Views
4 years ago

Corpo, Violência e Poder - Fazendo Gênero

Corpo, Violência e Poder - Fazendo Gênero

penosa viagem de volta a

penosa viagem de volta a seu passado. Primeiro, vê-se na circunstância de ter de autorizar a doação de órgãos de seu próprio filho – o coração de Esteban irá bater no peito de um lacorunhense a quem ela tentará identificar. Depois, decide retornar a Barcelona, reencontrar o pai de Esteban e contar- lhe sobre o filho que não conheceu. Começa aí a desvelar-se o ponto nodal da narrativa. Manuela reencontra Agrado, um travesti que se prostitui na zona do meretrício barcelonês. Depois, conhece Irmã Rosa, freira dedicada ao trabalho social junto a prostitutas e travestis da cidade e que está grávida de um travesti. Manuela se aproxima também de Huma, a causadora involuntária da morte de Esteban, e de sua jovem e drogada amante e parceira de palco, Nina. Doente, Irmã Rosa, morre ao dar à luz o filho Esteban e é durante seu enterro que Manuela finalmente reencontra, velho e doente, o travesti Lola, pai dos dois Esteban, o seu filho e o filho de Irmã Rosa. Em Tudo sobre minha mãe, a questão do gênero surge no espaço fílmico como uma epifania. O corpo transformado de um travesti é o princípio, a origem de duas outras vidas. Meio homem, meio mulher, Lola – cuja identidade masculina atendia por Esteban – se multiplica em dois. São dois os filhos, duas são as identidades e uma só a identificação – Esteban, que representa o duplo de si mesmo, um duplo que emerge como resultado da simbiose em que Esteban, o pai, desapareceu para dar lugar à Lola 1 . Ressignificando para significar A cena 114 de Todo sobre mi madre é a que se toma aqui para esta reflexão. Está ambientada em Barcelona, durante o dia, no interior de um bar. Nela, depois de apresentar Esteban, o filho de Irmã Rosa, a Esteban/Lola, o pai, Manuela tira um foto da bolsa. “Este é o outro Esteban”, diz. “O chamaste também Esteban?”, pergunta Esteban/Lola. “Sim”, responde Manuela. “Obrigada”, é a resposta que ouve, também monossilábica. Ato contínuo, Manuela tira da bolsa o manuseado caderno de notas do filho e o oferece a Esteban/Lola: “É seu caderno de notas, o levava sempre consigo. Queria ser escritor...”. Esteban/Lola deixa a foto sobre a mesa e toca o caderno como se fora algo vivo. Abre-o em uma das últimas páginas. Manuela aponta com o dedo à altura da metade da página e informa: “Escreveu isto na manhã antes de morrer. Lê!...” Esteban/Lola lê: “... Ontem à noite, mamãe me mostrou uma foto... lhe faltava a metade. Não quis dizer-lhe, mas falta esse mesmo pedaço na minha vida...” O olhar de Esteban/Lola encontra o de Manuela, tão emocionado quanto o seu. Em tantos anos, é a primeira vez que o casal está tão próximo assim. Manuela lhe pede que prossiga lendo. Esteban/Lola continua: “Esta manhã remexi em suas gavetas e descobri um maço de fotos... em todas falta um pedaço, meu pai, suponho. Quero conhecê-lo. Preciso convencer mamãe que não me importa quem seja, nem como seja, nem como agiu com ela. Não pode me tirar esse direito.” Manuela o interrompe. Esteban/Lola silencia. Olha novamente a 2

foto. Ficam os dois em silêncio, até que Manuela procede ao inventário do que restou: “Fica com a foto... eu fico com o caderno.” Ao situar seus personagens como sujeitos que se movimentam na margem do socialmente aceito como sendo a normalidade nas relações homem-mulher, Almodóvar coloca em pauta a questão sexo/gênero pelo avesso do que estabelece o modelo tradicional. Sexo, sexualidade, diferença sexual, fecundação e maternidade/paternidade ganham, sob a ótica almodovariana, um novo estatuto. Seus personagens, do ponto de vista da persona sexual que os constitui e os identifica, são seres híbridos. Lola, o travesti que gerou dois seres do sexo masculino, é Esteban, um homem que se tornou mulher. É um ser híbrido. Ao identificar-se pelo nome feminino de Lola, assumiu uma identidade para a qual peitos, rosto maquiado, roupas e acessórios femininos são meras exteriorizações de um desejo que, embora conflitante, é-lhe constitutivo e transbordante – sempre fui demasiado alta, demasiado bela, demasiado homem, demasiado mulher, diz, assumindo o contraditório de sua natureza. “Não se nasce mulher”, observou Simone de Beauvoir e Esteban/Lola o comprova. Ele se tornou mulher sem que tenha abandonado sua condição biológica de homem, condição esta plenamente confirmada pela fecundação de duas mulheres – Manuela e Rosa. No entanto, essa hibridez de que Esteban/Lola representa um protótipo, é também ambígua. Sujeitos como ele, quando interpelados pelos papéis cultural e socialmente construídos como masculinos e/ou femininos, respondem identificados com o mesmo selo comum às reações humanas básicas entre o ser que gerou e o ser por ele/ela gerado, quer sejam reações de aceitação ou de repulsa. Retome-se o diálogo em que Manuela diz haver dado o nome de Esteban ao filho de ambos. “O chamaste também Esteban?”, é a pergunta de Esteban/Lola, enquanto olha a foto do filho. “Sim”, confirma Manuela, obtendo de Esteban/Lola outro monossílabo como resposta: “Obrigado”. Não é uma simples pergunta e tampouco são simples monossílabos as respostas que preservam a epifania contida nesse instante revelador. O “sim” de Manuela ratifica sua aceitação a uma realidade inconteste, a divisão subjetiva em que o Outro-Esteban/Lola existe. O “obrigado” de Esteban/Lola é revelador da dupla aceitação que ele exterioriza como se fosse o eco consciente do seu inconsciente tão profundo quanto latente: uma, a aceitação de si mesmo enquanto Lola, e, a outra, a aceitação do filho que foi capaz de gerar porque era Esteban. Qualquer palavra a mais nesse instante seria desnecessária. O silêncio aí intervém, é ele o “dizível”, porque é habitado por um já-dito que lhe é constitutivo e que, em si mesmo, é a única formulação discursiva cabível e necessária. A pergunta de Esteban/Lola comporta não apenas a surpresa da descoberta de haver sido sua identidade simbolicamente transportada para os seres que gerou com Manuela e com Rosa. 3

Fazendo Gênero 8 - Corpo, Violência e Poder Florianópolis ... - UFSC
Fazendo Gênero 8 - Corpo, Violência e Poder Entre a casa e a ...
Corpo, Violência e Poder - Fazendo Gênero 10 - UFSC
Corpo, Violência e Poder - Fazendo Gênero - UFSC
Fazendo Gênero 8 - Corpo, Violência e Poder Florianópolis, de 25 a ...
Fazendo Gênero 8 - Corpo, Violência e Poder Florianópolis, de 25 a ...
Corpo, Violência e Poder - Fazendo Gênero 10 - UFSC
Fazendo Gênero 8 – Corpo, Violência E Poder
Corpo, Violência e Poder - Fazendo Gênero - UFSC
Corpo, Violência e Poder - Fazendo Gênero - UFSC
Fazendo Gênero 8 - Corpo, Violência e Poder Florianópolis, de 25 a ...
Fazendo Gênero 8 - Corpo, Violência e Poder Florianópolis, de 25 a ...
Fazendo Gênero 8 - Corpo, Violência e Poder Florianópolis, de 25 a ...
Fazendo Gênero 8 Fazendo Gênero 8 - Corpo, Violência e Poder ...
Fazendo Gênero 8 - Corpo, Violência e Poder Florianópolis, de 25 a ...
Fazendo Gênero 8 - Corpo, Violência e Poder Florianópolis, de 25 a ...
Fazendo Gênero 8 - Corpo, Violência e Poder Florianópolis, de 25 a ...
Fazendo Gênero 8 - Corpo, Violência e Poder Florianópolis, de 25 a ...
Fazendo Gênero 8 - Corpo, Violência e Poder Florianópolis, de 25 a ...
Fazendo Gênero 8 - Corpo, Violência e Poder Florianópolis, de 25 a ...
Fazendo Gênero 8 - Corpo, Violência e Poder Florianópolis, de 25 a ...
Fazendo Gênero 8 - Corpo, Violência e Poder Florianópolis, de 25 a ...
Fazendo Gênero 8 - Corpo, Violência e Poder Florianópolis, de 25 a ...
Fazendo Gênero 8 - Corpo, Violência e Poder Florianópolis, de 25 a ...
Fazendo Gênero 8 - Corpo, Violência e Poder Florianópolis, de 25 a ...
Fazendo Gênero 8 - Corpo, Violência e Poder Florianópolis, de 25 a ...
Fazendo Gênero 8 - Corpo, Violência e Poder Florianópolis, de 25 a ...
Fazendo Gênero 8 - Corpo, Violência e Poder Florianópolis, de 25 a ...
Fazendo Gênero 8 - Corpo, Violência e Poder A mulher sob o ...