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Elas na pauta: mulheres e canções ST. 3 Karelayne de ... - UFSC

Elas na pauta: mulheres e canções ST. 3 Karelayne de ... - UFSC

simbora”, ambas

simbora”, ambas de autoria de Josué de Barros. Mas o sucesso de “Taí” foi tanto que não podemos sequer compará-lo às gravações anteriores. Um outro ponto importante e que viria a definir de uma vez por todas a veia sambística de Carmen é que “Taí” lhe foi entregue como uma serestinha, na voz de seu compositor, mas a teimosa Carmen a transformaria numa marchinha antes de aceitar gravá-la. Este é um registro muito importante na carreira da artista, pois é uma prova incontestável de sua brasilidade, uma vez que a figura da intérprete Carmen cede lugar, já no início da carreira, à criadora de uma das marchinhas mais lembradas por todos esses anos. Depois de “Taí”, qualquer marchinha ou samba que fosse gravado na voz da Pequena, se transformaria imediatamente em sucesso nacional, como foi o caso de “Cachorro vira-lata”, composta pelo pouco lembrado Alberto Ribeiro ou “...E o mundo não se acabou”, de Assis Valente. Mas, a fórmula do sucesso de Carmen Miranda ia muito além da interpretação de sambas e marchinhas: ainda no começo dos anos 30, o talentoso Ary Barroso “descobriu” a Bahia e um certo charme tropical que habitava alguns tantos tabuleiros de cocadas e caldeirões de vatapá das velhas e elegantes baianas do Senhor do Bonfim. Dali, nasceriam também obras-primas do velho samba, recheadas de bombocados, com uma pitada de expressões démodés, usadas de verdade na Bahia apenas na época Imperial (como uns quês de “iô-iôs” e “iá-iás”), tudo isso misturado à autoridade da voz de Carmen e um certo compasso no requebrar de suas cadeiras. E, como se não bastasse, a veterana e nada boba cantora tratou logo de costurar, literalmente, a armadura de seu sucesso: uma roupa exagerada (talvez um tanto equivocada também), mas certeira – vestida como uma “baiana”, de bata, saia rodada, colares, pulseiras, balangandãs e um turbante com cesta e frutinhas, Carmen nem de longe copiaria a elegância das velhas baianas, mas revelaria ao mundo, a partir de então, “o que é que a baiana tem?”. Sambinha no estilo Ary Barroso, do tipo list song, “O que é que a baiana tem?” havia sido composto por alguém que, ainda totalmente desconhecido no cenário musical, se acreditava desenhista e, mais tarde, seria um dos grandes nomes da música brasileira e inauguraria um estilo “baiano por excelência” de cantar, como se não estivesse fazendo nada mais que balançar-se suavemente numa rede: estamos falando de Dorival Caymmi, ainda desabrochando na vida e no que o destino lhe reservaria. Graças a Caymmi, Carmen pôde consagrar definitivamente seu estilo, com alguns trejeitos que, pouco tempo depois, ficariam conhecidos como sua marca

egistrada e seriam inclusive imitados por algumas aspirantes da época. Assistir a um show desta mulher era também emocionar-se de perto pelos gestos imortais de uma figura ímpar, como o mexer das cadeiras e o revirar dos olhinhos. E, dentro do que já sabia fazer – interpretar sambas – lançou a imagem que estaria ligada às suas apresentações a partir de então. Em A sociedade do espetáculo, o filósofo Debord 1 alcança o fenômeno que o Brasil inteiro viu acontecer, após a aparição da baiana Carmen, quando afirma que “o espetáculo constitui o modelo atual da vida dominante na sociedade”, exatamente pelo fato do tempo da imagem, este em que vivemos, estar tão intimamente ligado à cópia do original (numa idéia provincianamente platônica), preferindo sempre a aparência ao ser! E, como vestir-se de baiana não tinha nenhuma originalidade para os padrões de uma época em que o mais divertido era mesmo esperar pelos bailes de carnaval e se fantasiar com o que de mais extravagante ou excêntrico podia ser visto pelo Brasil afora (no que índios e baianas, obviamente, caíam em disparado no gosto popular), o diferencial de Carmen para se fazer ouvida e, ainda por cima vista e copiada, foi recriar a figura da anciã vendedora de acarajés no centro do Rio de Janeiro, vestida sempre de branco, com muitas rendas e patuás: Carmen surgiria com sua baiana estilizada, ou, na expressão de Ruy Castro, seu “eco modernista de Di Cavalcanti” 2 , devido às saias costuradas em losangos de veludo e mudaria para sempre os bailes de carnaval que estariam por vir. É óbvio que o figurino ajudou à cantora a ganhar um certo destaque, mas associado a ele, o samba também teve uma gorda parcela de culpa pelo sucesso de Carmen ter ganho as telas do cinema mundial. Era o que Tatit teria anunciado como a “atuação do corpo e da voz, balizando a produção musical brasileira” 3 . E foi este conjunto – corpo, voz, repertório, performance – que formou os ingredientes de uma receita que, mais tarde, seria chamada por Caetano Veloso, já na época pós-tropicalista, de uma “baianidade para exportação” 4 . Mas, se o fato de vestirse de baiana e requebrar em meio a saias e medalhões, equilibrando-se em verdadeiras plataformas, foi ou não uma estratégia para ganhar Hollywood, isto é uma discussão dispensável. O que interessa nesta história é que, explorando umas vezes o lado ingênuo, outras o malandro ou humorístico, qualquer letra de samba que Carmen concordasse em gravar (e ela as recebia em montes e mais montes), já ganharia seu toque pessoal e se moldaria naturalmente à firmeza de sua voz para, pouco depois, passear livremente, como se cada uma das palavras que ela cantasse, pudesse ser percebida, roçando de leve o viés de seus babados e o tilintar de suas pulseiras.

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