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Ruídos na representação da mulher: preconceitos e estereótipos na ...

Ruídos na representação da mulher: preconceitos e estereótipos na ...

por Plutarco: “A

por Plutarco: “A pintura é poesia muda e a poesia é pintura eloqüente”. Daí, provavelmente, a sua alegoria amordaçada, como na gravura de Belori, onde a Musa aparece pintando uma inofensiva serpente num vaso, inteiramente diversa da malévola imagem das esvoaçantes serpentes nos cabelos da Medusa, cuja cabeça era preciso decepar para que voltasse a se tornar alvo de representações inócuas, como as de Caravaggio, Leonardo da Vinci e Rubens, que não se atrevem em seus quadros a enfrentar o olhar petrificador, a muda eloqüência do mito vivo. Para Jackeline Lichtenstein, este tipo de pintura agradava aos “homens das letras” – uma categoria que não abarca necessariamente apenas os poetas, dado que os pintores da época também procediam como “homens de letras”, ilustrando sobretudo textos bíblicos, mitológicos ou históricos –, os quais, na sua opinião: Assemelhando-se a um escultor cego, pensam com as mãos e vêem com os dedos, ao passo que a pintura pede para ser ‘tocada’ com os olhos, isto é, à distância; uma acariciante maneira de tocar o quadro sem tocar nele, um tocar analógico e sem contato, que requer uma grande delicadeza, um tato infinito e muita sutileza, uma percepção não-tátil que só é possível quando o olhar é realmente afetado por aquilo que vê. Tocado em seu desejo. Neste sentido, a pintura é efetivamente um perpétuo desafio para todos aqueles que pretendam reduzir a representação à simples condição de um objeto preênsil, dominável e maleável à vontade, e desejem relacioná-la ao desenho, a fim de poder integrá-la à ordem final de seus projetos. vii A imagem do “escultor cego” aparece como um mendigo no quadro A escultura sim, a pintura não (École du Guerchin), tocando confiante no busto de uma mulher, também aparentemente cega. Sua atitude tanto faz lembrar a aposição curativa das mãos que, supõe-se, irá restituir a visão à figura de pedra; como o gesto caridoso de quem fecha definitivamente os olhos de um morto. No chão, aos seus pés, um quadro: uma representação da pintura relegada a uma posição inferior, ressaltada pela enfática legenda estampada no interior do próprio quadro: “della pittura no”. E por que “não”? Talvez porque o colorido, onde se exprime a especificidade da pintura, demonstre a superioridade e a irredutibilidade do visível em relação a qualquer outro modo de representação. Um cego pode saber muito sobre um quadro, mas não pode saber sobre a experiência de ver uma cor. As cores não são definíveis, por isso escapam ao pensamento cartesiano, cujo modelo de visão é o tato. “Descartes” – como diz Merleau-Ponty – “pensa a luz como uma ação por contato, tal como a ação das coisas sobre a bengala do cego: ‘Os cegos vêem com as mãos’”. viii No entanto, assim como a paixão, o prazer do colorido furta-se à ordem lingüística das determinações. Contrariamente ao que tanto lhe foi censurado, o fato de a cor não poder ser o objeto de nenhum discurso não é necessariamente o indício de uma natureza deficitária. Não seria antes o sinal da insuficiência da linguagem, cujas palavras são impotentes para dizer seus efeitos e seu poder? Para Lichtenstein: Feminino, indecente, inominável, ilícito, o artifício se dá ao olhar na dissolução do verbo. Como a Górgona. As belezas do colorido são as belezas de Medusa. Sendo representação muda, a pintura pode ser capaz de reduzir todos os discursos ao silêncio. Interpelado pelo colorido, o espectador não sabe o que dizer. 8

E é aí que a poesia sucumbe aos poderes de uma palavra silenciosa que a obriga a calar-se. Aproximar-se para ouvi-la. Mas não muito. Senão deixaríamos de vê-la. ix Como escultora, Camille Claudel não trabalhou com as cores, mas as suas esculturas detêm o mesmo grito insubordinado da pintura. Não se conformou em ser a linda Musa, tantas vezes aprisionada por Rodin na pedra e no metal, quase sempre com expressão triste e silenciosa. Ela quis aprisioná-lo também, desejou-o como mestre e como modelo, imortalizando-o poderoso e rude num busto que traduz toda a sua admiração pela força do homem e do gênio, mas também toda a angústia vivida sob o peso de sua influência, que lutou até a loucura para superar, na busca de sua auto-afirmação como artista. Se hoje a escultura de Camille nos parece um libelo em defesa da mulher, ela o será provavelmente à revelia de sua autora, para quem a questão feminina não se coloca tão fortemente quanto a questão da arte. A força de sua crítica e a intensidade de sua revolta tornam-se tanto mais evidentes quanto mais se percebe a autenticidade do espírito artístico lutando por uma afirmação em si, e não em função de uma causa ou de uma ideologia. Para não concluir esta reflexão com a imagem angustiada da Medusa, cito outra das últimas esculturas de Camille Claudel, que dizem ser a sua predileta: A tocadora de flauta. Evocando desta vez o mito das sereias, ela revela novamente o seu desejo de expressão real através da arte. Como uma Eurídice vitoriosa que houvesse escapado do inferno e de Orfeu, tornando-se musicista e não apenas fonte de inspiração da música, Camille ressuscita a si mesma, com otimismo, de seu auto-retrato como Medusa decapitada na imagem de uma sereia. Uma flautista de canto sedutor ergue-se sozinha das trevas para encantar. No mito, as sereias estão ligadas a uma atração mortal: Ulisses pede que o amarrem ao mastro de sua embarcação para não sucumbir ao encanto das vozes enfeitiçantes. A sereia seduz, na verdade, por sua arte, por artifícios medusantes. Assim, apesar a ameaça da morte que a cercava, da loucura que a consumia, dos anos de desprezo, esquecimento e solidão que estaria fadada a viver, em breve, Camille reúne suas forças para deixar, nesta pequena escultura, uma resposta a Perseu, o assassino, seja ele quem for: este hino triunfante e belo à glória da vida, da sua vida imortalizada como canto, por suas próprias mãos, numa magnífica obra de arte. Referências Bibliográficas BERGER, John. Modos de ver. Lisboa: Edições 70, 1972. HOWLETT, Jana e MENGHAM, Rod (orgs.). The violent muse. New York: Manchester University Press, 1994. KORN, Irene. Auguste Rodin – master of sculpture. Paris/New York: Todtri, 1997. LICHTENSTEIN, Jacqueline. A cor eloqüente. São Paulo: Siciliano, 1994. MERLEAU-PONTY, Maurice. O olho e o espírito: seguido de A linguagem indireta, As vozes do silêncio e a Dúvida de Cézanne. São Paulo: Cosac y Naify, 2004. MITCHELL, W J.T. Picture theory. Essays on verbal and visual representation. Chicago and London: the University of Chicago Press, 1994. REINE-MARIE Paris de La Chapelle (Curadoria). Camille Claudel 1864-1943. Esculturas, desenhos e pinturas. Catálogo da Exposição realizada na Pinacoteca do Estado de São Paulo, de 8/9 a 7/12/1997 e no MAM, Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro, de 15/1 a 15/3/1998. São Paulo: Pinacoteca do Estado, 1997. 9

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