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Gênero nas interseções: classe, etnia e gerações ... - Fazendo Gênero

Gênero nas interseções: classe, etnia e gerações ... - Fazendo Gênero

1995; ATTIAS-DONFUT,

1995; ATTIAS-DONFUT, 1995 7 ), afirmem que as ajudas se dão com mais intensidade das gerações descendentes para as ascendentes, ou seja, dos pais para os filhos ou, mesmo dos avós para os netos. Na medida em que a coexistência de várias gerações é um fenômeno cada vez mais freqüente, assistimos ao surgimento do que chamamos de novos laços familiares, com a geração de 50 a 60 anos, chamada por Attias-Donfut 8 de geração “pivô”, passando a enfrentar o que pode ser considerado um dos maiores desafios do novo século: cuidar, ao mesmo tempo, dos pais idosos, dos filhos e dos netos 9 . Embora a coabitação possa ser considerada importante na medida em que favorece a construção de verdadeiros laços entre pais, filhos e netos com a manifestação de apoios que se manifestam através de reciprocidades múltiplas 10 , “o princípio de igualdade absoluta entre os indivíduos nas relações intergeracionais não corresponde à realidade das práticas familiares” 11 . As denúncias de violência contra os mais velhos comprovam que o fato dos idosos viverem com os filhos não é garantia da presença de respeito e de prestígio nem da ausência de maus-tratos e violência. No momento em que os velhos se negam a obedecer ao lugar a eles reservado na divisão culturalmente atribuída de direitos e deveres por ciclos de vida, a respeitar os limites impostos pelo preconceito social, temos aqui o que Bourdieu 12 aponta como aquilo que faz surgir os conflitos entre gerações: a disputa de poder. E é na família, lugar por excelência das emoções, da privacidade e da intimidade, que os dramas individuais ocorrem fundamentalmente. Na maioria dos estudos internacionais (GASTRÓN, 1999; WOLF, 1999; CHAVEZ, 2002), a violência familiar contra idosos aparece sempre em primeiro lugar quando comparada com outras formas de violência como a negligência social difusa, a violência institucional, ou a violência do trânsito etc. Podemos distinguir no Brasil, uma violência do tipo estrutural, cujas expressões mais fortes são os idosos cada vez mais presentes nas sinaleiras das grandes metrópoles; uma violência social, cujas manifestações mais fortes configuram-se na violência doméstica, na qual os idosos são vítimas e atores. A violência estrutural incide sobre as condições de vida das pessoas, a partir de decisões históricas, econômicas e sociais e, por possuir um caráter de perenidade, acaba sendo percebida pelos atores sociais como algo “natural”. “Eu preciso levar alguma coisa pra casa porque o dinheiro da minha aposentadoria já acabou e se faltar comida meu filho me agride. Ele está desempregado e bebe todos os dias” 13 . No Brasil, ainda são poucos os estudos que se propõem a investigar o fenômeno da violência relacionado às questões do envelhecimento e, particularmente, no que se refere a sua incidência nas famílias contemporâneas, podendo-se citar o trabalho de Minayo 14 , Ibias e Grossi 15 , Menezes 16 , Souza et al. 17 , Figueiredo 18 . 2

Em termos mais qualitativos, menos ainda se conhece acerca de como o envelhecimento tem sido vivenciado por este segmento populacional quando se faz necessário compartilhar espaços e experiências com outras gerações. Para tanto, faz-se necessário compreender, entre outros aspectos, a diversidade de trajetórias de vida desses sujeitos, as formas como as relações intergeracionais influenciam suas relações objetivas e subjetivas com a sociedade, a possibilidade de realização de projetos pessoais, seus vínculos interpessoais, a organização doméstico-familiar, entre outros fatores. Para Camarano et all (2004, p. 145), é importante conhecermos se “do ponto de vista dos idosos os arranjos familiares predominantes estão refletindo as suas preferências ou se são resultado de uma “solidariedade imposta” [...] por pressões econômicas, sociais e/ou de saúde, seja de sua parte, seja da parte de seus filhos [...] pois este pode ser um elemento desencadeador de insatisfações e violência doméstica” A sociedade brasileira caracteriza-se por um alto índice de violência familiar e, de acordo com Saffioti 19 , recai sempre sobre as mesmas vítimas - mulheres, crianças ou velhos – o que deve ser considerado a fim de que se possa compreender a sua rotinização. Ocupando, na década de 90, um lugar cada vez maior na mídia impressa e eletrônica, essa forma de violência apresenta-se nas estatísticas indicando que os crimes perpetrados por desconhecidos competem com aqueles cometidos por parentes, amigos e vizinhos 20 . A família, então, deixa de ser vista como o espaço de proteção e cuidado para ocupar o lugar onde, em muitos casos, as relações de opressão, abusos físico e emocional, crime e ausência de direitos individuais prevalecem. “O lar é o espaço onde as mulheres e as crianças [assim como os velhos] correm maior risco” 21 . A violência contra o idoso é um fenômeno que se encontra presente em nossa sociedade há muito tempo, não se constituindo em algo recente, porém foi com a criação das delegacias especiais de polícia, dentre elas a Delegacia de Proteção de Idoso, que esse fenômeno ocupou maior visibilidade social, levando o governo federal a preparar o lançamento do Plano Nacional de Enfrentamento à Violência contra a Pessoa Idosa, que tem como um dos objetivos o combate à violência e os maus-tratos contra idosos 22 . Diante da impossibilidade do Estado em formular e sustentar políticas sociais verifica-se um aumento de casos de conflitos econômicos associados às relações familiares, levando à necessidade de intervenção estatal. De acordo com Sinhoretto 23 , foi nesse contexto que em 1991, surgiram as Delegacias Policiais de Proteção aos Idosos, inspiradas nas Delegacias de Proteção à Mulher, mas que, ao contrário dessas, que se expandiram, as primeiras tiveram suas atividades interrompidas, restando apenas uma no centro da cidade de São Paulo e outra no município de Guarulhos 24 . Retomando Bourdieu 25 que adverte para o fato de que aquilo que faz surgir os conflitos entre gerações é a disputa de poder, a violência contra o velho é uma expressão de abuso de poder por 3

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