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Poder e violência em Hipólito de Eurípides ... - Fazendo Gênero

Poder e violência em Hipólito de Eurípides ... - Fazendo Gênero

Apolodoro, 3.14.8,

Apolodoro, 3.14.8, Filomela possui ainda a capacidade para tecer pinturas e/ou palavras (grammata) em um manto que, em seguida, foi encaminhado à sua irmã. Deste modo, para a helenista, o expediente de Filomela relaciona-se diretamente com o ardil do tecer, ou seja, é um modo simbólico para dar um sentido exterior a um assunto que é sem articulação. Ainda seguindo o detalhamento da questão por Ann L. T. Bergren, essa julga que tal aptidão em tecer possui uma outra correspondência no pensamento grego; neste caso, trata-se da habilidade conhecida como mêtis, “sabedoria”. De acordo com tal concepção (a autora menciona helenistas como Marcel Detienne e Jean-Pierre Vernant), essa envolve a capacidade de transformação, de alteração profunda a partir de uma forma contínua, já que se imita a forma de seu inimigo e esse é sobrepujado dentro do seu próprio jogo. Desta forma, a esposa de Teseu realiza esse expediente, porque emprega a mêtis ao atribuir a si mesma a castidade, a pureza que o filho da amazona tantas vezes na peça não cansa de proclamá-la. Hipólito é transformado em um perverso que a violou. Um outro exemplo adequado é a associação com o conceito de sophé que é outorgado à Medéia que lhe permite simular as atitudes de uma suplicante, diante de Creonte, apesar de seu ódio no coração contra o ex-marido Jasão; aqui, os expedientes de Medéia também ocorrem, quando ela se encontra, em um segundo momento, com Jasão, pois não o questiona mais, não o censura, como fez anteriormente, admitindo que estava errada em suas palavras e em seus atos. Após esses exemplos, observa-se que, graças à simulação da verdade, cada uma das mulheres garantiu, de certo modo, a realização do seu plano estipulado. Voltando à nossa tragédia, Fedra suicida-se e o seu cadáver se transforma em um signo tão importante como a própria carta. A rainha, neste momento, não pode ser mais questionada. Para aqueles que ainda vivem, permaneceu o corpo de Fedra, torturado anteriormente pela paixão. Deste modo, esse cadáver apresenta o status de um signo absoluto e inquestionável para Teseu que não reflete se haveria outra interpretação a não ser relacionar carta e corpo, porque, sem o corpo do autor, da rainha, a carta perderia o seu valor persuasivo. Teseu interpreta os signos e elege uma única definição. Com efeito, o cadáver e a carta formam um conjunto coerente por suas relações intrínsecas que não funcionariam sem que cada um estivesse presente ao mesmo tempo, tanto é que o corpo da rainha ainda está segurando a carta, que, por sinal, é um dos seus últimos atos antes de morrer. Essa personagem poderia ter realizado um ato distinto, como escrever a carta e ter-se lançado de um precipício; entretanto, o enforcamento é uma característica de uma morte feminina 14 . Nicole Loraux refere-se às cordas que existem na vestimenta das mulheres, como, por exemplo, a personagem Antígona, de Sófocles, quando essa as utiliza com a finalidade de se suicidar. Um outro aspecto importante que a helenista enfatiza é a duplicidade que pode ser observada na roupa da mulher, pois essa comporta véus, cintos e faixas que funcionam tanto como mecanismos de sedução, de persuasão, como representam sinais sinistros de ameaça à vida.

Tais amarras que estão nas cordas que enforcam Fedra podem se deslocadas simbolicamente para a escritura. Unicamente Teseu, Fedra e os deuses podem ter o conhecimento exato da carta que define a vida de Hipólito — contudo, a decisão interpretativa de leitura pertence a Teseu. A Hipólito, não é fornecida tal permissão para que esse leia o texto que lhe acusa, nem ele roga tal pedido. Além disso, não significa que, se Hipólito tivesse acesso ao documento, teria mais chances para se salvar. Em contrapartida, Sócrates é o exemplo de quem leu o texto da acusação — embora se trate de um outro contexto social —, porém não conseguiu se salvar. Assim, a tragédia não sugere qualquer referência à possibilidade de uma ‘segunda leitura’ que questionaria a acusação. O embate, que segue entre pai e filho, não recai especificamente sobre o texto escrito. Teseu não questionou o autor do discurso, nem a carta; todavia, esse personagem será criticado posteriormente pelo mensageiro, que teceu críticas à escrita de Fedra e retomou o ataque às mulheres, conforme os versos 1249-1254 15 . O que impressiona, aqui, é que a autora da carta está morta com o seu próprio texto em suas mãos e não interessa a veracidade do que seja proferido, pois isso será verdadeiro — essa é a relação que Teseu realiza ao compreender o conjunto dos signos que lhe é apresentado. Como agir diante de um texto cujo autor não está vivo a fim de elucidá-lo? A saída desse problema é ler o documento e apresentar uma interpretação e, se for o caso, agir. Tal é a tarefa de Teseu que se revela como um mau intérprete para tanto; neste caso, esse herói não separa a verdade do texto e a que foi sugerida por Fedra, que agora se apresenta como um cadáver. Também Teseu não consegue, por conseguinte, colocar um corte nessa relação entre a escritura e os ‘atos do autor’, ou seja, entre a escrita e ‘o que o autor quer proclamar com o seu corpo’. Com efeito, esse personagem caiu na armadilha deixada pelo autor de um documento. É necessário enfatizar que, aqui, há uma fusão entre o corpo morto e a escrita. Há a possibilidade de que Eurípides estivesse aludindo que a escrita representasse apenas um corpo morto — tal idéia se aproximaria da suspeita de Platão em relação à escrita, de acordo com Fedro, 274 ss, Protágoras, 329 a, Carta VII, 341 b 16 . Se for realizada uma contraposição com a posição de Platão, que questiona o texto escrito, o corpo morto também possui um ínfimo valor, visto que não há a possibilidade de se manter o diálogo, a não ser procurando provas exteriores, como se descobre na relação que aquele mantém com a carta. Fedra declarou, no segundo episódio, que não admitiria que Teseu a olhasse no rosto, v. 720; a rainha, deste modo, evita a troca de olhares com o marido, pois reconhece que o olhar pode demonstrar a vontade, o desejo, os sentimentos que estão ocultos. Nesta ótica, a carta representa aquilo que Teseu pode olhar em sua esposa com o objetivo de procurar uma explicação para o suicídio dela. O pai de Hipólito julga, ao estar diante do cadáver da esposa, que possui um critério claro e infalível 17 — a carta torna-se a voz do morto. A carta é direta quanto aquilo que Fedra acusava Hipólito, visto que Teseu não demonstra qualquer perplexidade a respeito do que deveria

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