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A construção do ideal de masculinidade na ... - Fazendo Gênero

A construção do ideal de masculinidade na ... - Fazendo Gênero

o campo

o campo dos estudos medievais é um campo no qual as relações de gênero se apresentam de forma muito especial, e o discurso leigo e clerical sobre os corpos de homens e mulheres desse período é um discurso no qual se nomeia como o masculino e o feminino devem ser, o lugar em que os seres se estruturam numa intrincada rede de poder. (JARDIM, 2006, p. 29). Tendo em mente que o medievo apresenta-nos interessantes discussões sobre o que é ser homem e o que é ser mulher, precisamos atentar para os sistemas simbólicos, isto é, para os modos como essa sociedade representa o gênero, serve-se dele para articular regras de relações sociais ou para construir o sentido da experiência. (SCOTT, 1990) Considerando, assim, os papéis que os símbolos, as metáforas e os conceitos exercem na definição da identidade masculina medieval. Nossas sociedades costumam supor e reiterar um alinhamento “normal e coerente” entre sexo- gênero-sexualidade. Esse alinhamento significado pela cultura torna-se ainda mais eficaz no processo de construção das identidades masculinas. De acordo com Joan Scott (1990), a idéia de masculinidade repousa sobre a repressão necessária de aspectos femininos – do potencial bissexual do sujeito – e introduz o conflito na oposição do masculino e do feminino. Os desejos reprimidos estão presentes no inconsciente e constituem uma ameaça permanente para a estabilidade de identificação de gênero, negando sua unidade, subvertendo sua necessidade de segurança. (SCOTT, 1990, p. 12). Mesmo que o gênero masculino seja uma construção sócio-histórica, suscetível a variados desdobramentos e transformações ao longo do tempo, há uma narrativa convencional sobre como as masculinidades são construídas. Nessa narrativa, toda cultura tem uma definição da conduta e dos sentimentos apropriados para os homens. Os rapazes são pressionados a agir e a sentir dessa forma e a se distanciar do comportamento das mulheres, das garotas e da feminilidade, compreendidas como o oposto. [...] A maior parte dos rapazes internaliza essa norma social e adota maneiras e interesses masculinos, tendo como custo, freqüentemente, a repressão de seus sentimentos. (CONNELL, 1995, p. 190, grifos meus). Nesse momento Robert W. Connell (1995) possibilita-nos pensar numa certa aproximação com o conceito de habitus proposto por Pierre Bourdieu. De acordo com Bourdieu (1995), falar de habitus significa evocar um modo de fixação e de evocação de determinada estrutura pré-estabelecida. O habitus produz um trabalho de formação permanente dos sujeitos, tanto através do processo de familiarização com um mundo simbolicamente estruturado, quanto a partir de um empreendimento de inculcação coletivo, que promove uma transformação durável dos corpos e da maneira usual de usá-los. 2

Logo, devemos refletir sobre a construção das masculinidades enquanto um projeto perseguido ao longo de um período de muitos anos, intermediado por muitas voltas e reviravoltas. Um projeto coletivo, mas também individual. Enfim, essas breves considerações nos permitem refletir que as diversas composições sociais se estruturam de acordo com as relações sociais travadas entre os sexos, bem como, sobre a formulação e legitimação de hierarquias entre os gêneros, nos assegurando, assim, analisar o período medieval sob a ótica do conceito de gênero. As Cantigas de Santa Maria Dentre o corpus documental utilizado a fim de contemplar nosso objeto de análise destaca-se as Cantigas de Santa Maria (CSM), cuja composição é atribuída ao monarca castelhano D. Afonso X. As CSM escritas em galego-português configuram-se como a maior obra não sacra em homenagem à Virgem Maria e, são constituídas por um conjunto de aproximadamente 420 poemas, acompanhados de iluminuras e notação musical. Conforme o título indica, eram dedicadas à Virgem e destinadas ao canto, exceto alguns poemas que celebravam festas do calendário religioso. Provavelmente, Afonso X contou com o auxílio de um conjunto de colaboradores no processo de elaboração das CSM. Sob o mecenato do monarca, a Escola de Tradutores de Toledo reunia poetas de todo o ocidente românico, desenhistas, miniaturistas, músicos e tradutores, além de mestres e sábios do oriente, havendo uma verdadeira amálgama entre as culturas cristã, muçulmana e judaica. Essa obra que reflete o significativo pluralismo cultural da corte Afonsina pode ser vinculada ao gênero do exemplum, sobretudo pelo seu caráter didático e de predicação. É justamente sobre seu conteúdo ético que devemos nos debruçar, uma vez que ele nos possibilita entrever parte considerável da conduta normativa que não só orienta os comportamentos dos indivíduos no período explorado, mas também estrutura toda a construção ideológica expressa nessa composição Afonsina. Dessa maneira, esse cancioneiro configura-se como uma válida fonte histórica para o conhecimento de múltiplos elementos da cultura ibérica no medievo, bem como para a compreensão do ideal de masculinidade nesse universo, possibilitando refletir que a masculinidade é uma construção social e que nos mais diferentes contextos históricos e culturais ela é percebida e vivenciada de maneira distinta. Uma Idade dos Homens De acordo com Christiane Klapisch-Zuber (2006, p. 144), desde os primórdios do cristianismo, aos princípios teológicos do masculino e do feminino que definem positivamente o primeiro pólo e 3

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