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gênero, idade média e interdisciplinaridade. ST ... - Fazendo Gênero

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homem, cujo corpo foi

homem, cujo corpo foi modelado com a terra, mas cuja alma veio diretamente de Deus. A mulher, apesar de ter sido feita por Deus, deriva da carne do homem, surge depois dele e em função dele, já que foi criada para ajudá-lo, e não recebeu o sopro de Deus, a alma. Deus cria o homem e faz a mulher a partir de uma parte do corpo de sua criatura. Há que sublinhar que dentro da lógica do texto em estudo, a criação da mulher não é um castigo para o homem, mas um bem. Feita por Deus, considerado pelos teólogos medievais como a origem de todo o bem, ela não poderia ser um mal. Essa idéia é reforçada no fato do texto português optar por manter o nome Virago, proveniente do latim, dado à mulher por Adão. Esse termo, derivado de vir, originariamente significava "mulher semelhante ao homem e, portanto, forte, destemida, heróica", e era usado para denominar mulheres heroínas. 14 Segundo Cláudio Moreno, “etimologicamente virago nunca foi um feminino genérico de varão, que pudesse ser aplicado a qualquer mulher”. 15 Logo, o seu uso no texto da bíblia portuguesa poderia figurar para qualificar a mulher positivamente, porque proveniente e, portanto, semelhante ao homem. A mulher e o homem, segundo o relato em análise, foram colocados no Paraíso, espaço também criado por Deus. E como era esperado de todos os seres viventes criados por Deus, eles deveriam crescer e multiplicar. A procriação é, portanto, uma ordem dada por Deus. Assim, é traçada uma relação entre a criação da mulher da matéria do homem, a prática sexual heterossexual e o casamento. A mulher, como era a única dentre os seres criados semelhante ao homem, era a única com a qual esta união carnal é possível. Com um objetivo claramente didático, o texto qualifica um dado comportamento sexual como natural e aprovado por Deus e sutilmente condena os “contra a natureza”, de forma explícita as relações sexuais com animais e a homossexualidade. Assim, associado à reprodução, o casamento torna-se um elemento fundacional, anterior à queda do homem e, consequentemente, necessário. O matrimônio é, então, apresentado como um rompimento do homem com a família que o engendrou para a criação de uma nova família, pela união com outra mulher. Vale destacar que é justamente nesse período que a Igreja busca regulamentar o casamento, monogâmico e heterossexual, sacralizando-o e legitimando-o pela necessidade da procriação, e essa narrativa reforça essas iniciativas. O texto da Bíblia medieval portuguesa, reiterando elementos tradicionais e incluindo alguns detalhes explicativos, constrói o feminino e o masculino como semelhantes quanto à matéria, mas hierarquicamente posicionados, reiterando, assim, as diferenças de gênero. Por outro lado, legitima e apresenta uma visão positiva do casamento, no qual a mulher ocupa uma posição inferior ao homem, é sua “ajudadoira”, mas personagem central para a reprodução. Comparando os relatos de Hesíodo e o Gênesis da Bíblia medieval portuguesa, podemos verificar algumas diferenças básicas. No texto grego, Pandora é uma contrapartida de Zeus às ações dos homens; uma oferenda formada pelos deuses para os homens, fabricada como uma recatada 4

virgem. Ela é um mal reverso em bem que provoca o espanto. A partir dela descende a raça das mulheres. Eva foi feita por Deus a partir da matéria do homem. Foi criada para ser sua companheira, mãe de seus filhos e sua ajudante no cuidado do paraíso. Como criação de Deus, ela não é um mal. Por ser da mesma carne do homem, inicialmente é identificada com ele: ela é uma virago, uma mulher forte, uma heroína. Buscando dar explicações para as diferentes formas de organização humana, os mitos analisados, elaborados em contextos distintos, retomaram antigas tradições. Dotaram as mulheres de características diferentes, mas reforçaram as relações hierárquicas de poder entre os gêneros. Aplicando a comparação aos estudos de gênero em perspectiva histórica, é possível verificar como as construções de gênero operam de foram particular em diferentes sociedades. Ao dotar de sentido, naturalizar, explicar, legitimar e normatizar as diferenças sexuais, ainda que com variações, o gênero configura-se como um elemento constitutivo da organização social, que reforça as diferenças e as hierarquiza. Bibliografia: BULLÓN FERNÁNDEZ, M. La tentación de Adán y Eva en la literatura inglesa de la Baja Edad Media: caracterización alegórica. Atlantis, v. XIII, an. 12, p. 131-142, 1991. GHELLINCK, J. DE. Peter Comestor. In: Knight, K. (Ed.) The Catholic Encyclopedia on line. Disponível em http://www.newadvent.org/cathen/11763b.htm. Consultado em 26 de junho de 2006. GOTTWALD, N. K. Introdução sócio-literária à Bíblia hebraica. São Paulo: Paulinas, 1988. MARQUES, A. H. O. História de Portugal. 11 ed. Lisboa: Palas, 1983. MATTOSO, J. (Dir.). História de Portugal. Lisboa: Círculo de Leitores, 1993. V. 2. ___. Portugal Medieval: novas interpretações. 2 ed. Lisboa: Imprensa Nacional-Casa da Moeda, 1992. MEGALE, H. (Ed.) O Pentateuco da Bíblia Medieval Portuguesa. São Paulo: EDUC-IMAGO, 1992. MORENO, C. Virago, varoa. Disponível no site http://www.sualingua.com.br/01/01_ virago.htm. Consulta em 23 de junho de 2006. SARAIVA, A J. A Cultura em Portugal. Lisboa: Gradiva, 1992. SARANYAMA, J I. La discusión medieval sobre la condición femenina (Siglos VIII XIII). Salamanca: Universidad Pontifícia de Salamanca, 1997. SCHMITT, Jean-Claude (Dir.). Éve et Pandora. La création de la femme. Paris: Gallimard, 2001. SERRÃO, J., MARQUES, A. H. O. (Dir.). Nova história de Portugal. Lisboa: Presença, 1996. 5

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