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Poder e violência em Hipólito de Eurípides ... - Fazendo Gênero

Poder e violência em Hipólito de Eurípides ... - Fazendo Gênero

ainha

ainha demonstrará que possui mais poder que um homem. A violência, que se registra no final da tragédia, quando um mensageiro revela a morte de Hipólito, comprova que houve realmente a alteração do poder. É necessário que se esclareça que a personagem Fedra, ao se apaixonar por Hipólito, buscou reprimir essa paixão, utilizando-se de alguns recursos, como o silêncio, a razão, e, por fim, a morte surge como a melhor escolha. Aqui, no párodo da peça, há a informação de que ela está há três dias sem comer, está deitada em um leito; já no início do primeiro episódio, a descrição da rainha completa-se quando se observa que ela pode, a qualquer momento, levantar-se e expressar alguns delírios que, conforme uma análise psicológica mais atenta, contêm intensos desejos eróticos 8 . No entanto, graças à persuasão da aia — essa personagem atua e possui o poder de uma mãe —, Fedra revela a todas as mulheres os seus segredos sobre a paixão. A seguir, a rainha é traída pela serva e a primeira necessita de novos planos para ocultar aquele sentimento; na verdade, Fedra descobre a traição de sua criada de confiança, ao assistir ao terrível discurso de Hipólito contra todas as mulheres — isso funciona como o estopim para os próximos atos da rainha. Assim, a reação de Fedra reside na escrita de uma carta que incrimina Hipólito, além do suicídio que ocorre em seguida. Uma das primeiras conseqüências da carta de Fedra é que essa personagem fornece indícios de que superou a sua paixão por Hipólito. É importante referir que a rainha avisa, antes de se suicidar, que se vingará de Hipólito, pelo desprezo como esse personagem a tratou, isto é, se ele tivesse agido de outro modo, haveria outra saída para o drama de Fedra. No terceiro episódio, há a descoberta do corpo da rainha, ao mesmo tempo há a chegada de Teseu em seu palácio (ele estava ausente), a leitura e a interpretação da tabuleta (carta). Todos esses elementos formam um conjunto que permitirão que Fedra consiga obter êxito em seu intento. É importante frisar que Teseu decidirá se o objeto de desejo de Fedra viverá ou não. A rainha, agora, comunica-se com o marido através da carta. Na verdade, utiliza um recurso para manter as distâncias entre ela e o marido, evitando, desta maneira, o diálogo. De fato, a carta passa a ser o mecanismo pelo qual a rainha consegue trocar a proeminência do poder masculino pelo feminino bem como exercer a vingança com a violência que se estenderá nos atos de Teseu contra o seu filho. Além disso, a marca do terceiro episódio é o silêncio a respeito da paixão de Fedra. Hipólito e o coro da peça, formado por mulheres da cidade de Trezena, juraram que não mencionariam a ninguém a respeito do desejo amoroso da rainha. Em suma, a carta revela o contrário do que Fedra gostaria de ter realizado, a aproximação amorosa; ainda por cima, Hipólito é acusado de tocar no leito da esposa de Teseu, de modo violento. Uma das conseqüências da presença do cadáver da

ainha é que esse se transforma em um signo de acusação, que contribuirá na morte de Hipólito e na descrença do pai em relação ao filho. É importante, aqui, mencionar as idéias da teórica Ann L. T. Bergren 9 que contribuíram decisivamente na avaliação desses signos. Deste modo, a helenista avalia a capacidade de Helena em imitar a verdade, de acordo com o relato de Menelau, que testemunhou, na Odisséia, Canto IV, v. 270 ss, de que modo a sua esposa, junto ao cavalo de pau, quando estava no interior de Tróia com os guerreiros argivos, ela os atraiu, imitando as vozes das suas esposas; se não fosse a interferência de Odisseu, os gregos teriam sofrido uma grande derrota. Uma das conclusões da helenista é que a mulher possui a capacidade para imitar a verdade. Desta forma, Fedra demonstrou ter essa habilidade no momento no qual acusou o seu enteado. Teseu não teria confiado no texto acusatório se esse não tivesse sido razoável, persuasivo e coerente com o que foi apresentado. A rainha utilizou recursos sofisticados em sua exposição na carta a fim de que, na primeira leitura, Teseu reagisse rapidamente e quisesse que o seu filho fosse morto. O primeiro ato do rei após a leitura da carta, v. 885-886, é proclamar que “Hipólito ousou, no meu tálamo, tocar, / pela força, desonrando o olho sagrado de Zeus”. É evidente que não se trata do texto propriamente dito escrito por Fedra — talvez os versos pronunciados por Teseu sejam um resumo, uma paráfrase ou uma interpretação do texto de sua esposa. Além disso, há outras expressões que destacam o conteúdo da tabuleta que correspondem à opinião que tivera do ato de Hipólito, como indicam os versos 877-880 10 . Há também os versos 882-884, “Isto não guardarei na minha boca, / insuportável / e infesta destruição”. Desta maneira, tais declarações entram em combinação com os versos 885-886, acentuando o horror que a rainha conseguiu apresentar, ao imputar a Hipólito a responsabilidade pela violência. No segundo episódio, Hipólito havia proposto um espaço no qual as mulheres não possam falar, v. 645-648 11 . Se o discurso oral das mulheres tinha uma censura específica, não é através desse mecanismo lingüístico que a rainha poderia obter o que desejava. Assim, houve a necessidade de um estratagema para que ela conseguisse os seus objetivos. A personagem, para defender a sua honra, uma vez que não havia a menor possibilidade de diálogo com Hipólito, empregou um recurso no qual a palavra de uma mulher seria superior à de um homem 12 . O filho de Teseu demonstra limitação ao compreender o agir feminino; mesmo que esse não tenha como empregar a força, criou outros mecanismos tão ou mais fortes para resolver os seus problemas. É necessário, aqui, refletir ainda sobre o mito no qual estão presentes Filomela, Procne e Tereu 13 , a fim de esclarecer em mais detalhes as implicações do ato de Fedra. De acordo com Ann L. T. Bergren, esse relato sugere a capacidade do silêncio das mulheres no ato de tecer ao contrário do ato de falar. A helenista comenta que Tereu, que havia raptado a irmã (Filomela) de sua esposa, Procne, corta a língua para manter o silêncio do seu ato censurável; no entanto, de acordo com

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