Views
4 years ago

Entre pesquisar e militar: Contribuições e limites ... - Fazendo Gênero

Entre pesquisar e militar: Contribuições e limites ... - Fazendo Gênero

Anais do VII Seminário

Anais do VII Seminário Fazendo Gênero 28, 29 e 30 de 2006 visão de mundo da ONG e das midwives, principalmente. Com a ONG B, tentei outra estratégia: ao invés de questionar a forma como B agia, eu passei a trazer o ponto de vista das parteiras e as próprias ongueiras passaram a se questionar. Quer dizer, eu promovia de alguma forma uma reflexão só que partia delas mesmas, desonerando-me de um papel que poderia ser tido como acusatório. Creio que esta etapa do trabalho de campo correu melhor porque me posicionei de outra forma: procurei ampliar as “possibilidades de diálogo entre visões de mundo” (Leal e dos Anjos, 165) “intra e inter culturais” (ibid: 166). Mas isso só se deu quando a ONG B tinha me aceitado no grupo, tinha me convidado para etnografar o projeto do British Council, para lhes representar nos eventos pela cidade, para observar o curso em Teófilo Otoni: “São nossos muitos vínculos e nossa inserção em campo que nos permitem o estar lá. Só podemos estar lá se nos acolherem de fato, se quiserem falar sobre si, se quiserem ouvir, se for possível estabelecer alguma reciprocidade” (ibid: 154). Eu cheguei de forma menos impositiva a respeito de meu papel, deixei que o tempo e a convivência entre nós lhes permitissem interpretar como eu trabalhava e o que poderia oferecer. Só então a reciprocidade passou a existir de fato, a meu ver. Quer dizer, só quando houve disponibilidade para trocar (e não apenas receber, como foi no caso da ONG A), pude transitar com mais desenvoltura como antropóloga, colocando questões, confrontando opiniões e histórias, refletindo sobre cenários hipotéticos, problematizando e esmiuçando conflitos. E Bonetti me ajuda a precisar a contribuição dos antropólogos (etnografando ou não) ONGs na forma de “interrogações”: [Introduzimos] uma interrogação que é bem vinda (...) porque é produtiva, porque põe para pensar. (...) Uma interrogação específica que se ancora, sobretudo, na acuidade da escuta e do olhar que a antropologia confere, através dos seus “instrumentos de trabalho”. Mas há que se estar sempre atento para o risco deste olhar e desta escuta ficarem turvos e cheio de ruídos. Um risco que advém da intensa proximidade e da imersão no cotidiano do trabalho. Assim que me parece salutar transpor o mesmo princípio da dúvida para a nossa autoreflexão acerca do lugar que ocupamos e, somado a esta vigilância, investir constantemente na formação. (Bonetti, s/d: 15) Acredito que, com a ONG B, um “canal de comunicação” com a antropóloga também foi aberto e elas reconheceram em mim uma interlocutora comprometida (sem deixar de ser crítica) com as parteiras, as ONGs, o feminismo. E quando elas aceitaram se relativizar e se repensar, deixando o conforto das certezas, é que a troca de fato aconteceu e muito mais momentos de avaliação (mútua, inclusive) aconteceram, mesmo que informais e não encomendados como em A. A ONG B, mais madura politicamente, constrói sua identidade e fronteiras de trabalho com base em embates diários dentro e fora de suas paredes. Por isso tudo, creio que B via com menos surpresa (mas não menos preocupação) o fato de eu circular por outras visões sobre as parteiras e os treinamentos. A ONG A era bastante auto-centrada, tecia pouca articulação com outras ONGs e

Anais do VII Seminário Fazendo Gênero 28, 29 e 30 de 2006 com o governo do país. Só aceitavam algum espelhamento dos conselheiros da entidade, todos estadunidenses com quase nenhuma experiência sobre a Guatemala. (A ONG A parecia muito com o “feminismo colonialista”, descrito por Nelson, 2001). Os desafios que enfrentei para entrar e conviver em ambas ONGs me iluminam sobre o tipo de feminismo que estão fazendo. Ambas acreditavam oferecer o melhor às parteiras treinadas, mas a diferença é que a ONG B estava compromissada em rever constantemente esse ideal – e essa opção ética e metodológica existia muito antes da antropóloga ali aportar. Por isso, as interpretações que eu tecia foram ali melhor recebidas, mesmo que para chegar até elas eu tivesse que circular e colher depoimentos variados. Referências BONETTI, Alinne de Lima. “A ONG e a antropóloga: Da experiência etnográfica à experiência profissional”. No prelo, s/d. COSMINSKY, Sheila. “Knowledge and body concepts of Guatemalan midwives. Anthropology of Human Birth. Artschwager, Kay. Philadelphia: Davis Company, 1982, pp. 233-252. FLEISCHER, Soraya. “Passando por comadrona, midwife e médico: O itinerário terapêutico de uma grávida na Guatemala”. Revista Anthropologica, Lima, no prelo, s/d. JORDAN, Brigitte. “Cosmopolitical obstetrics: Some insights from the training of traditional midwives”. Social Science and Medicine 28, 1989, pp. 925-944. LEAL, Ondina F. e DOS ANJOS, José Carlos G. “Cidadanis de quem? Possibilidades e limites da antropologia”. Horizontes Antropológicos, 10, 1999, pp. 151-173. MINISTÉRIO DA SAÚDE. Diretrizes básicas de assistência ao parto domiciliar por parteiras tradicionais. Coordenação Materno Infantil. Programa de Assistência Integral à Saúde da Mulher. Brasília, 1994. NELSON, Diane M. “Stumped identities: Body image, bodies politic, and the mujer maya as prosthetic”. Cultural Anthropology, 16 (3), 2001, pp. 314-353. SCHWADE, Elisete. “Subjetividade, pesquisa de campo e o trabalho do antropólogo”. s/d. ORGANIZAÇÃO MUNDIAL DA SAÚDE. Parteras tradicionales: Guia ractica para el adiestramiento, la evaluacion y la articulacion de este personal en los servicos de salud. Ginebra: OMS, 1979. 109 p. i Este curto artigo tem como base a atual pesquisa que empreendo para meu Doutorado em Antropologia Social. Entre 2004 e 2005, participei de cursos, reuniões e encontros de parteiras na Guatemala e no Brasil. Aproveito para agradecer a generosidade com que parteiras, gestantes, ongueiras feministas e funcionários públicos deram acesso aos seus cotidianos, opiniões e arquivos institucionais. Agradeço também às animadas discussões do Núcleo de Antropologia e Cidadania (NACI) da UFRGS onde minha produção que vem sendo lida e comentada. ii “The term ‘ladino’ refers both to descendants of former Spanish or mixed Spanish-Indian ancestry and to people following Spanish and western culture in contrast to those oriented toward Indian culture” (Cosminsky, 1982: 234). iii Para uma melhor discussão sobre essa clivagens sociais na Guatemala ver, Fleischer s/d. iv Agradeço à antropóloga Alinne Bonetti por este insight.

Entre pesquisar e militar - Fazendo Gênero 10
Download do Trabalho - Fazendo Gênero - UFSC
1 Gênero e Sexualidade nas Práticas Escolares ... - Fazendo Gênero
homossexualidade: qual a sua visibilidade na ... - Fazendo Gênero
Escrevendo a história no feminino - Fazendo Gênero
1 Gênero e sexualidade nas práticas escolares - Fazendo Gênero ...
Bem do seu tamanho: uma análise de ... - Fazendo Gênero
Alexsandra Pizzetti Benincá - Fazendo Gênero
O corpo na desconstrução da aprendizagem ... - Fazendo Gênero
Gênero e sexualidade nas práticas escolares. ST ... - Fazendo Gênero
Prostituição e criminalidade: O cotidiano e os ... - Fazendo Gênero
Gênero: multiplicidade de representações e ... - Fazendo Gênero
Gênero: multiplicidade de representações e ... - Fazendo Gênero
Gênero: multiplicidade de representações e ... - Fazendo Gênero
Escrevendo a história no feminino - Fazendo Gênero - UFSC
Escrevendo a história no feminino - Fazendo Gênero - UFSC
História das mulheres na guerra do Paraguai - Fazendo Gênero 10