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representações visuais das mulheres nos ... - Fazendo Gênero

representações visuais das mulheres nos ... - Fazendo Gênero

geométricos em preto e

geométricos em preto e branco com padrões muito simples, similares aos mosaicos italianos do mesmo período. Somente a partir de meados do séc. II, os mosaístas da região começaram a se libertar da estética italiana. Distinguiram-se pela adoção da policromia, pela decoração vegetal sofisticada e pelas temáticas relacionadas à vida cotidiana, principalmente, aos aspectos caros à elite local, que comissionavam os mosaicos. O séc. IV e boa parte do V foram o período áureo do estilo musivo norte-africano; o mosaico selecionado é deste período: sua datação é do início do séc. V. Ele foi confeccionado com tesselas coloridas em fundo branco e apresenta a toalete feminina. 2. Cotejando o discurso imagético com os escritos No mosaico, destaca-se a figura de uma mulher, que está numa posição de prestígio: foco da ação, sentada, ricamente vestida e ornada e sendo servida por outras duas mulheres. O centro do mosaico enfatiza o esmero no adorno, situação típica do universo feminino associado à beleza. Apresenta-se a fase final do tocador quando a senhora, assessorada por duas servas, enfeita-se com jóias (colar de pérolas, brincos, numerosas pulseiras e tiara colorida no cabelo). O banho em si, motivo mais diretamente relacionado à função do cômodo do mosaico, está apenas insinuado por numerosos acessórios: um par de sandálias, uma caixa com toalhas, uma bacia em forma de concha univalve, uma ânfora, dois baldes e uma caixa hexagonal com uma pequena corrente. Em vista da exigüidade de espaço para desenvolver todos os aspectos desta imagem, optou-se por fazer um recorte na cena do adorno feminino, que ocupa uma posição de destaque no mosaico, não abordando assim a questão do banho e seus apetrechos. No mosaico, o tocador da senhora lembra o da deusa do amor e da beleza, Vênus/Afrodite, uma das mais populares divindades no panteão clássico. Nos textos escritos (e.g. Hino Homérico para Afrodite II, 5-11), eram as Horas que ajudavam a deusa, enquanto, nos textos imagéticos (monumentos funerários, afrescos, mosaicos...), eram os Cupidos. No mosaico, esta função era realizada pelas servas que seguram o cofre das jóias e estendem o espelho para a senhora. Assim, os comanditários do mosaico exaltavam as virtudes, o poderio e o carisma da divindade e também se beneficiavam de uma parcela do seu triunfo e benesses. Era uma maneira de se aparentar, se situar e se identificar. A reprodução deste modelo revela a cultura clássica entre a elite; mesmo com a cristianização do Império, estava presente e era valorizada na decoração doméstica. O seu uso era fator de distinção e enobrecedor, pois permitia se identificar, se lembrar da “sua memória” e se colocar ao lado daqueles que podiam e sabiam se lembrar: reconheciam-se apenas os que tinham uma história que sabiam contá-la para seduzir e se fazer respeitar. Neste mesmo contexto, há uma outra narrativa mítica sobre o adorno feminino que se aproxima do modelo venusiano: a criação de Pandora, a 1 a . mulher. Nos relatos hesiódicos (Teogonia vv. 581- 585; Os trabalhos e os dias vv. 42-105), Pandora foi moldada da terra e da água por Hefesto e adornada com auxílio de outros deuses, por ordem de Zeus, como punição da raça humana, que

ecebera o fogo divino roubado por Prometeu. Cada um dos deuses lhe atribuiu um dom, dentre eles: a graça, o desejo e as “preocupações devoradoras de membros” por Afrodite e a capacidade de persuadir, seduzir e dissimular por Hermes. Pandora foi cingida por Atenas, as Graças e a Persuasão lhe puseram colares e as Horas, uma coroa de flores. Assim, tal qual no nascimento de Vênus/Afrodite, a 1 a . mulher mortal também se destacou pelo adorno visando o seu embelezamento e potencializando o seu “ardiloso” poder de sedução. Os escritos romanos também trataram do adorno feminino, seja “ficcional” (e.g., A arte do cosmético feminino de Ovídio e a Sátira VI de Juvenal) ou “realisticamente”. Um exemplo foi a revogação da lei Ópia em 195 a.C. Esta lei estabelecia um limite à posse de quantidade de ouro pela mulher e lhe proibia o luxo no vestir. Com as constantes guerras, as propriedades foram repartidas entre os membros sobreviventes da família, em sua maioria, mulheres e crianças. Além disso, muitos romanos morreram intestados e, de acordo com a Lei das XII Tábuas (V, 4), a herança era distribuída entre filhos e filhas. Assim, a riqueza em poder das mulheres aumentou significativamente e foi ostensivamente mostrada (Plutarco. Vida de Catão, o Velho 18; Políbio. História XXI, 36, 6-10). As aristocratas manifestaram-se publicamente contra a lei Ópia (Tito Lívio. História de Roma XXXIV, 2-7). A supressão da lei foi justificada através da tradicional divisão entre os gêneros: ao homem, a política e a guerra e à mulher, o adorno e a beleza, sendo, portanto, natural que as mulheres se enfeitassem. A posição contrária defendia que as mulheres deviam se submeter aos seus maridos, não se manifestar, se restringir ao ambiente doméstico, manter o decoro, a discrição e a simplicidade. Ao final, a lei Ópia foi ab-rogada (POMEROY, 1987: 199-205). Tentou-se reproduzir o modelo tradicional feminino da Atenas Clássica, o da mélissa (mulher-abelha): passividade, submissão ao homem, silêncio, fragilidade, debilidade, sedentarismo, abstenção dos prazeres corporais (o sexo apenas para a procriação de filhos legítimos, preferencialmente do sexo masculino), atividades domésticas e exclusão da vida social, pública e econômica, restrição do cotidiano feminino ao interior do gineceu. A historiografia contemporânea questiona a reprodução deste modelo, sobretudo, presente nos escritos de origem masculina, preocupados em regrar especialmente o comportamento das esposas bem-nascidas, prescrevendo- lhes um modelo de recato e discrição (LESSA, 2001). Este paradigma também foi reproduzido nos discursos cristãos (BROWN, 1990; SALISBURY, 1995). Tertuliano (O toucador das mulheres I, 1, 1-2), por exemplo, considerava que jóias, maquiagens, tinturas e tecidos eram de origem satânica, signos da ambição que se contrapunha a humildade, verdadeira essência da boa cristã. Para esta, o seu adorno incorruptível eram as virtudes cristãs que a preparavam para o matrimônio com Deus (Ibid. II, 13, 7). Para mulher pagã, que se dedicava a estes artifícios, o seu destino era a condenação no Dia do Juízo Final, pois toda atividade humana, que objetivava transformar a natureza das coisas, pressupunha um atentado contra a obra

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