Views
4 years ago

Download do Trabalho - Fazendo Gênero - UFSC

Download do Trabalho - Fazendo Gênero - UFSC

Fazendo

Fazendo Gênero 9 Diásporas, Diversidades, Deslocamentos 23 a 26 de agosto de 2010 Atualmente, igualmente segundo Hall 5 , estamos vivendo a era do sujeito pós-moderno, sujeito esse que não possui identidade fixa, essencial ou permanente. No sujeito pós-moderno, a identidade torna-se uma “celebração móvel” que é formada e transformada continuamente em relação às formas pelas quais é representada ou solicitada nos sistemas culturais que a rodeiam. Esse sujeito é definido historicamente, e não biologicamente. Assume identidades diferentes, em diferentes momentos, que não são unificadas ao redor de um “eu” coerente. No sujeito pós- moderno, coexistem identidades contraditórias empurrando-o em diferentes direções, de tal modo que as identificações estão sendo continuamente deslocadas. Nessa concepção, a identidade plenamente identificada, completa, segura e coerente é uma fantasia. Em vez disso, à medida que os sistemas de significação e representação cultural se multiplicam, somos confrontados por uma multiplicidade desconcertante e cambiante de identidades possíveis, com cada uma das quais podemos nos identificar (pelo menos temporariamente). Ainda para Hall 6 , é na tentativa de rearticular a relação entre sujeitos e práticas discursivas que a questão da identidade – ou melhor, a questão da identificação, caso se prefira enfatizar o processo de subjetivação (em vez das práticas discursivas) e a política de exclusão que essa objetivação parece implicar – volta a aparecer. A “identificação”, ainda seguindo o pensamento deste autor, acaba sendo um conceito pouco desenvolvido na teoria social e cultural. Por essa razão, torna-se necessário buscar subsídios de compreensão tanto no repertório discursivo quanto no psicanalítico. Na linguagem do senso comum, a ‘identificação’ é construída a partir do reconhecimento de alguma origem comum, ou de características que são partilhadas com outros grupos ou pessoas, ou ainda a partir de um mesmo ideal. [...] Ela não é, nunca, completamente determinada no sentido de que se pode, sempre, ‘ganhá-la’ ou ‘perdê-la’, no sentido de que ela pode ser sempre sustentada ou abandonada. [...] A identificação é, pois, um processo de articulação, uma suturação, uma sobredeterminação, e não uma subsunção. [...] [C]omo num processo, a identificação opera por meio da différence, ela envolve um trabalho discursivo, o fechamento e a marcação de fronteiras simbólicas, a produção de ‘efeitos de fronteiras’. Para consolidar o processo, ela requer aquilo que é deixado de fora – o exterior que a constitui. 7 No lugar de ver a identidade como um fato consumado e representado pelas práticas culturais, Hall propõe pensá-la como uma produção que nunca se completa, que está sempre em processo e é sempre constituída internamente, e não externamente à representação. O que definimos como nossas identidades poderia provavelmente ser mais bem conceituado como as sedimentações ao longo do tempo daquelas diferentes identificações ou posições que adotamos e procuramos viver 5 HALL, Stuart. Quem precisa de identidade? In: SILVA, Tomaz Tadeu. Identidade e diferença: a perspectivA dos estudos culturais. Petrópolis: Vozes, 2000b. 6 Op.cit. 2000a, p. 105. 7 Op.cit. 2000b, p. 106. 2

Fazendo Gênero 9 Diásporas, Diversidades, Deslocamentos 23 a 26 de agosto de 2010 como se viessem de dentro, mas que, sem dúvida, são ocasionadas por um conjunto especial de circunstâncias, sedimentos, histórias e experiências únicas e peculiarmente nossas como sujeitos individuais. Como representação social, a identidade é uma construção simbólica de sentido que organiza um sistema compreensivo a partir da idéia de pertencimento. A identidade é uma construção imaginária que produz uma certa coesão social, permitindo a identificação da parte com o todo; também é relacional, pois se constitui a partir da identificação. Diante do “eu” ou do “nós” do pertencimento se instaura a estrangeiridade do outro. Assumir identidades como construção imaginária de sentido pode significar uma compensação simbólica em relação a perdas reais da vida. Nesse sentido de compensação simbólica a perdas reais da vida, Bhabha 8 , tratando do tema da cultura para além da oposição sujeito/cultura, diz que falar em sujeito significa falar de sujeitos híbridos e sem identificações fixas que se estabelecem na fronteira do além. O além, para o autor, não significa um novo horizonte nem um abandono ao passado, mas sim o momento de trânsito em que o espaço e o tempo se cruzam para produzir figuras complexas de diferença e identidade, de passado e de presente, de interior e de exterior, de inclusão e de exclusão. Habitar o além é fazer parte de um tempo revisionário que renova o passado refigurando-o como um entre-lugar 9 que inova e interrompe a atuação do presente da necessidade, e não da nostalgia de viver. Assim, estudar a fronteira do além, para Bhabha, é discutir os entre-lugares que fornecem terreno para a elaboração de estratégias de subjetivação. Ainda para Bhabha, diferentemente da história morta, que narra as contas do tempo seqüencial, estar no além é habitar um espaço intermediário, é ser parte de um tempo revisionário, é residir num espaço de intervenção do aqui e do agora. A partir do pensamento deste autor, retomo Valda Costa e Frida Kahlo suas vidas narradas nos quadros, para, quem sabe, fazê-las coabitar um espaço do além, um espaço de intervenção do aqui e do agora, pois, lidar com tal possibilidade de coabitação requer uma invenção que renove e reconfigure o passado a partir de uma sobrevivência: a do espaço de mim, já que o “eu nômade, sou outra, além daquilo que pareço e falo. Eu sou um 8 BHABHA, Homi K. O local da cultura. Belo Horizonte: Ed. UFMG, 2003. 9 Silviano Santiago utilizou essa bela expressão para designar, em suas análises, as tensões existentes entre a produção periférica culta e a sua recepção nos países do Primeiro Mundo. 3

Download do Trabalho - Fazendo Gênero - UFSC
Download do Trabalho - Fazendo Gênero - UFSC
Download do Trabalho - Fazendo Gênero - UFSC
Download do Trabalho - Fazendo Gênero - UFSC
Download do Trabalho - Fazendo Gênero 10 - UFSC
Download do Trabalho - Fazendo Gênero - UFSC
Download do Trabalho - Fazendo Gênero - UFSC
Download do Trabalho - Fazendo Gênero - UFSC
Download do Trabalho - Fazendo Gênero - UFSC
Download do Trabalho - Fazendo Gênero 10 - UFSC
Download do Trabalho - Fazendo Gênero 10 - UFSC
Download do Trabalho - Fazendo Gênero - UFSC
Download do Trabalho - Fazendo Gênero - UFSC
Download do Trabalho - Fazendo Gênero 10 - UFSC
Download do Trabalho - Fazendo Gênero - UFSC
Download do Trabalho - Fazendo Gênero - UFSC
Download do Trabalho - Fazendo Gênero - UFSC
Download do Trabalho - Fazendo Gênero - UFSC
Download do Trabalho - Fazendo Gênero 10 - UFSC
Download do Trabalho - Fazendo Gênero - UFSC
Download do Trabalho - Fazendo Gênero - UFSC