Views
4 years ago

Parto e Maternidade: profissionalização, assistência, políticas ...

Parto e Maternidade: profissionalização, assistência, políticas ...

Anais do VII Seminário

Anais do VII Seminário Fazendo Gênero 28, 29 e 30 de 2006 Os dados utilizados em estudos da fala-em-interação são naturalísticos. O que interessa aos estudos nessa área é a “fala de ocorrência natural.” Isto é, são analisadas as situações que ocorrerem no dia-a-dia dos/as participantes e que ocorrem (e ocorreriam) sem a intervenção de uma pesquisadora. Dessa forma, a pesquisadora não cria instrumentos de coleta de dados, tais como questionários, entrevistas ou experimentos com intervenções. A “fala de ocorrência natural,” conforme explica Potter (2004, p. 205), pode ser definida como linguagem falada produzida de forma completamente independente de ações do/a pesquisador/a, seja ela a linguagem de conversas corriqueiras ao telefone, de reuniões de trabalho ou de interações entre médicos/as e pacientes. Na perspectiva proposta aqui, há um movimento intencional de afastamento de dados do tipo “de laboratório” (tais como as entrevistas post-factum) e de aproximação de interações mais reais, que acontecem no mundo “lá fora”, e que aconteceriam com ou sem a proposta de uma pesquisa sobre elas. Entendemos que essa metologia pode contribuir em muito para o desenvolvimento de pesquisas de natureza feminista. Segundo Speer (2002), Enquanto as feministas estão preocupadas em evitar relações baseadas em hierarquias de poder entre pesquisadoras e pesquisadas, a análise da conversa está preocupada em não impor suas próprias formulações no que é dito e, com isso, obscurecer os relatos simples do dia-a-dia das membras [nossa tradução] (p. 785). O que são os dados e os focos analíticos na Análise da Conversa? A coleta de dados em estudos de fala-em-interação consiste em gravações em áudio ou vídeo. Como já foi mencionado anteriormente, diferentemente de pesquisas que se centram no conteúdo das falas ou apenas em o que foi dito, estudos de análise da conversa atentam primordialmente para o como as coisas foram ditas. Portanto, na Análise da Conversa, métodos de coleta de dados que envolvam apenas observações com diários de campo não são suficientes. Para análises lingüístico-interacionais, não podemos confiar apenas em anotações e memória para nos lembrarmos de detalhes como pausas, falas co-construídas, falas simultâneas, inspirações e outros fenômenos interacionais. É somente com dados gravados em áudio (e em alguns casos também em vídeo) que podemos, enquanto analistas da conversa, focalizar nos detalhes reais das interações (SILVERMAN, 2001, p. 161). Vale ressaltar que o método de gravações em áudio (e/ou vídeo) para fins de análise de interações entre profissionais da saúde e pacientes em situação de atendimento (inclusive em contextos de intervenção cirúrgica) tem sido muito comumente utilizado em vários centros de 2

Anais do VII Seminário Fazendo Gênero 28, 29 e 30 de 2006 pesquisa do mundo (vide, por exemplo, o portal do Health Communication Research Center, na University of Cardiff ), e freqüentemente reportado em periódicos da área da saúde especializados na comunicação entre profissionais da saúde e pacientes (e.g. Communication & Medicine: An Interdisciplinary Journal of Healthcare, Ethics and Society (Mouton de Gruyter) e Journal of Health Communication: International Perspectives (Taylor and Francis), além de em periódicos interessados em pesquisas de interações em geral (e.g. Discourse & Society (Sage), Discourse Studies (Sage), Research on Language and Social Interaction (Erlbaum). Feitas as gravações, procede-se à transcrição dos dados, normalmente seguindo-se convenções de transcrição já amplamente utilizadas na área, tal como aquelas propostas por Jefferson (1984), traduzidas e adaptadas por Schnack, Pisoni e Ostermann (2005). O foco analítico (i.e. o que se analisará nos dados das interações coletadas) nos estudos da fala-em-interação é sempre determinado a partir do que os dados nos apresentam. Na tradição de estudos da Análise da Conversa, conforme explica Heritage (1984, p. 243), o foco analítico é fortemente “data-driven”, ou seja, largamente determinado a partir de fenômenos que são, de várias maneiras, evidenciados nos dados da interação. [H]á um forte preconceito contra especulações a priori sobre as orientações e motivações dos falantes e a favor de análise detalhada das reais ações dos interagentes. Sendo assim, a conduta empírica dos falantes é tratada como fonte central a partir da qual a análise pode ser desenvolvida. [nossa tradução] (HERITAGE, 1984, p. 243) Essa perspectiva analítica é motivada por (e está em consonância com) metodologias feministas que visam a distanciar a pesquisadora o máximo possível de sua pauta de interesses, de forma a atender ao que os dados evidenciam (SPEER, 2002). Relações de poder entre profissionais da saúde e pacientes mulheres Alguns dos estudos da fala-em-interação realizados por pesquisadoras feministas enfocam na questão da relação de poder muitas vezes existente entre os/as profissionais de saúde e as pacientes. Um dos estudos clássicos dessa temática foi aquele realizado por Candace West (1998a) e que demonstra as diferentes estratégias lingüísticas utilizadas por médicos e médicas em consultas. Nesse artigo, a autora relata que os médicos homens fazem uso de alguns recursos para “enfatizar a distinção entre suas pacientes e eles mesmos, (...) fazendo afirmações implícitas de sua autoridade para impor suas exigências nas pacientes e para fazer com que suas pacientes cumpram suas ordens”. Além disso, outros recursos são usados como que para “realçar o contraste existente 3

Política Transação com Partes Relacionadas e demais Situações
Parto e maternidades: profissionalização ... - Fazendo Gênero
Parto e Maternidade - Seminário Internacional Fazendo Gênero
A violência institucional no parto em maternidades brasileiras: uma ...
Protocolo-OBS-030-Assistencia ao Parto na Paciente Soropositiva
Assistência ao primeiro período do trabalho de parto ... - Febrasgo