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Escrevendo a história no feminino - Fazendo Gênero

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permitir eu ficar muito

permitir eu ficar muito tempo fora de casa, pois mulher que dá plantão precisa se ausentar por muito tempo”. Também, refere que ao ingressar na residência de ginecologia uma colega veio lhe alertar sobre a forma de ascensão na carreira naquele ambiente hospitalar: “Ela me disse mais ou menos assim: - olha! Se você tem pretensões de subir aqui neste serviço só vai ter um jeito: vais ter que ficar na horizontal. Ai eu respondi: muito obrigada, prefiro ir para a praia”. “Tive que apresentar meu noivo aos professores e colegas para me livrar do assédio sexual. Assim, como eu era uma vaca marcada pararam de me assediar, e até ficaram amigos do meu noivo”. Aponta que um colega de trabalho até poucos anos atrás vivia dizendo que tinha sonhos eróticos com ela: “ele sonhava comigo na cama, mesmo sabendo que eu vivo muito bem com meu marido”. Relata que muitos colegas consideram-na inconveniente porque “tenho brilho próprio”, e “sou uma forte concorrente sabe por quê? Porque atendo muito bem as pacientes, sei operar e não dependo deles para me manter na medicina”. Tasy alude que na residência médica havia muitas mulheres e só um homem. Afirma que mesmo sendo maioria, as mulheres não possuíam as mesmas regalias que ele. “Ele era muito mais bem tratado pelos professores, do que nós”. Segundo ela, os docentes “eram do mal”, porque naquela instituição era cultural ser mal. “Eu acho que eles eram do mal porque eram incompetentes e faziam questão de humilhar a gente o tempo todo”. Faz referência a um fato que ocorreu recentemente durante um congresso médico, ao apresentar um trabalho. “Eu fui chacoteada por um cara [...] que estava na platéia, que além de duvidar do procedimento só considerou os resultados porque não queria discutir comigo. Sabe o que ele disse? Porque eu era tão bonitinha”. Cita que o público de mulheres achou o máximo, mas que para ela aquele comentário foi uma forma tácita de desconsiderá-la como profissional competente que é. Comenta também que foi desvalorizada como profissional quando ingressou em um hospital em Florianópolis. “Trabalhei lá por alguns anos como escrava. Montei um serviço [...], sem dizer que tinha um profissional que me ignorava durante as cirurgias, mesmo eu sendo a cirurgiã principal. Ele fazia de conta que eu não existia, e só me tratava bem quando meu marido que também é medico entrava na sala de cirurgia”. 2

Maria narra que o início de sua carreira foi muito tumultuado, pois era de outra cidade, e como não tinha onde trabalhar ofereceu-se para prestar plantões um hospital privado onde não havia mulheres trabalhando como ginecologistas regularmente. Relata que a primeira citação do chefe do plantão que a aceitou foi a gravidez. “Ele me perguntou se eu estava grávida e eu respondi que não, embora sabendo que sim. Tive que mentir, mas poderia ter dito a verdade. No entanto, se tivesse dito, não teria a oportunidade que ele estava me dando”. Para Violeta o cenário não foi diferente, pois segundo ela: “Fiquei muito tempo trabalhando como escrava, mas o primeiro ano foi crucial, porque eu fazia plantões todos os dias, ou melhor, todas as noites e não recebia nada, um tostão sequer. Tive que aprender a operar rápido porque tinha um médico [...] que me atormentava. Ele viva dizendo que eu não sabia nada, que o chefe não deveria me deixar fazer qualquer procedimento. Até que um dia eu resolvi tomar uma providência, avancei nele, joguei na sua cara a porção de certo alimento que estava em minhas mãos, na frente de todo mundo. Ele ficou todo sujo. Parecia uma sessão pastelão. Aí, ele passou a me respeitar, acho que foi por medo, sei lá..., mas também porque eu não dava chance. Eu era melhor que muito homem. Só deixei de ser escrava quando outro profissional, por consideração ou pena, talvez, me convidou para trabalhar com ele. Aí foi o céu, afinal, eu estava sendo tratada como gente, como profissional, como mulher. Ele me ensinou muito do que sou, me fez resgatar a pessoa boa que eu era e que tinha sido perdida naqueles anos de exploração e agonia. Alega que recentemente, durante uma cirurgia ginecológica de grande porte ouviu uns colegas dizerem que ela era uma ótima cirurgiã e que um deles citou que ela opera como um homem! A partir destes depoimentos podemos perceber o pouco valor dado ao sexo feminino em certas áreas da medicina, especialmente a cirúrgica, o que nos remete à reflexão da trajetória das mulheres na arte do curar. Conforme Santucci (2005) a mulher médica para se estabelecer na profissão, cujo domínio por séculos e séculos pertenceu ao masculino necessitou constituir uma guerra travando diversas lutas: na Grécia antiga eram intermediárias entre seus confrades e o pudor das pacientes; na antiga Roma concorriam com os escravos; foram excluídas de modo sangrento na Idade Média para reaparecer no século XIX quando o processo acelerado de desenvolvimento tecnológico permitiu que de país em país movimentos feministas, mais ou menos estruturados exigiram que as mulheres se tornassem parte integrante das mudanças sociais e dos avanços científicos. Necessitaram esconder o status feminino para exercer a profissão ou constituíram alianças entre si e/ou foram subvencionadas por banqueiros quakers na América do Norte, para propiciar o estudo e a prática da arte médica para mulheres, brancas, negras e indígenas. A sociedade entre Mary Elizabeth Garret filha de John Work Garret, ex-presidente dos acionistas da Estrada de Ferro 3

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