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- 1 - ST 49 – A Construção dos Corpos: Violência ... - Fazendo Gênero

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Tais discursos sobre as

Tais discursos sobre as mulheres são gendrados, isto é, carregados de significados referentes relações entre homens e mulheres, os lugares a serem ocupados por eles em uma dada sociedade. Como nos diz Joan Scott, tal: - 2 - (...) saber não se relaciona apenas a idéias, mas a instituições e estruturas, práticas cotidianas e rituais específicos, já que todos constituem relações sociais. O saber é um modo de ordenar o mundo e, como tal, não antecede a organização social, mas é inseparável dela. 6 A categoria gênero é uma categoria relacional, isto é, se refere à construção dos papéis feminino e masculino em uma dada sociedade, pressupondo-se, em um primeiro momento, que esta organização binária seria incontornável. Jane Flax acrescenta que o gênero é uma relação social prática e devemos nos propor a fazer um exame daquilo que significa o “feminino” o “masculino” em uma determinada sociedade. 7 Isto, entretanto não tem como objetivo reforçar a imutabilidade do binário, mas deixar evidente que através do gênero “(...) dois tipos de pessoas são criadas” e que dessa construção histórico-social decorrem “(...) divisões e atribuições diferenciadas e (por enquanto) assimétricas de traços e capacidades humanas.” 8 . Relações de gênero são, pois, acima de tudo, relações de poder, pois, como nos diz Jeffrey Weeks, “os padrões de sexualidade feminina são, inescapavelmente, um produto do poder dos homens para definir o que é necessário e desejável um poder historicamente enraizado”. 9 Judith Butler, ao discutir a categoria gênero, vai além ao afirmar que: Se o gênero são os significados culturais assumidos pelo corpo sexuado, não se pode dizer que ele decorra, de um sexo desta ou daquela maneira. Levada a seu limite lógico, a distinção sexo/gênero sugere uma descontinuidade entre corpos sexuados e gêneros culturalmente construídos. (...) 10 Para Butler, “não se pode dizer que os corpos tenham uma existência significável anterior à marca de seu gênero”. 11 Assim, o gênero ajudaria na construção dos os corpos a partir do momento em que lhes dá sentido, um destino, uma função social. As expectativas culturais em torno da performance de certos papéis de gênero possibilitam que os corpos sejam moldados como femininos ou masculinos, que a heterossexualidade seja dada como compulsória, ou que se imponha às mulheres papéis subalternos e passivos, que sejam vistas como veículos de redenção ou danação dos homens. Esta discussão é muito pertinente quando pensamos no processo de ordenamento dos grupos religiosos femininos no século XIII. Para a historiadora Régine Pernoud é exatamente neste momento que, a partir do Direito de inspiração romana, se intensificou o processo de confisco dos direitos das mulheres, seja na sociedade laica, seja dentro dos círculos eclesiásticos. 12 Assim, os regulamentos impostos a partir de Roma, normatizavam a vida religiosa e esforçavam-se por criar discursivamente corpos, femininos e masculinos. As religiosas, a quem era proposta a vida contemplativa, tinham que se submeter a uma vida na qual gestos, palavras e roupas eram

minuciosamente controlados. Para os homens da Igreja valia a máxima “diga-me o teu sexo e te direi quem és e, sobretudo, o que vales” 13 . Para ilustrar o que temos argumentado até aqui, decidi utilizar três regras de vida impostas às clarissas, isto é, o ramo feminino da Ordem Franciscana, durante as primeiras décadas do século XIII. Duas dessas regras são documentos saídos da cúria papal, a Regra de Hugolino (1219) e a de Inocêncio IV (1247), ambas com aplicação prevista para vários mosteiros. A terceira regra de vida foi escrita ou ditada por Clara de Assis, a primeira franciscana e figura fundamental para a compreensão dos primeiros anos da Ordem Franciscana. 14 A regra de Clara, a primeira na História da Igreja escrita por uma mulher, 15 foi aprovada em 1253, pouco antes da morte da santa, e teve aplicação limitada ao mosteiro de São Damião, o primeiro fundado pelas franciscanas. As três regras são praticamente contemporâneas, mas as escritas pelos papas tiveram um alcance e reconhecimento muito maior. Dentro da hierarquia da Igreja por mais que Clara tivesse seu exemplo de vida consagrada reconhecido, sua posição em nada se comparava àquela ocupada pelos papas. Existiam muitos discursos circulando mas a sua validade é dada pelo autor. Este não seria um indivíduo mas uma fonte de autoridade, de coerência, um princípio de agrupamento de discursos. Sem isso os discursos não têm sentido e sua circularidade pode ser esquecida e/ou invisibilizada. 16 Assim, o lugar de fala de Clara, seu direito de participar da ordem do discurso, era mais limitado, tal como as suas preocupações, como veremos na comparação de alguns trechos das regras a seguir. O objetivo seria mostrar como a prática discursiva constrói o corpo da religiosa. Decidi privilegiar alguns temas presentes nas três regras: clausura, silêncio e o vestuário. 17 A primeira grande preocupação das regras papais foi com a clausura. É a ordem para que as irmãs não possam deixar o mosteiro que marca tanto o início da RH, quanto da RI: - 3 - Pois devem permanecer encerradas todo o tempo de sua vida; e depois que tiverem entrado no claustro (...), assumindo o hábito regular, a nenhuma será dada licença ou faculdade de sair jamais daí. 18 As que professarem esta vida devem permanecer encerradas durante todo o tempo de sua vida. Depois que entrarem no claustro desta religião e professarem, (...) não lhes é mais concedida nenhuma licença ou faculdade de sair jamais daí (...) 19 As diferenças entre um texto e outro são mínimas e denotam uma das grandes preocupações dos homens da Igreja naquele momento: a necessidade de controlar os movimentos das mulheres. De acordo com o historiador Anton Rotzetter, a regulamentação da clausura começou já no século VI, mas não se deu um processo contínuo nem direcionado. 20 No início, a clausura não significava isolamento, mas um espaço dentro do mosteiro protegido por muros. De acordo com a regra modelar para Ocidente, a de São Bento, os monges poderiam entrar e sair do claustro sem maiores problemas. No século XIII, o claustro passa a ser local de confinamento, em especial para as mulheres. O processo de regulamentação do recolhimento forçado das religiosas, só se completará

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