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Gênero: multiplicidade de representações e ... - Fazendo Gênero

Gênero: multiplicidade de representações e ... - Fazendo Gênero

lado, emerge uma maior

lado, emerge uma maior autonomia e liberdade no que tange ao contato entre homens e mulheres; por outro lado, as diferenças e as hierarquias estavam sendo reordenadas. Nesse sentido, delineavam-se padrões de moralidade diferenciados para homens e mulheres. As candidatas a namoradas e a noivas deveriam articular códigos e condutas, no sentido de dosar o nível de intimidade, pois as que muito cediam, aparentemente, muito perdiam. A respeito do casamento, as fontes consultadas indicam que cresce a autonomia de homens e mulheres em face às escolhas matrimoniais, na medida em que diminui a interferência familiar. Há ascensão dos interesses do futuro casal, ao tempo em que se admite que o matrimônio deve ser fundado em sentimento recíproco. 5 A idéia de casamento por conveniência, portanto, passa a ser considerada vergonhosa, na medida em que vai predominando a idéia de casamento romântico. O casamento, ao que parece, funciona como o colonizador do futuro da maioria das mulheres no período e, por extensão, daquelas que construíram seus territórios existenciais para além do casamento e da maternidade, uma vez que não casar era considerado uma descensão social. Além de horizonte do futuro das mulheres, a expectativa de casamento também atuava no sentido de disciplinarizar os corpos femininos, na medida em que se apresentam um conjunto de regras, em vista a instituir a moça casadoura. Regras que incidem dos códigos de sexualidade aos ínfimos comportamentos. A esse respeito, é importante destacar que na documentação consultada, especialmente, no periódico Vida Doméstica, os temas moda, beleza e lazer, bastante problematizados nas décadas de 1920 e 1930, são atravessados pelos papéis normativos femininos. Ora é dito que as mulheres devem ser belas para se tornaram atraentes e casadouras; ora argumenta-se que as moças que só pensam na beleza e na moda se tornam fúteis e as fúteis não casam. Acrescenta-se ainda que é preciso reconduzir as moças modernas, pois ao privilegiaram a rua, os cinemas, os cafés e os bailes, estariam deixando de cultivar as qualidades necessárias para exercer os papéis que a sociedade lhes reservavam. A ameaça do não casamento, constante em várias crônicas e artigos, é utilizada como estratégia delineadora de comportamentos femininos desejáveis. Nesse sentido, casar é um prêmio, uma retribuição pelo comportamento considerado adequado. As representações do casamento atravessam, também, as propagandas de que as mulheres passam a ser alvo. Estão presentes em anúncios de remédios, de cosméticos e de produtos de beleza, funcionando como estratégia de incentivo ao consumo. Pressuponho que, no período em estudo, delineia-se uma tensão entre a construção do feminino e do masculino e os papéis familiares, uma vez que esses papéis parecem fundantes na significação do ser mulher e do ser homem, em termos normativos. Ao se considerar as práticas, contudo, percebe-se que as vivências femininas e masculinas extrapolam esses limites. A respeito da experiência das mulheres, é válido pontuar que, no período em estudo, ampliam-se as 2

possibilidades de escolarização, de ingresso e de permanência no mercado de trabalho, ao mesmo tempo em que se redefine a vivência feminina na esfera pública. A despeito de a significação da educação e profissionalização femininas estarem marcadas pela concepção de que as mulheres devem ser mães, esposas e donas-de-casa, tanto no sentido de impossibilitá-las a um grande número de mulheres, quanto de impor limites à ação daquelas que tinham acesso à escola e ao universo profissional. 6 Em termos de códigos de sexualidade, o feminino, ao que parece, é polarizado pelas representações da mulher direita e da prostituta, que, por sua vez, funcionam de forma complementar à representação do masculino normativo. Isto porque a mulher direita é aquela encaminhada a vivenciar o casamento e a maternidade, é aquela sexualmente controlada, virgem, se solteira; fiel ao marido, se casada; enquanto o homem, em termos normativos, é significado como sexualmente ativo, sendo, inclusive, o exercício da sexualidade um dado fundante na construção da identidade masculina. 7 Segundo essa lógica, para que haja moças puras e virgens e rapazes sexualmente ativos, é necessário que existam prostitutas. Assim, ao mesmo tempo em que a figura da prostituta funciona como um contramodelo e delimita o espaço e as formas de comportamento da mulher direita, é complemento à maneira como o feminino e o masculino são significados em termos normativos, uma vez que vigora uma dupla moral sexual. A condição de moça casadoura, de esposa e de mãe não é alçada, portanto, em quaisquer situações, constituindo-se em uma das condições básicas o controle da sexualidade. O estudo dos lugares de homens e de mulheres na dinâmica familiar delimita-se pelo eixo conjugal. Essa escolha reside na percepção de que a maioria das mulheres, no período em estudo, construiu seu território existencial a partir do casamento e da vivência dos papéis de mãe, esposa e dona-de-casa. Com efeito, busco identificar as relações de poder 8 e os contrapoderes femininos, 9 nesse universo, em que, em termos jurídicos e normativos, é de domínio masculino. Basta lembrar que o homem é considerado o cabeça do casal, enquanto a mulher deve manter-se submissa. Considerando as formas de significação do feminino, em que o casamento e a maternidade são considerados fundamentais, cabe investigar as estratégias e táticas para manutenção do casamento, assim como os atos femininos no sentido de ampliar a zona de influência na vida conjugal. Afirmar que a norma, em termos de feminino, configura-se na construção da mulher como mãe, esposa e dona-de-casa, não possibilita, contudo, perceber as mudanças e as permanências pelas quais esses lugares de sujeito passam ao longo do período em estudo. É válido observar que o experienciar desses papéis, nas camadas médias e altas vai passando por transformações, na medida em que sobre eles impactam novos saberes e incidem estratégias de mercado, em prol da instituição das mulheres enquanto consumidoras. 3

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