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Entre pesquisar e militar: Contribuições e limites ... - Fazendo Gênero

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Anais do VII Seminário

Anais do VII Seminário Fazendo Gênero 28, 29 e 30 de 2006 ser aceita, lancei mão de um ethos que eu supunha ser comum às ONGs e que estava definido no site de A sob o link Ways you can help us: eu me ofereci como voluntária. Esse papel foi prontamente aceito já que J., a presidente e midwife da entidade, sugeriu que eu realizasse uma avaliação dos treinamentos de comadronas que a ONG vinha desenvolvendo desde 2000. Para isso, ela me dava acesso à equipe, aulas (que na época estavam acontecendo com três turmas no interior do país), biblioteca, arquivos e clínica. Eu acreditava que, de minha pesquisa etnográfica – principalmente, de minha circulação por vários cenários e do contato com variados atores – eu poderia destilar um relatório de avaliação sobre os treinamentos. Acreditava que um mesmo esforço alimentaria ambas tarefas. Mas, no momento em que me antecipei e me classifiquei como voluntária de A, eu assenti ao desafio de “vestir dois chapéus”, isto é, de pesquisadora e de militante. Se, naquela época, essa condição era gramaticável para mim, tanto pela minha experiência pregressa em Brasília, quanto pela minha afinação ideológica com a luta feminista, hoje, percebo como essa condição “anfíbia” é bastante complexa. Alguns exemplos ajudam a entender essa contradição. Logo nas primeiras aulas, ministradas em conjunto por J. e C., midwives estadunidense e alemã respectivamente, U., enfermeira maia e L., educadora ladina ii , percebi dois focos de tensão que mereciam atenção, a meu ver, para elaborar a avaliação. Primeiro, havia um conflito entre as técnicas obstétricas ensinadas no curso e aquelas colocadas em uso pelas comadronas. Quer dizer, quando visitei as comadronas em suas casas e vilas, pude notar como adotavam muito pouco do que era ensinado de forma teórica e escolar nas aulas. Além disso, as aulas se baseavam em material didático escrito para um público era pouco alfabetizado. Segundo, percebi como a relação entre as instrutoras refletia os intensos e históricos conflitos de classe, raça e gênero do país, mas eram estrategicamente silenciados por J. e C., superiores na hierarquia do trabalho. iii Para entender melhor como os cursos eram impactados por esses dois aspectos, passei a dirigir várias perguntas sobre o treinamento e os relacionamentos da ONG à C., U. e L., com quem eu passava mais tempo. Além disso, a diretora da clínica, I., midwife estadunidense, e N., midwife alemã, vinham tecendo duras críticas à gerência de J. e, à certa altura, começaram a idealizar uma clínica alternativa. Essa dissidência me informava sobre outros tantos pontos de tensão que existiam dentro da ONG e que influenciavam a forma como as comadronas eram definidas, instruídas e tratadas ali dentro. Creio que J. me via muito mais como voluntária do que como pesquisadora e, apesar de esperar que eu avaliasse o programa de treinamento, não supunham que eu o criticasse de fato. É bastante difícil um/a antropólogo/a assumir esse papel de avaliador, sobretudo em campo, já que implica em julgar o outro, atitude que somos, durante toda nossa formação, treinados para evitar. iv Eu, como voluntária de A, deveria emitir julgamentos e, como antropóloga, deveria justamente

Anais do VII Seminário Fazendo Gênero 28, 29 e 30 de 2006 tentar explicá-los. Os dois chapéus, em muitos momentos, ficavam contraditórios. E, o fato de conviver e conversar também com parcelas não hegemônicas dentro da ONG – método que considero fundamental para mapear os atores, posições e forças no campo – foram interpretadas por J. como traição e todas as portas do campo me foram fechadas. Fica claro como meu chapéu como voluntária era priorizado. Valeu a pena entrar no campo via uma ONG porque me transferiu confiança suficiente para acessar as comadronas, mas quando J. exigiu fidelidade, me tornei, de certa forma, refém dela. O que, no início parecia um alargamento, no final, se transformava em um desconfortável estreitamento de oportunidades. Esse quadro me informou como eu e J. tínhamos concepções diferentes do meu papel como antropóloga. Julgo que começar pela ONG foi uma opção permeada de inocência e um “atalho” conveniente demais e problematizado de menos em relação às suas implicações políticas e afetivas sobre a pesquisa. 2 Respaldando os treinamentos Depois que retornei da América Central, segui para a ONG B, localizada no Nordeste brasileiro. Contudo, ao contrário da etapa anterior, eu evitei me auto-definir de antemão e deixei que a própria B me caracterizasse. Uma amiga, antropóloga e feminista de Brasília, compartilhava projetos com B e referendou minha formação e experiência como etnógrafa e também ex-ongueira. Ainda assim, não estava muito claro para P., N. e S., enfermeira, socióloga e massoterapeuta que coordenam a entidade, o que eu faria ali dentro. Se, por um lado, isto me deixava um pouco ansiosa por desconhecer como minha pesquisa se desenrolaria, por outro, acredito que a negociação sobre meu papel foi realizada, entre avanços e retrocessos, de ambos os lados, garantindo a construção paulatina de uma confiança mútua. Também na ONG B, tive uma “conversa ritual”, logo na minha primeira visita. Era o momento de socializar intenções. N. me apresentou aos arquivos da entidade já que, segundo ela, “Você quer conhecer como é esse lance de treinamentos, então tem que entender a história da gente”. Assim, passei dois meses lendo todo tipo de documento que a ONG havia acumulado desde sua fundação em 1989. Nesta fase, meu objetivo era duplo: conhecer como B concebia os treinamentos de parteiras e, aos poucos, naturalizar minha presença naquele espaço. Creio que minha curiosidade sobre a ONG me elevou a um outro nível nesse relacionamento. Eu acumulava muitas informações ao ler o material que me fora disponibilizado e, ao final do dia, sanava minhas dúvidas com as técnicas, P. e N, ou com E., gerente da ONG. Notaram que eu tinha uma leitura detalhada e vontade de conhecer. Daí partiu uma primeira proposta: organizar as pastas sobre mortalidade materna e escrever um relatório que subsidiasse a

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