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gênero, idade média e interdisciplinaridade. ST ... - Fazendo Gênero

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da versão medieval

da versão medieval portuguesa da Bíblia, parcialmente publicada no Brasil por Heitor Megale em 1992. O texto em questão, hoje perdido, encontrava-se no códice 349 da Biblioteca do Mosteiro de Alcobaça e foi publicado pelo Frei Fortunato de São Boaventura em 1829. Essa versão portuguesa da Bíblia, segundo Megale, não é uma tradução da Vulgata, mas uma versão da Historia Scholastica, de Pedro Comestor, 4 “uma miscelânia de textos bíblicos, história profana extraída de Plínio, de Flávio Josefo, de textos homéricos, em sua versão em prosa; algumas vezes, versos de Ovídio e também comentários que oportunamente o autor insere em seu texto. De fato, um intertexto em que são por demais freqüentes transcrições de uma fonte principal, a Vulgata”. 5 Ou seja, ainda que se mantenha fiel, em linhas gerais, à narrativa bíblica, o texto em análise apresenta elementos inovadores, tais como uma nova organização de capítulos, simplificações, inserção de detalhes, elaboração de associações e interpretações de alguns fatos, etc. 6 Essa versão portuguesa da Bíblia, apesar de suas funções religiosas e didáticas, possuía um caráter culto, como é possível inferir pelas adições de idéias aristotélicas e de dados astronômicos, geográficos e químicos. Seu público alvo, certamente, era formado por religiosos, estudantes das escolas das catedrais, universitários e pregadores, sobretudo mendicantes. Esse texto foi traduzido e circulou em Portugal em um momento marcado pelas tentativas do papado em introduzir seu modelo de organização eclesiástica em todo o Ocidente; pela expansão das ordens mendicantes, em especial dominicanos e franciscanos; pela multiplicação dos centros de saber urbano; pelo reinado de D. Diniz, que introduziu reformas e estimulou a produção literária, e por transformações na nobreza portuguesa, como a transferência de algumas famílias do Norte para o Sul; a nova hierarquização interna em função das ligações com a Corte, e a reivindicação de antepassados gloriosos, etc. É nesse contexto que a retomada da narrativa sobre a criação de Eva, preservada por séculos como monumento, ganhou uso específico, preservando e/ou rompendo com tradições. Na Bíblia medieval portuguesa em estudo, Deus é o personagem central. A ele cabe a maior parte das ações. Ele cria a terra e tudo o que nela há, incluindo o homem e a mulher. Como no Gênesis hebraico e latino, 7 há, na versão portuguesa, duas narrativas de criação do homem e mulher. Essa dupla narrativa da criação explica-se pelo processo de composição do Pentateuco hebraico, formado por tradições textuais diversas que, posteriormente, foram reunidas. 8 Na primeira narrativa, apresentada no cap. 7, a criação ocorre simultaneamente: “Depois disse nostro Senhor: Façamos home aa nossa ymagem, e aa nossa similidõe; e foi feito o home aa ymagem de Deus, quanto a alma. Macho e fêmea os criou Deus”. 9 Nesse relato, como uma adição à Vulgata, o homem e a mulher são criados com uma alma, aliás, o que os torna a “ymagem” de Deus. O texto, ao destacar que foram criados macho e fêmea, sublinha, porém, as diferenças anatômicas entre ambos, fundamentais para a multiplicação da espécie. Esse fato é sublinhado nesse 2

mesmo capítulo, que acrescenta que, após a criação, “beenzeu Deus o home, e a molher, e disse: Crecede, e multiplicade, e enchede a terra, e sojugade-a”. 10 Com esse gesto, Deus legitima a relação sexual entre os humanos, fundamentada na necessidade da procriação, e aponta para uma relação hierárquica: o homem e a mulher devem dominar todos os demais seres vivos. A segunda narrativa da criação divide-se em dois capítulos. No 9 relata-se a criação do homem e no 12 a da mulher. 11 Segundo o texto português, Deus “formou” o corpo do homem do “limo da terra” e deu-lhe “spiraçõ de vida”, ou seja, dotou-lhe de uma alma, que foi criada de “nemigalha”, isto é, de coisa alguma. 12 O texto informa que ao homem coube guardar o paraíso e acrescenta, como uma explicação, que o homem já fora criado como adulto e a sua morte era uma possibilidade, o que não figura na Vulgata. No capítulo 12, a idéia da criação da mulher parte de Deus, que quer dar ao homem uma “ajudoiro semelhavil” e apresenta detalhes diferentes face ao texto da Vulgata. Na narrativa em português, Deus mandou que Adão desse nome a todos os animais para mostrar que dentre eles não havia nenhum que lhe era semelhante: “adusse Deus a Adam todalas animalhas da terra, e do aar, pêra lhes poer os nomes e pêra veer que nom avia hi tal, que fosse semelhavil a el”. 13 Deus, então, fez o homem dormir e tomando uma de suas costelas, “feze dela molher”. Vale destacar que o texto, mantendo-se fiel à Vulgata, não fala que a mulher recebeu uma alma. O homem reconhece a mulher como osso dos seus ossos e carne da sua carne e a nomeia, como fez com os outros animais. Ele a denomina como Virago, termo que na Bíblia portuguesa e na Vulgata é explicado como “feita de varão”. Ainda no capítulo 12, em um discurso atribuído ao personagem Adão, acrescenta-se que por causa da mulher o homem deixará seus pais e “seram dous em hua carne”. Ou seja, trata-se de uma clara referência ao casamento, como uma idéia humana face à obra divina da criação. Esse fato é reforçado no capítulo seguinte, quando Adam passa a ser identificado como “marido”. A partir desses dados textuais e à luz da categoria gênero e do contexto de tradução da obra, a que conclusões podemos chegar? Em linhas gerais, podemos apontar que os capítulos analisados parecem explicar por que os homens e as mulheres apresentam diferenças, como essas diferenças são importantes para a preservação da espécie e como surgiu o casamento. Neste sentido, a Bíblia portuguesa reforça a idéia de que desde a criação homem e mulher são diferentes. Isto fica patente nos dois relatos da criação. No primeiro, ainda que informando que Deus criou o homem e a mulher no mesmo momento, é destacada a diferença sexual. No segundo, eles são diferentes quanto à matéria de que são feitos – homem, do limo e sopro divino; mulher, da costela de Adam -, e quanto às suas funções – o homem guarda o Paraíso, a mulher o ajuda. O próprio termo usado no texto – semelhavil – traduz a idéia de que apesar de criados por Deus há uma hierarquização entre eles. Primeiro surgiu o 3

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