Views
4 years ago

Poder e violência em Hipólito de Eurípides ... - Fazendo Gênero

Poder e violência em Hipólito de Eurípides ... - Fazendo Gênero

ealizar quanto ao crime

ealizar quanto ao crime cometido por Hipólito. A tabuleta fornece, de certa maneira, instruções, e Teseu as realiza. O que acontece na seqüência? O marido confia plenamente em sua mulher e nem poderia suspeitar que Fedra tivesse tido um desejo amoroso pelo próprio filho. Se, anteriormente, Hipólito não conversou com Fedra, de modo direto, neste momento, pode fazê-lo — essa é a ironia da situação; no entanto, terá, ao seu lado, um homem furioso que, ao mesmo tempo, possui o poder de um juiz: Teseu. Fedra comunica-se, neste momento, pela carta, porquanto Hipólito não desejou dialogar, e esse sugeriu, inclusive, que as mulheres habitassem com os animais. O ato desse jovem em repudiar o ato da fala feminina, enquanto dialogava com a aia, certamente, contribuiu para a sua própria morte. Esse personagem não adotou uma outra atitude, limitou o seu diálogo com a aia a um extenso monólogo, expressando, no final de sua fala, o ódio à raça feminina e a todos os assuntos que envolvam o relacionamento erótico entre homens e mulheres. Se Hipólito esperava que as mulheres não falassem (como também está no imaginário masculino de que a melhor mulher é a que conserva o silêncio), o corpo de Fedra ultrapassa o âmbito da palavra e alia-se como um instrumento crucial nas relações humanas. Mesmo que Hipólito apresente uma defesa consistente diante de Teseu, a desvantagem com a qual inicia o debate é decisiva para que não obtenha a salvação. Neste caso, esse jovem só terá a palavra e nenhum objeto exterior que possa ajudá-lo na sua salvação — agora a paixão é superior aos discursos. Vale lembrar que esse jovem está sob juramento e não pode revelar o que sabe a respeito da paixão da rainha. Na história da literatura grega, há a figura de Penélope que salienta, na Odisséia, XIX, v. 124-128, que a sua kléos, “glória”, estava diminuída, e aumentará no momento no qual Odisseu retornar; de modo hipócrita, a kléos de Fedra crescerá com a chegada de Teseu 18 . Mais uma vez, a glória torna-se o ponto mais significativo para a rainha. No início do primeiro episódio, se a serva conseguisse unir enteado e madrasta, a honra não seria tão essencial à personagem. Devido à paixão e ao valor que Fedra lhe outorga, algo tão importante como a glória poderia perder a sua necessidade. No entanto, no final do segundo episódio, Fedra morre, seguindo essa perspectiva, de acordo com o v. 717, “de modo que eu conceda aos meus filhos uma vida honrada”. Na tragédia, Teseu engrandece a figura de Fedra, visto que agora opina que ela seja a melhor das companhias, v. 838, e assegura, até mesmo, que nenhuma mulher entrará no seu leito. Talvez pareça que a rainha tenha sido um ser pérfido em arquitetar a morte de Hipólito. No entanto, tal idéia não abrange a complexidade do drama, pois, desde o seu início, observa-se a problemática de Fedra de esconder o seu segredo; a rainha é lançada em circunstâncias trágicas as quais necessita realizar algumas escolhas sob a ameaça que a situação perca o controle e ela padeça pelos seus atos. A questão é que as leis e a força física estão do lado dos homens. As mulheres, no

universo grego, exceto o caso das amazonas, utilizam a sedução e a persuasão como defesa; aqui, o único recurso que Fedra anteviu para resolver um grande conflito foi o emprego da persuasão, como foi demonstrado através da carta que conseguiu, de forma eficiente, comprovar que a palavra de uma mulher é superior à de um homem. Na verdade, há uma situação complexa na qual Fedra se encontra: além de estar com o corpo e a mente abalados, não conseguiu realizar as melhores escolhas como também não avaliou, por exemplo, que Hipólito não relataria a ninguém a paixão da madrasta. No entanto, a vingança da rainha relativiza-se, tendo em vista alguns pontos que poderiam agora ser mencionados, como o fato de a deusa Afrodite ter anunciado, no prólogo, que, pelos seus desígnios, Fedra se enamoraria pelo enteado. No êxodo da tragédia, a deusa Ártemis proclama que os mortais podem errar, como sucede com Teseu que julga o seu filho de modo errôneo, se os deuses, assim, o permitirem. Também há o fato de que o longo discurso de Hipólito apresentou idéias praticamente genocidas contra as mulheres que contribuíram para que Fedra julgasse que esse jovem era uma ameaça. Deste modo, a rainha age buscando salvar a si mesma e a seus filhos; contudo, é difícil avaliar o quanto podia obter uma solução adequada, em uma situação na qual padecia de uma grande pressão psicológica. Não se deve esquecer que o agente principal da morte de Hipólito é Teseu, porque esse é quem exige de um deus que mate o seu filho ou que o envie para o exílio. Não há indícios de que Fedra tenha, realmente, mandado matar Hipólito. O próprio texto, como já foi mencionado acima, apresenta a voz de um servo que reclama da atitude de Teseu mas também a deusa Ártemis lhe faz duras críticas por não ter utilizado os inúmeros recursos que havia naquele momento para, de uma maneira adequada, julgar Hipólito. Referências bibliográficas ROMILLY, Jacqueline de. A tragédia grega. Trad. de Ivo Martinazzo. Brasília: Ed. da UNB, 1998. p. 111; Id. La modernité d’Euripide. Paris: Press Universitaires de France, 1986. BARRET, W. S. Euripides Hippolytos. Intr. Coment. Oxford: Clarendon Press, 1964. MOSSÉ, Claude. La mujer en la Grecia clásica. Trad. Celia María Sánchez. 3. ed. Madrid: Nerea, 1990. SEGAL, Charles. Euripides’ Hippolytos 108-112: tragic irony and tragic justice. Hermes, v. 97, p. 297-305, 1969; PARRY, Hugh. The second stasimon of Euripides’Hippolytus (732-775). Transactions and Proceedings of the American Philological Association, v. 97, p. 317-326, 1966; GLENN, Justin. The fantasies of Phaedra: a psychoanalytic reading. The classical world, v. 69, BERGREN, Ann L. T. Language and the female in early greek thought. Arethusa, v. 16, p. 69-95, 1983. LORAUX, Nicole. Façons tragiques de tuer une femme. Paris: Hachette, 1985. (Textes du XXe Siecle). MAIRE, Gaston. Platão. Trad. Rui Pacheco. Lisboa: Edições 70, 1991. (Biblioteca Básica de Filosofia, 4).

Interligações entre Cultura, Violência Baseada no Género ... - SAfAIDS
Fazendo Gênero 8 - Corpo, Violência e Poder Florianópolis, de 25 a ...
Corpo, Violência e Poder - Fazendo Gênero - UFSC
Corpo, Violência e Poder - Fazendo Gênero - UFSC
Fazendo Gênero 8 - Corpo, Violência e Poder Entre a casa e a ...
Corpo, Violência e Poder - Fazendo Gênero 10 - UFSC
Corpo, Violência e Poder - Fazendo Gênero - UFSC
Fazendo Gênero 8 - Corpo, Violência e Poder Florianópolis, de 25 a ...
Fazendo Gênero 8 Fazendo Gênero 8 - Corpo, Violência e Poder ...
Fazendo Gênero 8 - Corpo, Violência e Poder Florianópolis, de 25 a ...
Corpo, Violência e Poder - Fazendo Gênero 10 - UFSC
Fazendo Gênero 8 – Corpo, Violência E Poder
Fazendo Gênero 8 - Corpo, Violência e Poder Florianópolis, de 25 a ...
Fazendo Gênero 8 - Corpo, Violência e Poder Florianópolis, de 25 a ...
Fazendo Gênero 8 - Corpo, Violência e Poder Florianópolis, de 25 a ...
Fazendo Gênero 8 - Corpo, Violência e Poder Florianópolis, de 25 a ...
Fazendo Gênero 8 - Corpo, Violência e Poder Florianópolis, de 25 a ...
Fazendo Gênero 8 - Corpo, Violência e Poder Florianópolis, de 25 a ...
Fazendo Gênero 8 - Corpo, Violência e Poder Florianópolis, de 25 a ...
Fazendo Gênero 8 - Corpo, Violência e Poder Florianópolis, de 25 a ...
Fazendo Gênero 8 - Corpo, Violência e Poder Florianópolis, de 25 a ...
Fazendo Gênero 8 - Corpo, Violência e Poder Florianópolis ... - UFSC
Fazendo Gênero 8 - Corpo, Violência e Poder A mulher sob o ...
Fazendo Gênero 8 - Corpo, Violência e Poder Florianópolis, de 25 a ...
Fazendo Gênero 8 - Corpo, Violência e Poder Florianópolis, de 25 a ...
Fazendo Gênero 8 - Corpo, Violência e Poder Florianópolis, de 25 a ...
Fazendo Gênero 8 - Corpo, Violência e Poder Florianópolis, de 25 a ...
Fazendo Gênero 8 - Corpo, Violência e Poder Florianópolis, de 25 a ...