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Fazendo Gênero 8 - Corpo, Violência e Poder Florianópolis, de 25 a ...

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desconsideração, em falta de apreço e de estima, provocando sentimentos de rejeição. Para não se sentir rejeitada, Daiana preferia então silenciar, ficar calada e encontrar outras formas de expressar seus sentimentos, de preferência que ficassem no anonimato, imperceptíveis, de modo que ninguém ficasse sabendo, protegendo-se das ações dos “zombeteiros”, através dos registros secretos que fazia no seu Caderno de Segredos, escondido no seu quarto, carregando-o sempre consigo. Trânsitos de Daiana pelo espaço biográfico: o Caderno de Segredos Daiana tinha o hábito de registrar seu cotidiano num pequeno diário, um caderno tamanho A5, com a fotografia da cantora Sandy na capa. Na primeira página, datada de 28/02/2004, Daiana desenhou corações coloridos, colocou o título Caderno de Segredos e indicou a hora em que começava seu primeiro registro: “h:2:50”. Os registros eram quase diários e seguiram-se até o final de 2005, agregando algumas folhas soltas datadas do início até meados de 2006. Nos textos, que por vezes ultrapassavam duas páginas, por outras tinham algumas linhas, o estado de humor da jovem era explicitado, bem como sua rede de amizades, e acontecimentos íntimos, como, por exemplo, quando ficou mocinha. Algumas vezes utilizava uma linguagem como se estivesse conversando com um amigo, fazendo-lhe perguntas e respondendo: [...] Adivinha quem eu encontrei lá? O Toka, ele pegou na minha mão e depois falou que queria dançar comigo [...]. Outras vezes detalhava os sentimentos. Costumava escrever com caneta de cor diferente quando iniciava e quando terminava seu ciclo. Os finais de semana demandavam mais registros, pois, em geral, estavam vinculados a algum passeio ou encontro com amigos e parentes. Em decorrência, ela tinha muita coisa para contar. Com os novos tempos, a partir de 2006, quase todos ocupados com a escola e com as tarefas domésticas, os registros foram escasseando e o caderno ficou no passado, pois Daiana passou a transitar pouco pelos espaços do interior e do exterior do bairro. Os novos desenhos dos seus mapas de trânsito ganharam ênfase pelo traçado feito entre o caminho da escola e o espaço íntimo da casa. Não sair de casa significava não ter muita coisa para contar em seu Caderno de Segredos. O que enchia o seu dia e as folhas do diário eram as situações vividas e partilhadas com os amigos nas saídas que dava pelo bairro e fora dele. O hábito da escrita foi cedendo lugar à necessidade de falar e ser escutada. Em sua trajetória, Daiana teve um acento maior na sua atitude de escuta do que na de protagonista da fala, potencializando suas palavras no “espaço biográfico” (ARFUCH, 2002) do Caderno de Segredos, no íntimo de seu quarto. Daiana participava das culturas juvenis de forma limitada, dadas as suas carências de tempo livre e de condições materiais para se deslocar aos momentos de sociabilidade. Para além da casa onde morava, a escola, e raras vezes a Igreja, eram praticamente os únicos lugares para a sua expressão juvenil. Nos interstícios da escola, ela e os colegas participavam de momentos de socializações informais, transformando o espaço da sala de 4

aula, os corredores e o pátio em espaços sociais praticados para a construção de suas identidades juvenis. Ao não falar, Daiana ficava invisível e, talvez, com esta atitude, se sentisse protegida dos efeitos que o deboche lhe provoca: desprezo e indiferença. Em via diferente de outros três jovens da pesquisa, todos do gênero masculino, talvez Daiana também estivesse travando uma luta identitária para se tornar visível, para ser reconhecida, para ser percebida e valorizada. O recurso ao Caderno de Segredos, situava-se também no plano das linguagens, forma particularmente presente nas culturas juvenis. Porém, ela fazia isso não através da publicização de suas angústias, alegrias e tristezas como o fazem as letras do rock e do rap. Ela fazia isso através do espaço biográfico, no espaço íntimo do seu quarto e nas folhas de papel de seu “diário íntimo”, algumas vezes referido como agenda, arquivando momentos importantes de sua vida. Sem o tempo e as motivações para as escritas de si, Daiana encontrava no espaço das entrevistas da pesquisa um nicho para a exposição de seus sentimentos e angústias, uma forma de aliviar a pressão do cotidiano que cruelmente transversalizava suas trajetórias juvenis. A jovem convocava espaços de escuta como participante da pesquisa e começava a protagonizar um espaço de fala dentro da própria casa, em tentativas de refletir sobre o que se passava com a depressão da mãe e de colaborar de alguma forma para o alívio dos tensionamentos provocados pela situação de vulnerabilidade social a que sua família estava submetida. Daiana via a mãe triste e sofria com as necessidades pelas quais sua família passava. Novamente, os percursos familiares recomeçavam a pautar os percursos escolares da jovem, que ficava muito afetada com os sentimentos da mãe e ia para a escola nervosa, esquecendo os trabalhos que poderiam representar mais alguns pontinhos no seu orçamento de notas. O orçamento doméstico ficou insustentável sem a contribuição do trabalho da mãe que teve que retornar à atividade. Daiana via-se diante de um quadro de múltiplas tensões: a depressão da mãe, a convocatória para voltar a ajudar em casa e a faltar aulas para partilhar o cuidado com os irmãos, os problemas de final de ano na escola. As colegas até ajudavam, mas não conseguiam imaginar o que era a pressão vivida cotidianamente por Daiana. Com tanta pressão, Daiana também entrou em depressão. Avaliou a possibilidade de abandonar a escola e procurar de um emprego, porém recuou em sua efetivação: Às vezes eu penso assim, até me dá vontade de procurá, largá os estudos mesmo e procurá emprego prá ajudá. Mais, eu sei que com dezessete anos é muito difícil pegarem. E largá os estudos seria a pior burrice da minha vida, né? A situação gerava conflitos, atritos, explosões. A pressão gerava outras necessidades de conversar e de aproximar os dois mundos: o da mãe e o da filha e, quem sabe, o do pai também. A necessidade de ser escutada passava também pela necessidade de escutar, de fazer-se conhecer, mas também de conhecer o outro. Daiana desejava participar do que se passava no interior de sua casa. 5

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Fazendo Gênero 8 – Corpo, Violência E Poder
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Corpo, Violência e Poder - Fazendo Gênero 10 - UFSC