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Fazendo Gênero 8 - Corpo, Violência e Poder Florianópolis, de 25 a ...

Fazendo Gênero 8 - Corpo, Violência e Poder Florianópolis, de 25 a ...

também um dos técnicos

também um dos técnicos reiteradamente retomaram um argumento bastante naturalizado em casos de violência, sobretudo sexual, contra as mulheres: “foi ela quem procurou”. Na discussão acima relatada, é possível ver então, que, ao mesmo tempo em que se reiteram representações hegemônicas de homem e de mulher, a problematização destas em um contexto que enfatiza o conhecimento dos direitos das mulheres provoca algumas fissuras nesses processos de significação. O fato de que, no final, o bandido tenha sido reconhecido como o maior culpado sinaliza esse movimento. No entanto, é preciso reconhecer que a problematização aqui proposta esteve calcada muito mais na perspectiva do empoderamento individual das mulheres através da elevação de sua auto-estima do que numa discussão que assume a construção social do feminino e do masculino como referência. Nesse sentido, a falta de auto-estima, que foi, reiteradamente, ‘colada’ ao ser mulher nesse contexto, foi abordada, também insistentemente, como um problema que pode e deve ser modificado. Ou seja, expressa-se, aqui, um paradoxo que, ao mesmo tempo, reitera e contesta o pressuposto da existência de uma ‘natureza feminina’, já que se pode e se deve intervir nela, para modificá-la. Questionada sobre os efeitos positivos das atividades em grupo na vida das mulheres, uma técnica refere: Sim, têm ganhos, com certeza têm ganhos, a própria troca delas entre si […] de compartilhar os mesmos problemas e aí verem, é o que eu digo, todo mundo fala: eu estou sofrendo, eu acho que o grupo tem uma coisa, o grupo assim vale muito [...] a gente encaminha pra cursos e elas se empenham assim de fazer cursos, de trazerem pessoas de fora [...] pra conhecerem o que tem na comunidade, assim, elas perguntam qual é a função do Conselho, qual é a função do delegado, qual é a função, acho que tem isso assim de ficarem mais autônomos e pessoas mais cientes assim da comunidade onde vivem e não ficarem como vítimas. […]. Às vezes elas querem vir só pra um olhar, uma conversa, falar das suas dificuldades, então é essa atenção (entrevista, 11/01/2007). Esse paradoxo atravessa e dá forma, também, à maioria dos programas educativos comprometidos com a modificação da situação de mulheres que vivem em condição de pobreza, que se apóiam, cada vez mais, em pressupostos que instituem o fortalecimento da auto-estima feminina como uma estratégia importante para propiciar essa modificação. Assim, a abordagem da auto-estima focaliza a ação educativa em uma mulher abstrata, descolada do contexto em que ela vive suas relações afetivas e sexuais, para provocar mudanças de comportamento também individuais. Ou seja, tirar a mulher da condição de pobreza envolve, no contexto de tais programas educativos, fornecer-lhe informações técnicas sobre crescimento e desenvolvimento infantil, sobre problemas juvenis, sobre direitos e deveres e formas de acesso a instituições sociais como cartórios de registro, delegacia de mulheres, Conselhos Tutelares, etc., e capacitá-la para que faça uso adequado dessas informações. Uma vez que a falta de auto-estima é entendida e descrita como um problema localizado no ‘ser mulher’, a ação se concentra, exatamente, na modificação dessas formas de ser mulher. 6

O que este e outros estudos desenvolvidos por nós têm permitido argumentar é que os investimentos em determinados modos de ‘ser mulher’ e de ‘exercitar a maternidade’, preconizados por esses programas, têm efeitos bem mais amplos do que as melhorias que estes pretendem promover (e efetivamente promovem) nas condições materiais de vida dos grupos aos quais se dirigem. Esses investimentos funcionam, também, como estratégias que devem permitir a minimização dos efeitos de dois movimentos conflitivos implementados dentro desses processos políticos, sociais e econômicos mais amplos: por um lado, a redução e o enxugamento do estado de bem-estar social (que, no Brasil, nem chegou a se consolidar) demanda a crescente responsabilização do indivíduo pela promoção de sua própria condição de bem-estar e esse pressuposto é constitutivo da racionalidade neoliberal; por outro, o aprofundamento das desigualdades econômicas, sociais e culturais que decorre deles tem gerado um conjunto substantivo de outros problemas, dentre eles o da feminização da probreza, e seu enfrentamento vem sendo reivindicado tanto por organismos internacionais (cf., por exemplo, ONU, 2003) quanto pela sociedade civil organizada e pelos segmentos sociais que sofrem os efeitos dessas desigualdades. Entretanto, nas políticas e programas direcionados para a inclusão social, as mulheres ainda são posicionadas e interpeladas, prioritariamente, como mães, como parceiras conjugais e como ‘reprodutoras’ e ‘nutrizes’ biológicas e culturais da espécie. Elas continuam sendo responsabilizadas, de forma central, pelas ações de promoção da saúde reprodutiva, pela adoção de métodos anticonceptivos, pela geração de crianças saudáveis e pela prevenção de doenças sexualmente transmissíveis. O que implica considerar que os conhecimentos e práticas que sustentam essas políticas e programas assumem o pressuposto de que mulheres devem se encarregar de determinados cuidados e ações no que se refere à sexualidade, à reprodução e ao cuidado infanto-juvenil, que são concebidos como uma continuidade do que elas já fazem como parte de suas atribuições naturais, não somente em relação a elas mesmas (seus corpos), mas também em relação a todos os seus familiares ( cf., por exemplo, MEYER, 2003). As estudiosas e ativistas que vêm criticando esses pressupostos (e eu me incluo aqui) argumentam que o seu enfrentamento exige mais do que problematizar relações interpessoais entre mulheres e homens ou reiterar que esses papéis ou funções femininos não estão dados pela natureza, mas são socialmente construídos. Tal enfrentamento exige o exercício de uma crítica que seja capaz de demonstrar que esses pressupostos são sustentados, dentre outras coisas, pelo próprio conhecimento que fundamenta a formação, as políticas e as práticas nas áreas da educação e da saúde. E eu diria que exige reconhecer, também, em alguns momentos, que esse posicionamento e responsabilização das mulheres podem estar sendo assumidos e fortalecidos por algumas correntes teóricas e políticas dentro do próprio feminismo. 7

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