Views
5 years ago

Ruídos na representação da mulher: preconceitos e estereótipos na ...

Ruídos na representação da mulher: preconceitos e estereótipos na ...

petrificar, numa época

petrificar, numa época em que às mulheres era reservado apenas o papel de Musa – Beleza e Matéria a serem petrificadas na arte para o deleite e a contemplação do mundo. O crime da escultora Camille, portanto, e que ela denuncia amargamente nesta obra, foi o de sua rebeldia contra o papel tradicional da mulher-para-ser-vista, sucessivamente utilizada como motivo e modelo nas artes plásticas: um reflexo transparente, beatífico e eterno como a própria natureza que espelha; pura e muda imagem feita para ser objeto da satisfação dos olhares alheios. Seu crime foi o de sua conversão voluntária e deliberada de Musa em Medusa: mulher-que-vê, imagem ameaçadora, cuja “feiúra” parecia advir das recém-adquiridas estratégias de defesa contra olhares possessivos e interpretações dogmáticas. A beleza da Musa, outrora passiva e inócua no papel de modelo dos artistas e escritores, adquire surpreendente virulência no papel ativo e proibido que se atreve a assumir como Medusa: escultora e produtora ela mesma. Sua recusa em desnudar-se e posar, como mulher, e sua proposta de inversão dos papéis, ameaça petrificar todas as verdades redigidas, ilustradas e esculpidas pela arte ao longo dos séculos. O fato deste mito problematizar a visão, e de Camille Claudel se expressar através de uma imagem escultórica, reforça essa mensagem. Na opinião do crítico literário W. J. T. Mitchell: Medusa é o protótipo perfeito da interpretação da imagem como um Outro feminino e perigoso, que ameaça silenciar a voz masculina do poeta e fixar o seu olhar observador. Tanto o desejo utópico da poesia (de presentificar com palavras uma bela imagem para o leitor), e sua resistência (o medo da paralisia e mudez diante do poder da imagem) estão expressos neste mito. Todas as distinções entre o belo e o sublime, a estética do prazer e da dor, do masculino e do feminino, são subvertidas pela imagem da Medusa. Ela dá a entender que a imagem muda, que sugere estar à espera do ventriloquismo da palavra poética para poder se exprimir, já é uma voz em si mesma. v É inegável o privilégio que a cultura grega, na Antigüidade, conferiu à visão em relação aos demais sentidos. Os deuses gregos eram visíveis e a humanidade era encorajada a pensar em suas formas plásticas. Não só eram concebidos como ávidos espectadores das ações humanas, mas também como atores de espetáculos eles mesmos. A perfeição da forma visual idealizada pela arte grega era compatível com o seu apreço pela representação teatral, e o privilégio deste sentido estendia-se à matemática, pela ênfase conferida à geometria. Em nenhum outro campo, porém, a preferência dos gregos pela visão foi maior do que na filosofia. Apesar disso, os gregos freqüentemente concebiam seus videntes como homens cegos, e costumavam freqüentar oráculos que traduziam as imagens de suas visões do futuro em linguagem verbal. Além disso, havia uma certa ansiedade a respeito do poder malévolo da visão, expressa em algumas figuras centrais da mitologia grega, como Orfeu, Narciso e Medusa. Curiosamente, esses três mitos são evocados por uma concepção da modernidade que reflete o conflito vivido entre o impulso de elevar as essências permanentes sobre as aparências efêmeras e o de sucumbir à delirante sedução das aparências, de sua efemeridade e do seu silêncio. Orfeu, mito escolhido por Rodin para ser representado, não é só o pai dos poetas – músico e tocador de lira cuja voz encantava os seres da superfície tanto quanto os habitantes das profundezas –, é o fundador da reforma religiosa chamada Orfismo, que 6

procura congregar o culto sensual de Baco ao culto racional de Apolo. O Orfismo é também a arte concebida mais sob o espírito da música do que da pintura, a partir de uma concepção clássica que entende a pintura como imitação da natureza, cuja criação não seria, portanto, tão livre como a da música. Mas Orfeu é ainda o esposo da ninfa Eurídice, morta duas vezes: a primeira na superfície, picada por uma serpente, a segunda nas profundezas do inferno, fulminada pelo olhar do marido que se volta para ver a sua sombra, apesar da proibição dos deuses, num gesto carregado de ambigüidade. Destinada a ser a Musa de Orfeu, não cabia à ninfa a posição de ver sem ser vista. Caminhando atrás de Orfeu, porém, oculta entre as sombras do inferno e com seus olhos perseguindo a figura do poeta, Eurídice invertia perigosamente o seu destino. Como diz uma crítica de arte: A musa deve manter os olhos abaixados, e o corpo ofertando-se, sem a intervenção da mente. O preço de ser uma inspiração é o de permanecer congelada no espaço. Caso se atreva a se movimentar, a piscar ou a opinar, ela deixa imediatamente de ser uma musa. vi Além disso, um dos problemas mais desafiadores da biografia mítica de Orfeu reside na explicação de seu fim trágico, assassinado por mulheres que o despedaçam. Segundo uma versão, Orfeu, depois da perda definitiva de Eurídice, desinteressa-se completamente das mulheres que, enciumadas, buscam uma terrível vingança. Segundo outra versão, Orfeu recai no velho culto de Apolo, provocando a ira de Baco que incita as mulheres a destruí-lo. O mito de Narciso, o belo amante dos espelhos e de si mesmo, não é menos trágico. Tirésias, um dos videntes cegos da mitologia grega, havia previsto que Narciso sobreviveria apenas enquanto não se visse. Certa vez, porém, inclinando-se para beber numa fonte de águas claras, Narciso viu o seu semblante. Apaixonado pela sua imagem, desesperado por não poder reunir-se ao objeto de sua paixão, e obtendo como resposta aos seus lamentos o som repetido da sua própria voz – produzido pela ninfa Eco, a quem negara o seu amor –, Narciso afunda na superfície espelhada e desaparece para sempre, deixando a mulher a falar sozinha. Aliás, o “eco” parece mesmo ser o equivalente sonoro do “reflexo”. Se a relação de Orfeu com o olhar é a da busca – negada e castigadada visibilidade do outro, a relação de Narciso com o olhar é a da busca – igualmente negada e castigadada visibilidade de si mesmo, aspectos que permeiam a modernidade através de obras que refletem intensa e produtivamente sobre a questão do poder da imagem versus o poder da palavra. Não por acaso a natureza “negativa” do olhar de Orfeu, tanto quanto o de Narciso – figuras masculinas ligadas à oralidade e ao discurso – reaparece no olhar da Medusa, silenciosa figura feminina cuja busca de visibilidade no mundo exterior também é violentamente negada e castigada. A figura feminina que habitualmente se expõe nas artes plásticas ao observadorproprietário costuma oferecer-se, nua, não só ao olhar, mas ao toque das mãos. Não está nua tal qual é – como diz John Berger –, está nua tal qual o espectador deseja vê-la. Não é uma mulher, é, antes, um objeto. A Musa não se expressa: ela é legendada, rotulada. Seu olhar volta-se para o espectador, para ver-se sendo vista. Transformadas, assim, em objetos de si mesmas, as artes plásticas – como as mulheres que elas preponderantemente representam na arte européia – foram definidas como “poesia muda”, destinadas a aparecer, não a dizer. É famosa, a esse respeito, a frase de Simônides de Ceos, traduzida 7

Ruídos na representação da mulher: preconceitos e estereótipos
Ruídos na representação da mulher: preconceitos e estereótipos na ...
Ruídos na representação da mulher ... - Fazendo Gênero
Ruídos na representação da mulher ... - Fazendo Gênero
Ruídos na Representação da Mulher ... - Fazendo Gênero
1 Ruídos na representação da mulher - Fazendo Gênero 10
Ruídos na representação da mulher. ST 13 Raul José Matos de ...
1 Ruídos na representação da mulher - Fazendo Gênero 10
Estereótipos e mulheres na cultura marroquina - SciELO
representações visuais das mulheres nos ... - Fazendo Gênero
Preconceito e discriminação com as mulheres negras - PROEJA - RS
a educação da jovem mulher para além dos estereótipos ditados ...
a mulher, o mal? – representações do feminino em josé ... - UFF
representações da mulher no tratado do amor cortês - Uesb
a representação da mulher do período colonial em inés del ... - Cielli
Sob o olhar da jornalista: imagem da mulher ... - FALE - UFMG