Views
5 years ago

Gênero: multiplicidade de representações e ... - Fazendo Gênero

Gênero: multiplicidade de representações e ... - Fazendo Gênero

Entre as décadas

Entre as décadas de 1920 e 1950, era, enfaticamente, repetido: é preciso consumir produtos de beleza para manter-se bela! É necessário consumir remédios para manter-se saudável! É necessário consumir certos produtos para ser boa dona-de-casa! É imprescindível manter-se em dia com a moda, para casar-se e manter o casamento! Paralelas a essas imposições, são recorrentes as críticas às mulheres consumistas, às mulheres que só pensam na beleza, pois se, por um lado, o consumo e o culto à beleza integram-se e são atravessados pelos papéis de mãe, esposa e dona-de-casa; por outro lado, são vistos como rivais, na medida em que as mulheres que só pensam em consumir, que só se preocupam com a moda e com a beleza são consideradas fúteis. As mulheres, portanto, tinham que se manter belas e informadas a respeito das novidades do mundo moderno, mas não poderiam se deixar seduzir pelos excessos e pelo luxo, uma vez que se as descuidadas não casavam, as fúteis e levianas, também não. Ao considerar as informações publicadas em Vida Doméstica, entre as décadas de 1920 e o início dos anos 1960, importa acentuar que outras questões relativas ao feminino são problematizadas ao longo do período. A questão do divórcio, a relação entre o feminino e os papéis normativos (mãe, esposa, dona-de-casa), a relação mulher/espaço público são discutidas recorrentemente. Simultaneamente, o masculino emerge de maneira relacional, a partir do feminino, delineando-se como o Outro. Na década de 1920, são expressas representações do feminino plurais e concorrentes. As mulheres emergem, nas páginas do periódico, como mães, esposas, moças casadouras, moças fúteis, moças interesseiras, melindrosas, feministas, estudantes e profissionais. Nesses anos, são veiculadas informações a respeito dos seguintes temas: casamento, maternidade, criação dos filhos, lar, educação feminina, relação mulher/trabalho, feminismo, moda, direitos políticos e emancipação feminina. Parece-me que a questão mais problematizada, na década, é a relação entre corpo, papéis familiares e natureza da participação feminina no espaço público. Em outros termos, a circulação feminina em sua interface com a masculina, no âmbito público, a moda, as novas formas de lazer, a educação em termos de escolarização e formação e a profissionalização feminina. Nos anos 1930, as representações femininas continuam sendo plurais. Vários temas peculiares aos anos 1920, também caracterizam a década de 1930. Há vários artigos, crônicas e contos que abordam a maternidade, a beleza, a moda, o divórcio, os direitos, a emancipação, o feminismo e o casamento. Contudo, é importante acentuar algumas diferenças. Nesses anos, percebe-se um maior investimento na elaboração das mulheres enquanto consumidoras. Cresce, em relação à década anterior, o apelo ao consumo de novidades para o lar, da moda, de remédios, de produtos de beleza, dentre outros. Enquanto a discussão a respeito do feminismo, bastante enfatizada nos anos 1920, a despeito de continuar presente, perde vigor. 4

Nos anos 1940, para além da recorrência dos temas comuns às décadas de 1920 e 1930, em face à eclosão da Segunda Guerra Mundial, surge uma série de discursos que enfatizam o papel das mulheres no conflito, em especial, o destaque recai na atuação feminina em diferentes esferas do universo público, de domínio masculino. Ademais, a grande crítica às mulheres seduzidas pelas formas de lazer moderno e pela moda, que atravessa as décadas de 1920 e 1930, perde ênfase. Nos anos 1950 e início dos anos 1960, destacam-se os temas: relação homem/mulher, casamento, maternidade, mãe, esposa, amor, filhos, lar e divórcio. Nesses anos, a afetividade, as tensões da relação homem/mulher, o universo conjugal, as expectativas, os desejos e as frustrações amorosas têm maior visibilidade. Paralelamente, a linguagem do periódico, a despeito de sua pluralidade, torna-se mais próxima da leitora, falando-lhe diretamente, apontando caminhos e normas a seguir e propondo soluções para problemas, sobretudo afetivos. Em termos gerais, o estudo das matérias, das crônicas, dos contos e das colunas diretamente voltadas à leitora, publicados em Vida Doméstica, permite refletir a respeito das formas de representação do feminino em relação ao masculino e, ao mesmo tempo, apresentar o tecer do normativo em relação às mulheres. Isto porque, tanto o periódico apresenta representações concorrentes do feminino, quanto ao representá-las atua no processo de construção social das relações de gênero. O periódico Jornal das Moças, por sua vez, também é fundamental ao estudo das formas de representação do feminino. É importante ao adensamento do olhar, por permitir, em certos momentos, a observação das práticas, contribuindo, assim, para a percepção das teias e das tramas nas quais se configuram as relações de gênero. No inicio dos anos 1930, o periódico era voltado, sobretudo, para o público jovem. Era uma revista literária composta, principalmente, pela contribuição de moças e de rapazes, que enviavam suas produções em forma de prosa e de poesia. Em geral, as jovens e os jovens escreviam sob pseudônimo, fato que ampliava as possibilidades de expressão e comunicação, na medida em que havia um certo sigilo em relação à identidade. Moças e rapazes ofereciam seus trabalhos para amigos, amigas, namorados, namoradas, noivos e noivas. Em contrapartida, aquelas e aqueles a quem eram ofertadas as crônicas, os contos e as poesias, em geral, os retribuíam. Dessa maneira, configurou-se uma rede de sociabilidade feminina e masculina, composta por moças e rapazes do Rio de Janeiro e de outras cidades do país, dentre elas Teresina. Havia, também, a coluna Bilhetes Postais, que funcionava como um elo na composição desse lugar de sociabilidade, pois através da coluna colaboradores e colaboradoras agradeciam aos demais os trabalhos oferecidos, comentavam poesias, contos e crônicas, e pediam permissão para colaborar no periódico. Através da coluna, iniciavam-se novas relações juvenis, sejam de amizade, na medida 5

Gênero: multiplicidade de representações e ... - Fazendo Gênero
Gênero: multiplicidade de representações e ... - Fazendo Gênero
1 Gênero: multiplicidade de representações e ... - Fazendo Gênero
Relações de gênero e suas representações na ... - Fazendo Gênero
representações visuais das mulheres nos ... - Fazendo Gênero
Ruídos na representação da mulher ... - Fazendo Gênero
Ruídos na representação da mulher ... - Fazendo Gênero
Ruídos na Representação da Mulher ... - Fazendo Gênero
1 Ruídos na representação da mulher - Fazendo Gênero 10
Simpósio Temático “Práticas e Representações” - Fazendo Gênero 10
Gênero: multiplicidade de representações e práticas sociais – GT 38 ...
1 Ruídos na representação da mulher - Fazendo Gênero 10
GÊNERO E PSICOLOGIA: UM DEBATE EM ... - Fazendo Gênero
Escrevendo a história no feminino - Fazendo Gênero - UFSC
Escrevendo a história no feminino - Fazendo Gênero
Fazendo Gênero 8 Fazendo Gênero 8 - Corpo, Violência e Poder ...
Gênero Ciência e Tecnologia. ST 22 Claudia ... - Fazendo Gênero
Giorgia de M. Domingues - Fazendo Gênero 10 - UFSC
Violência; Gênero; Ciências - Fazendo Gênero
gênero, idade média e interdisciplinaridade. ST ... - Fazendo Gênero
Gênero e Religião – ST 24 Sônia Cristina Hamid ... - Fazendo Gênero
GÊNERO, MASCULINIDADE E DOCÊNCIA: - Fazendo Gênero
Masculinidade e Homofobia em O Ateneu ... - Fazendo Gênero
Gênero, memória e narrativas - ST 41 Lucia M. A. ... - Fazendo Gênero