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Fazendo Gênero 8 - Corpo, Violência e Poder Florianópolis, de 25 a ...

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no seu quarto e no

no seu quarto e no deslocamento à escola, reforçando o estereótipo de que “lugar de menina é em casa”. As narrativas sobre a sua vida escolar, as dificuldades de aprendizagem, as novas redes de sociabilidade instituídas a partir da entrada no Ensino Médio e nos interstícios da escola, as tarefas domésticas e os problemas de diálogo nas relações familiares tomam a maior parte dos depoimentos de Daiana. A explicitação da necessidade de falar e de escutar emergiu nas inúmeras entrevistas e observações de campo. A vergonha de falar de si foi superada a partir das narrativas sobre o Caderno dos Segredos, apresentados por Daiana num dos momentos do estudo, revelando uma prática, própria das culturas juvenis, mantida há alguns anos. Daiana e seus trânsitos: entre a casa e a escola As trajetórias escolares de Daiana foram implicadas por suas relações familiares e por seus trânsitos urbanos. Aos 15 anos ela denunciava cinco anos de defasagem entre idade e série, provocados pelo abandono da escola devido às mudanças de endereço freqüentes da família e à sua contribuição no cuidado com os irmãos menores, a fim de permitir que a mãe pudesse trabalhar. Por este motivo teve que deixar sua turma na escola diurna e freqüentar o ensino noturno, na educação de jovens e adultos. Embora, num primeiro momento, este fato apresentou-se como negativo, pois a afastou do convívio com seus pares, a política de correção de fluxo adotada na Rede Municipal de Ensino proporcionou à jovem avançar quatro séries em apenas um ano, habilitando-a para o ingresso no primeiro ano do Curso Normal, num Instituto de Educação, localizado num bairro vizinho ao seu, numa fronteira entre comunidades de classes populares e num dos espaços urbanos mais valorizados da cidade. Com o ingresso no Ensino Médio Daiana começava a se aproximar do sonho de ser professora, porém não sem os percalços que acompanhavam a trajetória da jovem, pois sua matrícula foi efetivada somente dois meses e meio após o início do ano letivo, devido às dificuldades para conseguir a vaga, dadas as desproporções entre a demanda e a oferta para o ingresso no Ensino Médio público da cidade e no curso magistério, na única escola pública com oferta desta modalidade na região: Ah assim, no começo eu fiquei nervosa porque ia perdê um ano de estudo, né?. Perder o ano é uma expressão comum na região, usada, em geral quando acontece reprovação. Daiana já havia perdido cinco anos por conta de sua defasagem idade/série, mas não considerava esses anos perdidos, pois estava na escola. Estar na escola, por si só, mesmo sem conseguir aprovação, significava ausência de perdas porque tinha o encontro com os colegas e a possibilidade de sempre tá aprendendo alguma coisa nova, né? A jovem vivenciava o processo que Bourdieu e Champagne (2001) denominaram de “os excluídos do interior”, pois, a muito custo ela 2

conseguira acesso ao Ensino Médio, oportunidade muito recente nas trajetórias de jovens das classes populares da cidade, porém, a sua permanência e com sucesso convertia-se num grande desafio. Com seus novos percursos escolares e geográficos, os tempos cotidianos de Daiana foram bastante alterados e, com isso, os da família também, pois ela não tinha mais a mesma disponibilidade para contribuir nas tarefas domésticas. A economia doméstica tomou outra configuração com seu ingresso no magistério, priorizado pela família, para que ela tivesse as condições adequadas de seguir na conquista do sonho de sua vida: ser professora! Em função da dedicação de Daiana aos trabalhos da escola, foi a mãe quem teve que alterar as rotinas: primeiro, reduzindo a carga horária na associação de recicladores onde trabalhava e, depois, trocando de emprego e parando de trabalhar. A priorização dos estudos de Daiana, pela primeira vez em anos, gerou um custo em que toda família se viu envolvida pois, com a mãe sem trabalho e com o padrasto em empregos temporários, faltaram recursos para a manutenção das necessidades básicas da família. Daiana percebia a situação que sua família havia chegado, carecendo dos mínimos recursos materiais para garantir a sobrevivência, o que afetava a disposição para a vida. Passou a observar e a registrar a instalação de um quadro depressivo em sua mãe. Este conjunto de acontecimentos começou a afetar as condições emocionais também de Daiana, provocando-lhe um estado de tristeza e o desejo de ajudar, no mínimo, esforçando-se para não ficar triste, pensando por vezes, em abandonar a escola e conquistar algum emprego fazendo o que sabia fazer: limpar a casa e cuidar de crianças. Uma das poucas formas de lazer que Daiana tinha para dispersar a tristeza era o encontro com as primas nos finais de semana, moradoras de seu bairro e de outros pontos da cidade. Porém, com o excesso de tarefas da escola, esses encontros, tornaram-se esporádicos. Em outros períodos de sua vida, com tempos menos inquietos, Daiana buscava alívio para suas tensões na Igreja, mas com os novos cenários de suas trajetórias, sem tempo e sem companhia para freqüentar os cultos, os tempos com os trânsitos religiosos estavam parados, fato que restringia ainda mais suas sociabilidades. A Igreja era um lugar que lhe proporcionava a fala e o alívio das suas mágoas. Foi um dos lugares que Daiana encontrou para expressar a palavra. Através de sua narrativa, tem-se a impressão de que, no Grupo de Jovens da Igreja, ela não tinha vergonha de falar, pois não havia deboche. A preocupação com os deboches, era freqüente nas suas narrativas, associando às suas experiências na comunidade, com as fofocas e com as disputas em querer ser mais do que o outro, no caldeirão preste a explodir que configurava as relações comunitárias. O receio do deboche, expressão que no regionalismo brasileiro assume o sentido de zombaria e de desprezo irônico, conduzia Daiana ao silêncio, demonstrando seus sentimentos incômodos frente ao desprezo, pois este implicava em 3

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Fazendo Gênero 8 – Corpo, Violência E Poder
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Fazendo Gênero 8 - Corpo, Violência e Poder Entre a casa e a ...
Corpo, Violência e Poder - Fazendo Gênero 10 - UFSC