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Imbricações de gênero e raça nas trajetórias escolares - Fazendo ...

Imbricações de gênero e raça nas trajetórias escolares - Fazendo ...

Malu, 22 anos –

Malu, 22 anos – Estudante do 2º Semestre do curso de Pedagogia 3 Malu estudou somente em escolas públicas e relaciona tal fato à “ideologia de vida” de sua mãe, haja vista que a mesma trabalhava como professora em uma escola pública e afirmava ser necessário “exercer verdadeiramente” o “discurso” defendido cotidianamente. Enquanto Teresa e Fátima relacionam os comentários de alunos em relação ao cabelo como “brincadeiras” que devem “ser levadas na esportiva”, Malu relata que “ficava muito chateada”, voltava para casa chorando e contava para a mãe o que acontecia na escola 4 . A sensibilidade da mãe em relação às experiências de hostilização vividas pela filha fazem com que a mesma inicie um trabalho de “conscientização [e] de valorização” do corpo e do cabelo negro. Malu é encorajada, por exemplo, a andar com o “cabelo solto”, passando a assumir a identidade de gênero e étnico-racial de forma positiva, não mais se importando com os “comentários” que ouvia na escola. Esse trabalho realizado pela mãe é fundamental para o enfrentamento de situações futuras tal como relatado no segmento a seguir: Malu: E os meninos eles tinham uma coisa de ficá quando quando uma menina assim da minha cor ou um pouco mais escura que eu eles falavam ah essa dai dá pro gasto sabe? Aí minha mãe dizia que quando alguém falasse assim era pra eu sentá uma na cara dele se falasse assim pra mim que era pra eu me dar o respeito ... Uma vez eu ba- eu meti a mão na cara do menino. Eu fui tomar água e ele meteu a mão na minha bunda sabe falou nossa mas essa pretinha é gostosa. Nossa eu fiquei com muita raiva muita raiva. Eu cheguei em casa e contei pra minha mãe chorando aí eu tinha metido a mão na cara dele. Aí ela foi lá na escola né reclamar. Mais a mãe dele foi lá e a minha mãe também foi e falou. O diretor perguntou o que aconteceu. Aí a mãe dele falou ah mais é só uma criança. Aí minha mãe também falou a minha filha também é só uma criança né ... O relato acima apresenta um retrato significativo das representações de gênero, raça e sexualidade do sexo masculino em relação ao feminino na sociedade brasileira, ainda que não possamos afirmar que esse modelo seja hegemônico. O que causa espanto é o fato desse imaginário machista do homem adulto em relação à mulher negra - “mas essa pretinha é gostosa” -, já estar internalizado na tenra idade, ou seja, entre meninos que ainda se encontram no ensino fundamental e antes mesmo da iniciação sexual propriamente dita. A mulher negra nesse ideário masculino e machista é vista como “gostosa” e, ao mesmo tempo, como objeto que não tem valor e que não pertence a ninguém, podendo, portanto, ser humilhada, abusada e desrespeitada publicamente: “ele meteu a mão na minha bunda”. Nesse sentido, a mulher negra é tratada como um objeto de satisfação casual, ou seja, que “dá pro gasto” e que em seguida pode ser descartada. Esse ideário machista e racista é transmitido por meio da socialização de pai para filho com o consentimento e apoio de mães, que minimizam os rituais de humilhação e degradação do sexo oposto cometido pelos filhos com o argumento de que ele – o filho –, “é só uma criança”. A postura assumida pela mãe de Malu durante todo o processo de socialização escolar, não deixando de encorajar sua filha a assumir-se enquanto negra e a defender-se publicamente foi fundamental para o enfrentamento das 6

situações de humilhação e degradação e para a constituição de uma identidade positiva enquanto mulher negra. O apoio incondicional fez com que Malu desenvolvesse uma profunda admiração por sua mãe, levando-a a buscar uma continuidade biográfica com a mesma, haja vista que Malu pretende seguir os passos iniciados pela mãe e atuar futuramente como professora em uma escola pública. As análises de entrevistas realizadas com jovens negras que ingressaram pelo sistema de cotas na Universidade de Brasília têm mostrado que a percepção das formas mais dissimuladas de discriminação é fundamental para construir novas possibilidades de representação e pertencimento. Sabe-se que ainda são escassos os estudos que analisam os processos de escolarização e os caminhos percorridos por jovens negros/as em direção ao disputado ingresso em uma universidade pública. Se a pretensão é realmente criar um espaço de inclusão nas universidades brasileiras, as pesquisas devem se unir estrategicamente a políticas educacionais, pois podem, de forma inovadora, fazer repensar a própria produção do conhecimento e a compreensão da sociedade. A discussão sobre ações afirmativas e políticas da diferença é fundamental se quisermos promover uma ruptura dos essencialismos e binarismos muitas vezes presentes nos debates educacionais, se quisermos promover a análise crítica e criativa das relações entre sujeitos diferentes, se quisermos criar condições para que as especificidades e conflitualidades dessas relações sejam compreendidas, se quisermos promover – tanto no âmbito da escola como em outros espaços educativos –, formas emancipatórias de relação social que favoreçam a superação dos processos de sujeição e exploração que têm marcado nossa história. Referências bibliográficas ANTHIAS, Floya; YUVAL-DAVIS, Nira. Racialized Boundaries. Race, Nation, Gender, Colour and Class and the Anti-Racist Struggle. London, New York: Routledge, 1992. BACK, Les. New Ethnicities and Urban Culture: Racisms and Multiculture in Young Lives. London: UCL Press, 1996. BHABHA, Homi. O local da cultura. Belo Horizonte: Ed. UFMG, 1998. BOHNSACK, Ralf. Group Discussions and Focus Groups. In: Flick, Uwe; Kardorff, Ernst; Steinke, Ines (orgs.). A Companion to Qualitative Research. London: SAGE, 2004. BOHNSACK, Ralf; WELLER, Wivian. O método documentário e sua utilização em grupos de discussão. Educação em Foco. Juiz de Fora, v. 11, n. 2, p. 19-38, 2006. BUTLER, Judith. GOFFMAN, Erving. Estigma. Notas sobre a manipulação da identidade deteriorada. 4ª Ed. Rio de Janeiro: Editora Guanabara, 1988. FERREIRA, Erika do C. L. A construção da identidade e da diferença: sobre políticas de cotas e poder de representação. Projeto de qualificação (Doutorado em Educação) - Universidade de Brasília, 2007. HALL, Stuart; DU GAY, Paul (orgs.) Questions of Cultural Identity. London: Sage Publications, 1996. HALL, Stuart. A identidade cultural na pós-modernidade. 4ª Ed. Rio de Janeiro: DP&A, 2000. 7

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