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Entre pesquisar e militar: Contribuições e limites ... - Fazendo Gênero

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Anais do VII Seminário

Anais do VII Seminário Fazendo Gênero 28, 29 e 30 de 2006 ONG no Comitê Estadual de Estudos da Mortalidade Materna. Parece que gostaram do relatório e ele foi usado em uma reunião ampliada do Comitê com o Secretário Estadual da Saúde para exigir medidas que diminuíssem estes tristes índices no Estado. Assim, eu passei a fazer pequenas tarefas para a ONG B, principalmente a produção de documentos escritos e a participação em eventos. Apesar de chegar à B com um papel indeterminado, a mesma “lógica de contrapartida” que encontrei na Guatemala foi acionada, já que N., P., S. e E. sugeriam minha contribuição em troca dos dados que colhia diariamente ali. Nesse mesmo período de campo, participei em Oliveira dos Campinhos, Bahia, do IV Encontro da Rede Nacional de Parteiras Tradicionais. Essa Rede é organizada pela outra ONG que, no Brasil, também trabalha com parteiras, que chamarei aqui de C. B e C têm conflitos históricos e, desde o começo, eu sabia que se escolhesse centrar foco em uma, teria, de forma quase automática, as portas fechadas pela outra. Visitei e entrevistei pessoas de C, mas sempre tinha que deixar claro, para ambas ONGs, meus itinerários e intenções. Na Guatemala, as questões de fidelidade se davam dentro da própria ONG enquanto que, no caso brasileiros, estava mais visível entre ONGs. Acredito que a experiência com A me deixou menos naïve com B. Tensões políticas são inerentes e constitutivas das identidades das ONGs e por isso não só decidi me “filiar” à B como ficar sempre alerta para as conseqüências de incursões plurais em campo. Além das tarefas práticas, eu passei a ser uma referência sobre o “mundo acadêmico” e a Antropologia. E, ao final de minha estada, P. propôs: “Soraya, hoje à tarde, eu pensei em você. Eu estou revisando um projeto pro British Council. (...) A idéia é fazer, em um ano, cinco treinamentos no Pará. A gente iria, a cada dois meses, e passaria 15 a 20 dias lá. Eu queria te incluir nesse projeto para gente etnografar tudinho. Você iria conosco para ouvir, entrevistar, anotar, registrar esses encontros. Aí, a gente teria um registro disso tudo. Eu queria te incluir, o que você acha?” (Diário de campo, 10.09.04). Creio que ONG B não sondou minha participação em projetos como esse só porque apreciaram meu trabalho de observação, escrita, crítica etc. Como antropóloga, eu também servia para respaldar o trabalho de B, como lembrou N. ao orientar a jornalista da entidade: “Olha, escreva aí sobre o curso de parteiras em Minas Gerais. E a Soraya vai também. Ah, vamos colocar a Soraya na roda. Ela está fazendo doutorado sobre a Guatemala e o Brasil. Coloca aí, é importante pra B” (Diário de campo, 15.09.04). Minha filiação acadêmica, títulos, línguas estrangeiras, contatos com ONGs em outras cidades e países eram elementos positivados no cenário de competição por recursos, por legitimidade teórico-metodológica, por mão-de-obra especializada. Na ONG B, ao contrário da ONG A, minha identidade como antropóloga foi priorizada à qualquer outra (como voluntária, participante de eventos, produtora de relatórios etc.). Mesmo assim, era a idéia de uma antropóloga militante. Penso que, também esses dois papéis, foram

Anais do VII Seminário Fazendo Gênero 28, 29 e 30 de 2006 vividos de forma contraditória porque, por um lado, eu vinha imbuída do ranço discriminatório que a academia desenvolveu em relação aos antropólogos que trabalham “extra-muros” e, por outro lado, eu sentia que assumia esse papel de militante com uma facilidade desconcertante, quer dizer, eu reconhecia uma familiaridade “excessiva” que me soava como um impeditivo para relativizar aquele contexto e seus personagens. Eu assemelhava as ONGs A e B à minha experiência na ONG em Brasília e temia que, nesse caminho, eu seria incapaz de notar diferenças e particularidades, de espantar as imagens que eu tinha cristalizado, e de, enfim, observá-las criticamente. 3 Notas finais Hoje, reconheço que há, por trás de minha relação tanto com a ONG A quanto com a ONG B, uma firme crença de que é preciso haver uma “troca” para que pesquisador e pesquisados se sintam minimamente eqüitativos. Por conta desta idéia, derivam outras ainda: de que a relação é, a priori, desigual e precisa ser reequilibrada; de que a antropologia só acontece quando há igualdade; de que eqüidade seja um valor importante universalmente; que o trabalho do antropólogo é necessariamente útil de alguma forma ao grupo local; de que é preciso haver uma “partilha de fé” no caso de pesquisa com militantes, para que a confiança se estabeleça (Schwade, s/d); de que confiança e empatia são fundamentais na relação entre os dois lados etc. Hoje, observo como todas estas idéias podem ser revistas. Também compreendo que o dissenso com A não foi sobre a troca em si, sempre presente em qualquer relação em campo, mas a forma como eu resolvi colocar essa troca em prática. Ao transitar entre vários espaços e atores envolvidos com os treinamentos, eu colocava a serviço da ONG um dos instrumentos fundamentais que uma antropóloga pode oferecer: o relativismo. Só depois descobri que é um grande desafio manter esse fundamento relativista num contexto que acredita deter um tipo de “authoritative knowledge” (Jordan, 1993). (A autora explica que, nos cursos para parteiras, a obstetrícia cosmopolita e biomédica é apresentada como um “authoritative knowledge”, quer dizer, “o conhecimento que, em um contexto particular, é visto como importante, relevante e conseqüente para a tomada de decisões”, 1989: 925). Quer dizer, J. e suas midwives acreditavam na razoabilidade de sua visão de mundo e, pelos treinamentos, acreditavam que melhorariam a saúde materno-infantil da Guatemala se conseguissem convencer as comadronas dessa mesma visão de mundo. É dessa firme crença em sua própria perspectiva que surge, a meu ver, a exigência de afinidade e fidelidade por parte da pesquisadora. Noto, contudo, que eu também agi de forma semelhante ao acreditar que o relativismo seria a melhor ferramenta para compor a avaliação encomendada pela ONG. E, ao explicitar as alteridades em campo, coloquei em xeque a

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