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Gênero e Sexualidade nas práticas escolares ... - Fazendo Gênero

Gênero e Sexualidade nas práticas escolares ... - Fazendo Gênero

Sexualidade aqui se refere aos modos como os sujeitos vivem seus desejos e prazeres corporais. As formas como se relacionam sexualmente e as escolhas que fazem dizem respeito às identidades sexuais que estão o tempo todo em construção. Diferentemente do que em outras matrizes teóricas tem se associado à identidade, na perspectiva pós-estruturalista identidades são concebidas como inacabadas, abertas, mutantes. Quando pensamos em fixar um significado onipresente em relação à sexualidade, logo um outro vem para o palco, brigar pela cena, brigar por representação. Por mais que se tensione ou se deseje que haja um significado inerente, essencial, hegemônico no que se refere à sexualidade, o que vemos acontecer, especialmente a partir dos movimentos de política de identidade e dos movimentos e teorias pós-identitários, é que a sexualidade vem sendo marcada por uma multiplicidade de discursos e, portanto, por uma multiplicidade de representações. No campo dos Estudos Culturais 6 , representação é a própria materialidade daquilo que se nomeia, daquilo que se torna visível. Conforme Tadeu da SILVA (2003), “A representação – compreendida aqui como inscrição, marca, traço, significante e não como processo mental – é a face material, visível, palpável, do conhecimento.” 7 O lócus de minha pesquisa é um curso de formação de professoras em uma escola particular de Porto Alegre. A Escola, que faz parte de uma Congregação Religiosa Católica, já conta com 75 anos de história e provavelmente passou por transformações pelas quais outras instituições semelhantes também passaram. Há 56 anos esta instituição forma professoras, porém desde 2002 não houve mais procura pelo curso regular, em nível de Ensino Médio, com duração de três anos e meio. Desde 2000, a Escola oferece o Curso Normal 8 noturno, de nível pós-médio com duração de três semestres e acolhe um público bastante heterogêneo. A Congregação estipulou que este curso seria uma forma de investimento social, o que talvez o aproxime de realidades como as de escolas públicas. As estudantes que não têm condições de pagar integralmente a mensalidade têm a possibilidade de receber bolsa de estudo a partir da análise de sua ficha sócio-econômica. Além de considerar que esta seria uma instituição que poderia, de certo modo, “representar” outras tantas escolas de formação de professoras, guardo lembranças e sentimentos do tempo em que fui estudante da mesma durante quatorze anos. Hoje tenho o prazer de retornar e encontrar as portas abertas para uma investigação não muito comum... Para este trabalho, apresento um recorte de minha pesquisa trazendo algumas reflexões sobre onde, quando e como a sexualidade “entra em cena” num curso de formação de professoras a partir de fragmentos de observações realizadas no último semestre de 2005 e no primeiro semestre de 2006. Vale adiantar que durante todo o curso, as futuras professoras têm uma aula com duração de três horas, para abordar este tema dentro da grade curricular de “Princípios Metodológicos de Ciências”. E, embora haja este espaço específico para abordar tal temática, entendo que questões

elacionadas à sexualidade não esperam apenas seu momento “oficial” para entrar em cena. Representações de sexualidade circulam neste espaço escolar o tempo todo, mas seu currículo parece “distrair-se” quando o assunto “aparece”. Comentários, gestos, brincadeiras que trazem referências acerca da sexualidade perpassam as práticas escolares, especialmente entre as discentes nos seus momentos menos formais como intervalos, chegada e saída, corredores, geralmente quando as figuras de autoridade – as suas professoras - não estão presentes ou estão “distraídas”. Por ser um curso formado basicamente por mulheres 9 existe uma marca de gênero bastante significativa neste cenário escolar. Um curso de mulher para mulher, uma profissão que segue ainda feminizada. Neste sentido, é preciso considerar que homens e mulheres experimentam e vivenciam a sexualidade de formas diferentes. Parece existir um jeito feminino e um jeito masculino de lidar com o sexo e com a sexualidade já que, em nossa cultura, para cada sexo (mulher/homem) uma identidade de gênero (feminilidade/masculinidade) e uma identidade sexual “normal” lhe são compulsoriamente atribuídas. Existem normas regendo tais comportamentos. A norma que rege a vivência da sexualidade tanto para homens como para mulheres é pautada na heteronormatividade. E quando o sujeito “escapa” à norma, a tendência é culpabilizar ou a família ou a escola por terem sido relapsas e/ou incompetentes em ensinar o jeito correto de se relacionar afetivamente, ou seja, que a escolha do objeto de desejo deve ser em direção a alguém do sexo oposto. Seria preciso tantos investimentos, terapêuticas e delimitações acerca dos desvios da norma se, de fato, as identidades sexuais fossem dadas naturalmente e se constituíssem de forma assim tão definitiva num determinado período da vida? No que se refere a este investimento heteronormativo, a ordem para os meninos seria: a escolha do objeto de desejo deve ser por uma menina e quanto mais cedo isto ficar evidente, melhor; mais garantida estará a norma heterossexual e menos trabalho para as professoras, pais e mães neste sentido. Em relação às meninas, a espera pelo desejo do sexo oposto pode estar intimamente relacionada aos modos como desempenha sua feminilidade e, ainda que muitas transformações estejam em movimento, parece existir um desejo constante de se vincular determinados tipos de feminilidade a maiores ou menores chances de conseguir um “bom parceiro”. Então se percebe que os meninos/homens têm sido os maiores alvos de ações homofóbicas, enquanto que as meninas/mulheres o sejam de ações sexistas – a elas cabe investir mais na afirmação da identidade de gênero, enquanto que a eles, na afirmação da identidade sexual. Existem inúmeros mecanismos que, de uma forma ou de outra, dentro e fora da escola, “ensinam” modos de viver a sexualidade, os prazeres, os desejos, as vontades, movimentando os processos de construção de identidades sexuais. Guaciro Louro (2000) afirma que: “Na escola, pela afirmação ou pelo silenciamento, nos espaços reconhecidos e públicos ou nos cantos escondidos e privados, é exercida uma pedagogia da sexualidade, legitimando determinadas identidades e

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