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Corpo, Violência e Poder - Fazendo Gênero - UFSC

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dificuldades que

dificuldades que enfrentou. Pode se dizer com isso que a ciência é totalmente o exercício de uma dominação masculina, um discurso que exclui automaticamente as mulheres. Na primeira sinonímia, excluímos toda e qualquer dificuldade suplementar que Marie Curie enfrentou para produzir ciência, de fato. Na segunda, toda a paixão que envolveu seu ofício, o conteúdo, a própria radioatividade. Talvez seja interessante perguntar: se de fato a ciência é um território dominado por homens, como Marie Curie conseguiu fazer ciência a despeito de inúmeras outras mulheres? Essa é a paisagem problemática que o presente trabalho pretende abordar, tomarei o “Caso Marie Curie” como uma “ilustração” (como se diz em matemática) para apontar como o gênero informava a maneira pela qual o poder se exercia na comunidade científica, mas também, pensar por quais meios Marie Curie o deslocava em sua prática científica. Entretanto, os limites empreendidos para esse texto não me possibilitam a apresentação de muitos de meus dados. Caso algumas questões fiquem cifradas pelo curto espaço de apresentação, o leitor pode consultar (Pugliese, 2008) 4 , no qual encontrará as problematizações que inspiram a discussão que será feita aqui de forma mais abstrata. Um sobrevôo nos bastidores do Nobel de 1903... Marie Curie enfrentou grandes dificuldades em conquistar o interesse de pessoas e financiamentos de pesquisa, teve que começar seus estudos num galpão - sem características necessárias para pesquisas laboratoriais - transformando-o em um laboratório com ajuda de seu marido, que lhe cedeu seus primeiros instrumentos, também impróprios para a pesquisa que pretendia fazer. Outra dificuldade, não menos importante, era publicar suas conclusões, uma vez que a Academia de Ciências só editava trabalhos que fossem apresentados por membros, e não aceitavam mulheres. As pesquisas eram dela, mas as apresentações e láureas eram deles. O gênero aparecia desde sempre como um obstáculo suplementar. Naquele contexto, tudo se passava como se estivessem às mulheres para a sensibilidade, o coração e a subjetividade, assim como os homens para a razão o cérebro e a objetividade. Como constructos localizados de gênero, de forma pragmática esses atributos acabavam por excluir singularidades da feminina da prática cientifica, que é geralmente associada à razão, objetividade etc. Nos bastidores do Nobel de 1903, havia de fato uma ironia (corporificada) do destino. O prêmio concedido pela descoberta da radioatividade foi divido em dois, para três cientistas, mas só uma descobriu a radioatividade. A primeira vez que a radioatividade apareceu num laboratório foi em 1898, lá na Escola de Física no “notável” galpão, que Marie fazia questão de chamar de laboratório, enquanto preparava seu doutoramento. Fora lá que seus experimentos sobre os raios urânicos reviraram toda a física e a filosofia da matéria. Ali também houve algo importante. Enquanto nossa ilustre cientista fazia 2

as pesquisas sobre os misteriosos raios, Pierre enfrentava a alta física. Só que diante das proporções que as pesquisas de sua esposa tomaram, Pierre Curie deixou de lado suas pesquisas sobre eletricidade e magnetismo para ajudá-la na empreitada que inaugurou. Isso não só ajudou Marie Curie no que toca a publicação de notas sobre seus trabalhos, que passaram a ser redigidos em dupla, mas também em relação a relevância daquilo que ela estava fazendo. Dessa maneira, a circulação dos trabalhos ficou quase garantida, Henri Becquerel 5 um concorrente grande interessado nas pesquisas se comprometeu com Pierre em apresentar os trabalhos na Academia de Ciências, já que ele era membro e Pierre não. Como colocou Keller (1985) 6 , isso promove um não-homem no duplo sentido: não era um homem em particular, mas era um lócus para um não homem em todo observador particular. Esse processo acabava suprimindo o feminino, visto de forma negativa na ciência, em nome de um observador descoporificado, andrógeno, quero dizer não marcado. A participação de Pierre foi fundamental para deslocar as pesquisas de um “Eu” feminino, para um “Nós” andrógeno, mas principalmente para interessar mais agentes em torno das pesquisas de sua esposa. Mas esse processo também é uma via de mão dupla em outro sentido: o pronome “Nós” excluía as mulheres - pois eram pouco representadas nas ciências - o que as tornavam invisíveis, sendo seu trabalho esquecido na História masculina; mas do outro lado, ajudava Marie a publicar e mostrar suas conclusões, o que era impossível fazer sozinha, pois como vimos, a Academia de Ciências não aceitava publicações e muito menos apresentações de mulheres. Então, em meio a esse contexto ela escreve junto a Pierre, o artigo que de fato fez a radioatividade aparecer aos olhos da comunidade científica, desconstruindo a posição de seu concorrente direto e “colaborador” Henri Becquerel, que atribuía a atividade dos raios a hiperfosforescência. Em suas próprias palavras: “Os raios urânicos foram freqüentemente chamados de raios becquerel. Pode-se generalizar esse nome, aplicando-o não apenas aos raios urânicos mas também aos raios tóricos e a todas radiações semelhantes. Chamarei de radioativas as substâncias que emitem os raios becquerel. O nome de hiperfosforescência que foi proposto para o fenômeno me parece uma falsa idéia de sua natureza”(Marie Curie et. ali., 1899) 7 . [grifos meus]. Essa nota foi apresentada pelo próprio Becquerel a Academia de Ciências, que reconheceu publicamente que “os Curies” tinham razão. Assim ela submete Becquerel e os outros cientistas a uma interessante política: quanto mais Marie fazia a radioatividade agir sozinha, calando seu rival, mais a radioatividade afastava Marie dos problemas com gênero, fazendo com que ela fosse progressivamente mais aceita, quero dizer, tratada como uma “exceção”. A radioatividade passa a ter a dinâmica ontológica de agente (Latour, 1994; Haraway, 1995) 8 , pois principal motivo pelo qual Marie Curie 3

Corpo, Violência e Poder - Fazendo Gênero 10 - UFSC
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