação da nova fazenda, algumas africanas passam com a colheita. Não usam roupas sobre os seios, apenas algo que lhes cobre o pescoço e parte do busto. Jettel as cumprimenta e Walter comenta: “Você está indo bem.” O diálogo prossegue em tom leve após Walter segurar Jettel pelo braço. Conversam num teatro de sedução e flerte irônico: W – Sou o seu “bwana” e lhe ordeno… J – Sim, “bwana”? W – … que tire sua blusa. 4

Anais do VII Seminário Fazendo Gênero 28, 29 e 30 de 2006 J – Você é maluco ou o quê? W – Se o fizer, ganhará uma galinha assada. [Pausa] W – E agora, você vai ter que percorrer o caminho como as africanas. Walter, falando da posição de “bwana” – empoderado pela alusão citacional à delimitação colonial desse espaço de subjetivação que constitui a branquidade, em contraposição às “africanas” – se aproxima de Jettel, que retirara a blusa e continuara caminhando mais à frente. Ele segura seu maxilar agressivamente para questioná-la sobre a estadia no hotel. A violência na relação marido-mulher é sugerida através da comparação com “as africanas”, inscrevendo a hierarquia de gênero no idioma da geopolítica racializada. W – Sentiu minha falta no seu hotel? J – Ai! O que está fazendo? Walter enuncia o desejo escópico que figura a garantia da exclusividade de seu acesso ao corpo de Jettel, no espaço do casamento e da família; o olhar fílmico acompanha as linhas de força de seu desejo, revelando os seios de Jettel ao olhar espectatorial. (Ela não retorna o olhar. Tampouco as africanas. Trata-se, pois, sobretudo de gaze e não de looking relations.) Como sedução e agressão se confundem ou articulam na economia dos olhares? A resolução do conflito possibilitará, bem mais adiante, ao final do filme, o retorno ao lugar próprio na nação alemã também no sentido de reinstaurar a norma heterossexual que organiza o desejo: a nação se reconstitui a partir da reinstauração da heterossexualidade – como afirma Kaplan (1997), “heterosexuality is perhaps one of the few aspects that link the otherwise quite diverse ideas of ‘nation’ globally” (p. 49). Mas além disso, a nação e a heterossexualidade se reinstauram através do idioma da geopolítica racializada, reverberando as fantasias do desejo colonial. “Heterosexuality is inscribed in the colonial travel story as a basic, unavoidable trope” (p. 85). Assim, num processo de que essa cena participa sem encerrar sua totalidade, que se estende no decorrer do filme e cuja resolução coincide com o retorno, “as africanas” assinala performativamente a reinstauração da norma e a restituição do próprio apenas ao preço de cindir o desejo com a ambivalência da fantasia de dominação sexual inter-racial: o idioma da geopolítica racializada é o lugar em que a dominação se projeta (como norma da família, que pode se pôr numa relação metonímica com a nação, e heterossexualidade compulsória) e se desconstrói (disseminando-se na metáfora que constitui a posição de sujeito de Jettel como racialmente sexualizada e subalternizada, abrindo espaço para uma ambivalência que permanece no cerne da posição de Walter). 5

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