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1 Corpos Discursivos: Gênero na Literatura e na Mídia ST. 04 ...

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Anais

Anais do VII Seminário Fazendo Gênero 28, 29 e 30 de 2006 A expressão “como as africanas” designa num rótulo amplo um espaço de subjetivação da alteridade geopolítica do “continente negro” 3 , das mulheres que o habitam e que andariam com os seios visíveis. A visibilidade é dada na cena, o olhar fílmico a reitera e abre para o olhar espectatorial, a partir do olhar de Walter. Sutilmente, sem ostentação pornográfica. No entanto, a remissão a esse regime escópico de contato com a alteridade colonial realiza um alinhamento entre Walter e o sujeito imperial europeu, de um lado, e Jettel e a alteridade colonial, de outro. Esse movimento estabelece uma mediação de simbolismo geopolítico ao acesso masculino ao corpo feminino, na domesticidade da nação alemã e de uma Europa à qual, como brancos, pertencem, embora com certa tensão, ansiedade e incerteza. O adjetivo “africana” designa uma condição de visibilidade e disponibilidade do corpo feminino racializado, marcada através de uma linguagem geográfica, do nome de um continente, que segundo o mandato imperialista é também disponível em sua vastidão, aberto ao sujeito imperial europeu e ocidental. Esse é o sujeito que pode se constituir e reemergir na restituição do lugar próprio da nação que encerra o filme. Se lermos o filme a partir dessa cena e dessa nomeação fantasiosa – “as africanas” – (re)produz-se, no movimento da nomenclausura africanista, o Ocidente como sujeito imperial, rasurando a tensão que a posição da família implicava e que aparecia no desejo de Regina de não-retornar (que afinal é negado ou, pelo menos, adiado) e reinvestindo a ambígua fantasia do desejo colonial. Mas há uma cena posterior que reverbera sobre esta. Tudo se passa depois de um largo período, desde a ida de Regina para a escola em regime de internato até uma de suas voltas, nas férias. O tema dos seios reaparece numa conversa entre Regina e seu amigo Jogona: J – Deve tirar sua blusa, senão ficará suja. R – Não vou tirar mais minha blusa. Não sou mais uma menininha. J – Você será uma criança burra se sujar a sua blusa escolar. R – Não sou mais criança. Não pode mais ver meus seios. J – Não são diferentes dos das mulheres lá da vila. R – São, sim. Os seios das ‘Mzungus’ são diferentes. Não se vêem. J – As escolas ‘Mzungus’ ensinam coisas muito estranhas. ‘Mzungus’ como você ainda podem subir em árvores? R – Sim, mas só quando não sujam os uniformes escolares. Por fim, Regina tira a blusa e os dois sobem na árvore. Nessa cena, sugere-se, no plano do olhar entre os personagens, a possibilidade do retorno do olhar inter-racial. Regina enuncia a diferença racializada entre os seios de africanas e brancas (que “não se vêem”, não se dão à condição de visibilidade do Outro racializado), que é nula para Jogona. O olhar fílmico fica indiferente, alinhado ao olhar de Jogona, que não dá importância à visibilidade 6

Anais do VII Seminário Fazendo Gênero 28, 29 e 30 de 2006 dos seios. O que se dá a ver ao olhar espectatorial é uma cena de amizade e uma brincadeira que retrospectivamente solicitam e perturbam parcialmente a ordem dos olhares que se tinha instaurado na cena de Walter e Jettel. Contudo, o que resta, imperturbável, como locus subalterno foracluído do discurso fílmico, é o lugar das africanas, dupla alteridade – de gênero e de raça: não há possibilidade de identificação de qualquer ordem com o olhar das africanas. “Can the subaltern speak?”, pergunta Gayatri Spivak (1988). O retorno do olhar que pareceria se insinuar tem um preço: remarcar o sujeito subalterno do colonialismo – a raça negra, a África – com uma diferenciação interna, que o assombra e cinde seu lugar de enunciação: “the colonized subaltern subject is irretrievably heterogeneous” (p. 284). Opacas, foracluídas: “as africanas” permanecem irrepresentáveis – fora da cena da Darstellung e sem agência política através da procuração de alguma Vertretung do olhar. A resposta de Spivak é uma provocação: “The subaltern cannot speak” (p. 308). Essa é a fábrica do Ocidente como sujeito, produzido como unificado através do imperialismo como projeto (Vertretung) e projeção (Darstellung), máquina político-administrativa e máquina desejante. Referências BHABHA, Homi K. O local da cultura. Belo Horizonte: Ed. UFMG, 1998. DOANE, Mary Ann. “A voz no cinema: a articulação de corpo e espaço”. In: XAVIER, Ismail (org.). A experiência do cinema. P. 457 a 475. Rio de Janeiro: Graal Editora, 2003. KAPLAN, E. Ann. Looking for the other: Feminism, film, and the imperial gaze. Nova York & Londres: Routledge, 1997. MULVEY, Laura. “Visual Pleasure and Narrative Cinema”. Screen 16 (3): 6-27, 1975. RIBEIRO, Marcelo R. S. CinematogrÁfrica: Ensaio sobre as f(r)icções de um nome, entre 1980 e 2005. Universidade de Brasília: Dissertação de Graduação em Ciências Sociais, 2005. SPIVAK, Gayatri Chakravorty. “Can the Subaltern Speak?”. In: NELSON, Cary & Lawrence Grossberg. Urbana e Chicago: University of Illinois Press, 1988. YOUNG, Robert J. C. Desejo Colonial: hibridismo em teoria, cultura e raça. São Paulo: Perspectiva, 2005. 1 Esse ensaio é um apanhado da discussão esboçada nos fragmentos 23 e 27 de Ribeiro, 2005. 2 A discussão sobre a economia dos olhares deve ser complementada por uma atenção à trilha de áudio. Uma parte dessa discussão complementar diz respeito ao papel da voz, analisado por exemplo por Mary Ann Doane (em: XAVIER, 2003). A constituição de uma economia dos olhares no cinema se dá de forma associada com a articulação de corpos e espaços operada através da voz. A voz movimenta espaços mais amplos do que o olhar: pode remeter a corpos fora de cena, por exemplo. Segundo Doane, há três tipos de espaço em jogo na "situação 7

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