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Fazendo Gênero 8 - Corpo, Violência e Poder Florianópolis, de 25 a ...

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Porque eu acho, tem

Porque eu acho, tem muitas mulheres que vem aqui, elas dizem que gostam de vir aqui porque elas conversam, elas dizem que tão entre amigas e elas conversam bastante sobre a vida delas, coisa assim. E eu acho que os maridos não iam gostar de vir aqui porque eles têm coisa pra fazer, eles têm que olhar a TV deles, têm que ta escutando rádio, tomando cerveja, coisa e tal, acho eles não iam ter paciência pra ficar aqui sentado escutando um bando de mulher falando. (entrevista, 10/01/2007). A mesma essencialização perpassa a fala de um dos técnicos entrevistados, quando explica porque é mais produtivo trabalhar com as mulheres do que com os homens: A maioria se preocupa, quer aprender e melhorar como mãe e como mulher, tanto é que o nosso CRAS, talvez por ser um dos poucos que faça grupo dentro do programa, tem bastante resultado nesse ponto, tem interesse da mãe com os filhos, eu acho que esse é um dos pontos positivos, resgatar, ela tenta ser a unidade. […] E a mulher cá pra nós também né, ela é bem mais dinâmica que o homem, ela consegue fazer três, quatro coisas (entrevista, 03/01/2007). A fala do técnico reforça, ainda, um dos aspectos do processo contemporâneo de politização da aternidade, quando enfatiza que as mulheres querem “aprender e melhorar como mães”. Destaca-se, aí, a importância de se investir em processos de educação de determinados grupos de mulheres na direção de ensiná-las a serem “boas mães”. Esses processos educativos, consubstanciados, por exemplo, nessas reuniões em grupo, constituem uma dimensão central das políticas e programas que temos examinado. Essas análises indicam que a noção de indivíduo mulher-mãe parece supor, com força renovada, a existência de um ser que incorpora e se desfaz em múltiplos – a mãe como parceira do estado, a mãe como agente de promoção de inclusão social, a mãe como provedora do núcleo familiar e a mãe como principal produtora de cuidado, educação e saúde de suas crianças. A multiplicação de capacidades, atributos e funções maternas implica, pois, a necessidade de inserir mulheres no âmbito de redes de saber e poder que as eduquem, desde muito cedo, a viver sua vida como mulher e como mãe de determinados tipos. Trabalhamos, aqui, com uma noção alargada de educação, entendendo-a como o conjunto de processos pelos quais indivíduos são transformados ou se transformam em sujeitos de uma cultura. Tornar-se sujeito de uma cultura envolve um complexo de forças e de processos de aprendizagem que, hoje, derivam de uma infinidade de instituições e “lugares pedagógicos e engloba uma ampla e variada gama de processos educativos, incluindo aqueles que são chamados em outras teorizações de ‘socialização”. Eles podem, grosso modo, ser divididos em intencionais e não intencionais. Os processos educativos não intencionais têm sido muito pouco re-conhecidos, visibilizados e problematizados a não ser em alguns campos específicos que se ocupam, por exemplo, de gênero, raça e sexualidade, onde eles assumem uma importância capital, uma vez que a produção dessas identidades resulta, na maioria das vezes, de pedagogias que envolvem estratégias sutis, refinadas e naturalizadas, exaustivamente repetidas e atualizadas, que quase não percebemos como tais. No contexto investigado, podemos qualificar as reuniões grupais como processo educativo intencional 4

não-formal. Contudo, na fala de uma das participantes, pode-se delinear o funcionamento de aprendizagens naturalizadas que se processam no cotidiano. Trata-se de uma jovem que perdeu a mãe e que assumiu suas funções no âmbito familiar e no grupo operativo do PAIF. Ela relata: Eu acho difícil, mas eu sempre arrumo um tempo pra ajudar eles a fazer os temas que eles tem que fazer, esse ano que eu desleixei mais, até dois rodaram, mas eu sempre arrumo um tempo para agüentar as coisas, se bem que eles nem me escutam, a gente fala as coisas eles viram as costas eles fazem o que a gente acabou de falar pra não fazer, eles fazem. […] é muita coisa pra uma pessoa só, tem que ajudar as crianças no colégio, tem que fazer comida, lavar roupa, bastante coisa, mas agora eu já estou mais acostumada (entrevista, 12/01/2007). Entretanto, os processos de naturalização podem sofrer deslocamentos quando se fazem exercícios de problematização com as mulheres inscritas no programa. Por exemplo, na reunião de 26 de outubro de 2006, foi realizada uma discussão em pequenos grupos a partir de um caso hipotético que denominamos de o caso da ponte: Era uma situação em que uma mulher casada é assassinada. A história começa com o marido que passa a chegar tarde em casa, ela fica se sentindo só e começa a encontrar um outro rapaz. Um dia voltando para casa recebe ameaça de um bandido e ela volta para pedir ajuda e o rapaz lhe diz que o problema é dela. Então ela busca um amigo para lhe ajudar a atravessar a ponte e passar pelo bandido. Mas o amigo tem medo. Tentam atravessar de barco e o barqueiro cobra 80 reais para atravessar, como eles não tinham dinheiro, Maria tem que voltar a pé e acaba sendo assassinada. A questão proposta é a de hierarquizar os culpados pelo assassinato de Maria em ordem decrescente. O grupo deveria nomear qual dos personagens era o mais culpado e menos culpado em ordem decrescente de culpa. (diário de campo, 26/10/2006) A pergunta proposta para desencadear a discussão é bastante emblemática para pensarmos essas relações de gênero vigentes nesse contexto. No grupo em que coordenei a discussão, pude fazer o seguinte registro: [...] havia 5 pessoas, contando comigo, sendo que o único homem presente além dos estagiários ficou ali. O estagiário pediu que eu assumisse a coordenação da discussão e comecei lendo a história. Tive que reler mais duas vezes, uma a pedido de Sandra que disse que o caso era difícil e precisava entendê-lo melhor e mais uma vez porque o homem chegou atrasado. Quando perguntei: e então, quem é o maior responsável dessa história? Sandra e mais uma das participantes logo disseram que era a Maria pois “ela é quem procurou”, o homem e a outra mulher disseram que era o Paulo que deixou a Maria na mão. É preciso dizer que todo o grupo, inclusive eu, partimos do pressuposto de que Maria estava tendo um caso extraconjugal com Paulo, muito embora isto não estivesse explícito na história. Depois de provocar algumas vezes as pessoas a repensarem suas respostas externei a minha dizendo que achava que o maior culpado ali era o bandido, uma vez que, independentemente das circunstâncias, ninguém tem o direito de tirar a vida alheia. Também concluímos que a história estava muito “mal contada” uma vez que faltavam muitos detalhes que ajudassem a pensar melhor sobre os fatos. O único fato concreto que tinha ali é que o bandido matou a Maria e não tinha o direito de fazer isso. Isso gerou uma discussão interessante ao término da qual todos concordaram que, então, ele era o culpado número 1. Paulo passou a culpado número 2, o marido a número 3, Maria, n. 4, o barqueiro, n.5 e o amigo, n. 6. (diário de campo, 26/10/2006). O teor da discussão foi mais ou menos o mesmo em todos os grupos. Embora, na votação final o bandido tenha sido declarado o primeiro culpado e o marido o segundo, as participantes e 5

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