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Ruídos na representação da mulher: preconceitos e estereótipos na ...

Ruídos na representação da mulher: preconceitos e estereótipos na ...

masculino de Camille

masculino de Camille exibe algumas costelas, num corpo que não teme expor a sua fragilidade. Concebida no início da carreira da artista, essa obra, segundo os críticos, obriga ao confronto com alguns grupos de Rodin, embora neste confronto possamos perceber, como no caso mencionado acima, menos a paráfrase do que a paródia, que se manifesta na ironia com que a escultora parece reler os retratos estereotipados de Rodin sobre o homem e a mulher. O próprio Paul Claudel, o irmão poeta de Camille, atentou para isso, ressaltando nesta obra a descrição “do segundo que antecede o contato”. Diz ele: Que se compare O beijo de Rodin com a primeira obra de minha irmã, que podemos chamar O abandono. No primeiro, o homem por assim dizer sentou-se à mesa para melhor gozar da mulher. Está apoiado nela com as duas mãos e ela se esforça ao máximo para satisfazê-lo. No grupo de minha irmã, o espírito é tudo; o homem ajoelhado não é mais que desejo; com o rosto levantado aspira, mais do que se atreve a segurar, este ser maravilhoso, esta carne sagrada que, de um plano superior, lhe coube como sorte. Pesada, ela cede a esse peso que é o amor; um dos braços pende, separado, como um ramo que termina no fruto; o outro lhe cobre os seios e protege este coração, supremo asilo da virgindade. É impossível ver algo ao mesmo tempo mais ardente e mais casto. iv Como não poderia deixar de ser, a análise de Paul Claudel reflete o forte moralismo a que o obriga a sua época e a sua formação religiosa. Seu esforço de leitura vai mais no sentido de diferenciar a escultura de Rodin, “cheia de luxúria”, segundo ele, da escultura de Camille, que seria “um retrato da castidade”. Embora perceba claramente a diferença que marca o estilo e a linguagem próprios da irmã, seus critérios de interpretação revelam-se equivocados, e mais próximos da concepção de Rodin sobre a mulher do que da de Camille. Por isso, Paul Claudel não é capaz de identificar como um valor, na figura firme, independente e autêntica que ela retrata, uma mulher inteira, e de pé – praticamente uma resposta insubordinada às representações do mestre –, mas apenas o símbolo da virgindade e da pureza que distinguiam as mulheres dignas – “carne sagrada” – na sociedade. Penso que nem as esculturas nem o comportamento de Camille sugeriam que ela compactuasse com essa interpretação. Suas representações da mulher, embora muitas vezes traduzam a idéia de elevação espiritual na experiência amorosa, parecem menos comprometidas com a defesa da castidade feminina do que com a afirmação voluntariosa de sua personalidade, capacidade e autonomia criativa. O próprio Rodin retornará ao tema da escultura O abandono, de Camille, num trabalho posterior: O eterno ídolo, refazendo o arranjo das figuras de Je suis belle. Nesta escultura, coloca a mulher de pé e o homem de joelhos. Observando-se atentamente a imagem, porém, percebe-se que ela carece da espontaneidade e da leveza da obra de Camille. O casal aparece numa posição rígida e artificial, seus gestos são mecânicos, e o homem tem, inclusive, os braços presos às costas. Não estão à vontade, e não traduzem nenhuma paixão ou entrega. Considere-se agora o grupo escultórico intitulado Perseu e a Medusa, inspirado na mitologia, e um dos últimos trabalhos de Camille Claudel. Encontrada em 1983 numa antiga residência dos Maigret em Paris, adornava a entrada ao pé da escada e havia sido vendida pela família, junto com o edifício. Estava perfeitamente intacta, à exceção do escudo, que desapareceu completamente. Esta ausência se explica provavelmente pela natureza do escudo, que não foi talhado em mármore, mas cinzelado em bronze. Nessa 4

época de sua vida, Camille Claudel pesquisava sistematicamente a aliança dos materiais, em especial do bronze e do mármore. Conta uma versão do mito, referido pela artista nesta obra, que Medusa, uma das três Górgonas, era de deslumbrante beleza, sobretudo seus cabelos, que brilhavam como mil sóis. E era imortal. Netuno se apaixonou por ela, transformando-a em pássaro, e raptoua para um templo de Minerva, que juntos profanaram, entregando-se ao ato amoroso junto ao altar. A deusa ficou tão furiosa que transformou os cabelos de Medusa em horríveis serpentes, e deu a seus olhos o poder de petrificar tudo que ela olhasse. Tornou-a também vulnerável à velhice e à morte. Muitos habitantes das bordas do lago Tritoníaco, na Macedônia, sofreram o pernicioso efeito de seus olhares. Os deuses, querendo livrar o país de tão grande flagelo, enviaram Perseu para matá-la. Munido das sandálias aladas de Mercúrio e do capacete de Plutão (com os quais podia voar por toda parte, sem ser visto por ninguém), e do espelho de Minerva, Perseu aproximou-se da Górgona de costas. Fitando-a pelo espelho, e sem ser percebido graças ao capacete plutônico, conseguiu, numa manobra difícil, cortar-lhe a cabeça. A escultura de Camille ilustra o momento do mito no qual o jovem Perseu ergue vitorioso a cabeça da Medusa que acaba de decepar. Mas não olha diretamente para ela: observa-a através do espelho, como se ainda temesse ser por ela petrificado. Camille retrata as feições da Medusa como as de uma mulher de meia-idade, com expressão sofrida, que lembram as suas próprias feições à época, como se pode perceber através de fotografias. As serpentes na cabeça da Medusa lembram os cabelos desgrenhados de uma louca, mas o corpo alado, que desaba aos pés de Perseu, é de surpreendente beleza. Quase angelical em seu desamparo, com grandes asas encolhidas, nele se destacam duas mãos angustiadas que tentam agarrar-se a alguma coisa, mas só encontram o vazio. Repleta de símbolos, esta escultura parece destinada a ultrapassar seus próprios limites, como uma última tentativa, da parte de Camille, de preencher o espaço e negar o invisível, rechaçando o vazio e a escuridão de sua vida, cuja aproximação pressente com horror. Paul Claudel descreve a escultura como uma “sinistra figura que se ergue como a conclusão de uma carreira dolorosa, antes que se abram as trevas definitivas, representadas por Perseu, aquele que mata sem olhar. Qual é esta cabeça de cabeleira sanguinolenta que ele levanta atrás de si, senão a da loucura?” – indaga-se ele. No mito, a Medusa petrifica quem a contempla com o seu olhar. Pode ser interpretada como uma metáfora do escultor, que também petrifica a vida na forma. Há nesta troca de olhares jogos múltiplos de reflexos. Eis aqui Camille, decapitada, fascinante e fascinada. Fascinante como modelo, petrificada nas mãos de Perseu, que a contempla pelo espelho com inegável curiosidade e temor; e fascinada pelo gesto homicida do jovem, sobre cuja cabeça lança um olhar perdido, profundamente triste, ao horizonte petrificado que a cerca. E o que nos parece dizer esse olhar? Ele nos diz algo da infelicidade desta Camille decepada, cujos olhos de Medusa não ocultam a sua muda acusação aos observadores, para os quais voluntariamente petrificou-se como esta terrível imagem. Ao profanar o templo de seu tempo com Netuno-Rodin, Camille tem seu direito à imortalidade roubado, e é condenada a amedrontar os seus contemporâneos, a envelhecer e a morrer no silêncio e no esquecimento de um hospício. Como no mito, porém, nada acontece com o seu parceiro, embora também profanador do templo. Num rasgo de lucidez, Camille se traduz como uma Medusa da modernidade, mulher condenada como um monstro porque ousou ser escultora; e ousou também 5

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