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Gênero e Sexualidade nas práticas escolares ... - Fazendo Gênero

Gênero e Sexualidade nas práticas escolares ... - Fazendo Gênero

práticas sexuais, reprimindo e marginalizando outras.” 10 Vejamos, a seguir, algumas pedagogias da sexualidade que se fazem presentes no curso pesquisado em diferentes situações; algumas mais gerais, outras mais específicas. Num curso que é formado basicamente por mulheres, talvez fique ainda mais evidente que a sexualidade não tem a mesma centralidade na constituição das feminilidades como o tem para as masculinidades. Podemos até supor que uma expressão máxima da sexualidade feminina ainda tem sido associada ao exercício de uma espécie de maternidade. Parece existir uma expectativa de que as mulheres, neste contexto escolar, manifestem seu “lado maternal” de qualquer jeito e a qualquer custo. As futuras professoras são interpeladas a dedicarem-se à profissão, ao curso, ao cuidado em geral como uma mãe deve dedicar-se ao/à filho/a. O tão valorizado “instinto materno” deve manifestar-se não apenas em direção aos/às próprios/as filhos/as, mas em direção às crianças com quem trabalham, ou ainda entre as próprias colegas, e entre estudantes e professoras/supervisoras. Acolher, auxiliar, cuidar daquelas que porventura estejam, em determinado momento, mais fragilizadas são características que passam a ser mais valorizadas e reconhecidas neste cenário “tipicamente” feminino. Aquelas que não manifestam tais características parecem sofrer algum tipo de rechaço por parte das outras. Na observação de uma aula sobre sexualidade no curso já referido, quando a professora lança a pergunta: “O que se entende por sexualidade?” logo no início da aula, parte das respostas elaboradas pelas estudantes vem carregada do que Linda Nicholson (2000) chamou de “fundacionalismo biológico”. A autora cria este conceito numa tentativa de problematizar o chamado “determinismo biológico”, forçando-nos a pensar no processo que levou a biologia a ser considerada como fundante e causadora das principais diferenças entre homens e mulheres. Linda Nicholson (2000) argumenta que, embora o fundacionalismo biológico inclua aspectos do construcionismo social, ele não desestabiliza a noção de fixidez do corpo biológico. 11 Vejamos uma das respostas formuladas pelas alunas sobre o que se entende por sexualidade: “Entende-se como sendo as características e mudanças fisiológicas de cada ser humano. É o que diferencia o ser feminino do masculino e todos os processos a que cada um está sujeito.” 12 Nesta frase, podemos perceber o peso da biologia e suas marcas no corpo e a associação direta entre sexualidade e gênero - a sexualidade é referida às características físicas e associada às diferenças entre ser feminino e ser masculino. Temos a impressão de que sexualidade aqui é tomada inicialmente como sinônimo de sexo e depois como sinônimo de gênero. A conceituação ainda se encerra com uma afirmação que parece ampliar a sexualidade para um enorme conjunto de experiências: “e todos os processos a que cada um está sujeito”. Em outra resposta encontramos: “É uma qualidade referente ao sexo. – as características que distinguem macho de fêmea. – relacionado ao órgão sexual.”

Observei que as respostas 13 das estudantes variam entre idéias de que a sexualidade se refere a um momento da vida, a um processo, a características, a uma qualidade. Que representações se mostram mais evidentes nestas afirmações? Que discursos estão atravessando e/ou constituindo tais representações? Que posições de sujeito e que identidades podem, eventualmente, ser legitimadas nestas representações? E que outras são consideradas impróprias e ilegítimas? Penso que os discursos que aparecem com mais força nestas falas/frases são o da biologia juntamente com o da psicologia do desenvolvimento que trazem fortemente a idéia de que a sexualidade se desenvolve em fases, momentos, numa suposta evolução. Na maior parte das teorias psicológicas encontramos a idéia de uma crescente evolução também no que se refere à identidade sexual – como se a pessoa fosse “amadurecendo” e cada vez mais “definindo” sua identidade sexual. Acredita-se, desta forma, que quanto mais madura a pessoa é, menos dúvidas deverá ter sobre quem ela é - por qual sexo se sente atraída, quais são seus desejos sexuais. Além deste discurso psicologizante, aparece o que chamaria de biologizante, como se a sexualidade fosse explicada a partir das diferenças e necessidades fisiológicas, físicas, biológicas, dentro de uma visão essencialista. Esta atividade serve para nos mostrar a multiplicidade de discursos sobre sexualidade existentes numa sala de aula de formação de professoras e, portanto, em nossa cultura. Percebemos também, nestas respostas, o funcionamento de uma lógica binária que tem regido nosso pensamento ocidental e, neste caso, nosso modo de entender gênero e sexualidade, ou seja: temos dois sexos (fêmea/macho) que implicam em dois gêneros (feminino/masculino) que, por fim, determinam uma sexualidade “normal” que deve ser dirigida ao sexo/gênero oposto. Judith Butler (2003) desconstrói o pressuposto básico de grande parte das teorias feministas que concordam/ram em afirmar que o gênero é uma construção social sobre o corpo/sexo que é biológico para dizer que o sexo é um efeito da construção de gênero. Ela desenvolve a teoria da performatividade 14 do gênero – gênero enquanto efeito discursivo (conjunto de práticas reguladoras das identidades de gênero que impõe a heterossexualidade obrigatória, uniforme e estável) e sexo enquanto um efeito do gênero. Desde esta formulação, Judith Butler analisa enquanto performatividade a construção do gênero, porque gênero é entendido como algo que se faz e não algo que se é. 15 Com este questionamento, as teóricas feministas pós-estruturalistas não pretendem negar a materialidade dos corpos, mas enfatizar que nem eles escapam à cultura, como refere Guacira Louro (2004a) “É somente no interior da cultura que as características físicas podem ser constituídas como mais ou menos importantes e como mais ou menos pertinentes para a definição de uma identidade de gênero ou sexual.” 16 Nesta perspectiva, entendemos que o corpo, o gênero e a

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