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Fazendo Gênero 8 - Corpo, Violência e Poder Florianópolis, de 25 a ...

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Ela tinha aprendido o

Ela tinha aprendido o princípio da gestão democrática, da partilha e do diálogo nos meandros da escola, nas reflexões que a turma fazia na ausência dos professores ou nas conversas que mantinha com as amigas e transferia esta aprendizagem para a família, na forma de necessidade de falar e de ser escutada. Talvez se a mãe partilhasse os problemas com ela, fosse uma possibilidade de Daiana ser percebida e reconhecida como uma jovem que precisava da palavra da mãe, mas que também tinha uma palavra a dizer, a partir do lugar de filha. A jovem reivindicava um espaço para a pronúncia da palavra talvez, naquele momento, liberto do medo e da vergonha de falar. Daiana dizia nas primeiras entrevistas que sem uma mãe tu não sabe como viver. Ela estava vivendo a ausência de mãe e de pai porque o cotidiano da periferia era muito pesado e sobrava pouco tempo para eles perceberem e escutarem as angústias de uma jovem menina de 17 anos, pois as necessidades de sobrevivência falavam mais alto. Com tanta pressão, o caminho da depressão se fazia como um atalho, tanto na mãe como na filha, exigia estratégias para conviver com as experiências contraditórias do tempo e desafiava às escolhas de modo a priorizar o que fosse mais emergente, deixando incerto e em aberto o futuro, não sem projetos, de vir a ser uma “boa professora”. Mesmo sem ter estudado ainda os princípios da prática pedagógica, Daiana já sinalizava que seria uma professora que procuraria conhecer seus alunos e se importaria com eles, evitando os efeitos do desprezo e da indiferença que ela tão bem conhecia. Considerações finais: os trânsitos de Daiana pela pressão do cotidiano As trajetórias de Daiana constituem um dos poucos casos entre os jovens da pesquisa que, mesmo frente às necessidades materiais e limitações de várias ordens, persistia nas continuidades de seu processo de escolarização. Suas narrativas convidam a penetrar no interior da escola e a perceber a sua organização e a sua forma, a partir de um outro ângulo que não o do mundo adulto, mas o de quem é a razão de existir da escola: o aluno. Os contextos de vida da jovem oriunda da periferia permaneceram encobertos na sua identidade de estudante, durante todo o percurso do primeiro ano do magistério. Em maio de 2006, Daiana estava dentro da escola, porém, um conjunto de fatores exógenos e endógenos concorriam entre si, desafiando a sua permanência e o seu sucesso escolar. As palavras de Daiana sobre o seu cotidiano permitem perceber os entrelaçamentos de seus vários trânsitos na sua construção identitária. Os conhecimentos construídos nas “fendas da organização escolar” (DUBET, 1994), lhe proporcionaram competências que interferiram no seu perfil passivo, calado e introspectivo. As aprendizagens proporcionadas na experiência com o grupo de pares, nas sociabilidades informais do espaço escolar lhe permitiam descobrir a possibilidade de ocupar um outro lugar na família, não apenas como a colaboradora nas tarefas domésticas e 6

depositária das expectativas em relação aos frutos de sua escolarização diferenciada, mas também como alguém que poderia ajudar, escutando e partilhando dos problemas do cotidiano familiar. Daiana terminava o ano letivo novamente com o peso da reprovação, sentimento que ela experimentara por inúmeras vezes. Ela rodou e teria que voltar ao começo, repetindo tudo outra vez. No entanto, o novo começo não estaria isento das experiências vividas por ela no período de maio a dezembro de 2006. Daiana iniciaria o ano de 2007, novamente na primeira série do magistério, porém, com um “estoque de conhecimento à mão” (SCHUTZ, 1979) que lhe proporcionaria consultar o seu acervo de experiências para enfrentar os desafios que certamente se apresentariam no novo contexto. Daiana potencializava o que poderia ser uma limitação em seu processo de socialização e de boa parte de jovens mulheres que têm uma circulação limitada por outras instituições da esfera pública. Ela descobria, nos meandros dos espaços escolares, a possibilidade de ampliar seus processos de socialização, usufruindo, como consumidora, de algumas formas das culturas juvenis. A jovem menina que escondia seus sentimentos e reflexões sobre seu vivido no Caderno de Segredos estava mais madura, embora a conquista desta maturidade tivesse sido feita de uma forma extremamente exigente e porque não dizer cruel. Ela terminava o ano sem compreender o Movimento Retilíneo Uniforme, conteúdo das difíceis aulas de Física, no entanto, compreendia que suas trajetórias não eram lineares e que sua vida era marcada por idas e vindas, por atalhos, recomeços, rodopios e que os contextos se alteravam e interferiam nos seus percursos e nos projetos inicialmente planejados. Daiana experimentava a pressão do cotidiano e os efeitos que ela produzia em sua subjetividade. Permaneceu no silêncio por muito tempo, confidenciando seus segredos com seu secreto diário. Frente aos dilemas dos seus tempos cotidianos, precisou fazer escolhas. Daiana optou por falar. Clamou para ser escutada, percebida, valorizada. Talvez, Daiana estivesse se imunizando frente aos efeitos do deboche e reinventando formas de ser jovem em contextos de intensa pressão. Referências ARFUCH, Leonor. El espacio biografico. Dilemas de la subjetividad contemporanea. Buenos Aires: Fondo de Cultura Economica, 2002. _____. Cronotopias de la intimidad. In: ARFUCH, Leonor (Comp.). Pensar este tiempo: espacios, afectos pertenencias. Buenos Aires: Paidós, 2005. p. 237-290. BOURDIEU, Pierre; CHAMPAGNE, P. Os excluídos do interior. In: BOURDIEU, P. Escritos de educação. Petrópolis: Vozes, 2001. CAMARGO, Maria Rosa Rodrigues Martins de. Cartas adolescentes. Uma leitura e modos de ser... In: MIGNOT Ana Chrystina Venancio; BASTOS, Maria Helena; CUNHA, Maria Teresa Santos. 7

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Fazendo Gênero 8 – Corpo, Violência E Poder
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Corpo, Violência e Poder - Fazendo Gênero 10 - UFSC