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Ana Aparecida Esperdião Constancio - Fazendo Gênero

Ana Aparecida Esperdião Constancio - Fazendo Gênero

Fazendo

Fazendo Gênero 9 Diásporas, Diversidades, Deslocamentos 23 a 26 de agosto de 2010 Assim, Auad faz uma importante ressalva e nos lembra que “não basta misturar os meninos e meninas nas aulas” (2006). A escola mista, no nosso caso as aulas de educação física, por si só não garante que as desigualdades deixarão de existir. É necessário, sobretudo, realizar uma reflexão pedagógica a respeito das relações de gênero com objetivos bem definidos a serem desenvolvidos, caso contrário, pode influenciar na construção, bem como no reforço de relações de gênero desiguais na realidade escolar. A autora deixa claro que não defende as aulas separadas, pelo contrário as aulas mistas são imprescindíveis para que se desenvolva uma sistemática de reflexão fundamentada na co-educação proposta cujo objetivo é “incitar questionamentos e reconstruir ideias sobre o masculino e o feminino, estes percebidos como elementos não necessariamente opostos ou essenciais” (AUAD 2006, p.55). Por outro lado, a reivindicação dos professores, para que as turmas se mantivessem separadas, segundo fundamentaram-se nas “diferenças físicas e as peculiaridades de cada aluno e no papel social que o esporte tem para afastar os alunos dos perigos que os rodeiam” (APPEL JÚNIOR, 2007). Mas, a unificação traria também aos professores/as consequências como: desemprego dos contratados, remanejamento dos nomeados para outras escolas para suprirem os contratos, a baixa qualidade do ensino ocasionada pela enturmação além das questões de gênero, bem como a dificuldade em trabalhar com turmas mistas. A manifestação dos professores/as pode ser observada por dois vieses: como forma de resistência e contestação às imposições ocasionadas pela política implantada na atual gestão do governo do Estado e como uma forma conservadora dos professores/as de Educação Física em manter as turmas separadas. Este fato revela uma concepção tradicional de realizar as aulas de Educação Física no ambiente escolar, embasadas no determinismo biológico e na aptidão física que justificariam a separação entre os mesmos. Quanto às resistências, Apple (1989) nos revela que estão sempre presentes (seja na fábrica, escritórios ou escolas) como uma maneira de se opor ao aparato ideológico do estado. As resistências adquirem formas de conhecimento e procedimentos que ao longo da história não são esquecidos, mas sim transformados. Os trabalhadores em todos os níveis tentam criar condições informais para obter um certo grau de controle sobre o seu trabalho, para estabelecer um sentido de poder informal e para utilizar suas habilidades- frequentemente através de formas culturais, não diretamente políticas 3 . 3 APPLE, Michael W. Educação e poder. Porto Alegre: Artes Médicas, 1989, p. 122. 6

Fazendo Gênero 9 Diásporas, Diversidades, Deslocamentos 23 a 26 de agosto de 2010 As resistências nesse aspecto caracterizaram através das manifestações organizadas pelos professores/as, bem como os arranjos produzidos nas escolas ao dividirem as turmas mistas para as aulas de Educação Física constituindo alternativas às coerções impostas pelas ações governamentais. Após a determinação da fusão das turmas, cada escola com seus respectivos professores/as de Educação Física atuaram de forma diferenciada, algumas realizaram a fusão e outras com o intuito de manter a separação utilizaram duas modalidades para manter as turmas separadas. Dornelles (2007) revela como essas modalidades de separação ocorrem nas aulas e as subdivide em duas sendo uma extraoficial, pois a separação ocorre no interior da disciplina de Educação Física, sem que a organização escolar perceba e a outra é dita como oficial, o arranjo para que aconteça a separação entre meninos e meninas é corroborada pela organização escolar. Na primeira, a extraoficial, as turmas contam como mistas, mas são separadas durante o transcorrer das aulas de Educação Física, sendo que os meninos ocupam um espaço para realizar certa modalidade e as meninas ocupam outro realizando a mesma atividade ou não. A segunda modalidade de separação é aquela oficialmente constituída e conta com a participação do aparato escolar, pois é necessário que a escola, ao fazer o horário dos componentes curriculares, permita que duas turmas fiquem juntas para a realização das aulas de Educação Física. Aqui, uma das formas configura-se quando duas turmas são divididas em meninos e meninas. Somam – se os meninos de uma turma com os meninos da outra turma; faz-se o mesmo com as meninas. As duas turmas mistas -nos momentos de atividades em sala de aula- “são transformadas em uma turma inteira de meninos e uma turma inteira de meninas, especificamente, nas aulas de Educação Física” (DORNELLES, 2007 p.47). Na realidade específica do estudo constatou-se que ambas as modalidades de separação foram utilizadas na rede, ou seja, a discriminação continua, embora alguns professores/as mesmo contrariados tenham desenvolvido aulas mistas com interação entre meninos e meninas. Por isso, é necessário analisar a Educação Física que – enquanto um fato histórico, social, cultural – que está inserida dentro de um contexto econômico, social e político mais amplo que perpassa as classes sociais e instituições como a família, religião, mídia e escola, sujeita, portanto, às determinações históricas e políticas. Devemos, enquanto “formadores”, nos questionar sobre os processos normativos de construção do saber, nas linguagens acadêmicas, na seleção de conteúdos e na organização administrativa escolar visar a desnaturalização de processos que são socialmente construídos e a 7

Ana Beatriz Rodrigues Gonçalves - Fazendo Gênero
Ana Cristina Leal Moreira Lima - Fazendo Gênero
Download do Trabalho - Fazendo Gênero - UFSC
Amanaiara Conceição de Santana Miranda - Fazendo Gênero 10