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Parto e Maternidade: profissionalização, assistência, políticas ...

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Anais do VII Seminário

Anais do VII Seminário Fazendo Gênero 28, 29 e 30 de 2006 entre aqueles que têm o direito de dar ordens médicas e aquelas com obrigação de segui-las” (p. 339). Como pode ser visto nos excertos 1 e 2, os médicos criam uma relação assimétrica, menos igualitária, com suas pacientes, pois direcionam a todo tempo o curso da interação, estabelecendo o que querem e como querem. 1 Excerto 1 Médico: .hh levante sua camisa ((dá um tapinha no joelho da paciente)) para mim. (West 1998a, p. 333) [nossa tradução] Excerto 2 Médico: ouça, EU SEI:! um-um, o problema é seu! você precisa deci:dir! (West 1998a, p. 334) [nossa tradução] Já em sua análise sobre os atendimentos oferecidos por médicas mulheres, a autora demonstra que suas estratégias interacionais constroem uma relação bem menos assimétrica. West demonstra que as médicas utilizam recursos que fazem da consulta um evento mais colaborativo, elevando as pacientes a um status de reais co-participantes das ações que acontecem ali. Os excertos 3 e 4 abaixo exemplificam os argumentos da autora. Excerto 3 Médica: okay! bem vamos fazer nosso pla:no, (West 1998a, p. 343) [nossa tradução] Excerto 4 Médica: porque se você decidir que você quer tirar, me avise.(.) okay? (West 1998a, p. 343) [nossa tradução] As estratégias lingüístico-interacionais utilizadas pelas médicas – que demostram formas mais colaborativas e menos assimétricas – consistem em utilizarem menos imperativos. Ao contrário dos médicos homens, utilizam-se de formas mais engajadoras com as pacientes, como o uso da primeira pessoa do plural (e.g. “vamos fazer...”) e de perguntas e estratégias discursivas que dão autonomia de decisão à paciente (e.g. “porque se você decidir que quer tirar...”). Em outro artigo (1998b), West descreve como médicos homens utilizam interrupções com suas pacientes como forma de excercer controle sobre a interação (excerto 5). Excerto 5 Médico: você está com a dor neste momento? → Paciente: um-um. não, [aco:ntece ] 4

Anais do VII Seminário Fazendo Gênero 28, 29 e 30 de 2006 Médico: [não está acontecendo neste momento::?] Paciente: =ss-só somente por um tempo foi [aqui]. → Médico: [você pode tirar seu sapato para mim por favor]? (0.8) ((paciente remove o sapato)) Paciente: [mas eu-] → Médico: [O QUE VO]CÊ ESTAVA FAZENDO, quando você notou a dor (0.4)((médico se inclina para tocar a perna da paciente)) Paciente: be::m, eu acho que- bem, algumas vezes ou estou só sentada ... (West 1998b, p. 403) [nossa tradução] No excerto acima, percebemos que em todos os turnos do médico, realçados com uma seta (→), há uma sobreposição de sua fala com a fala da paciente. Em outras palavras, o médico inicia seu turno antes de a paciente ter concluído o que estava a dizer, estabelecendo assim, o fenômeno de “interrupção,” fenômeno esse largamente discutido em estudos de fala-em-interação como instrumento de controle e poder (e.g. OSTERMANN, 2003; 2006). West (1998b) mostra ainda como as médicas mulheres parecem ser muito mais interrompidas por suas pacientes, sugerindo uma relação muito mais igualitária, conforme demonstrado no excerto a seguir. Excerto 6 Paciente: leva vinte ou trinta minutos (...) pra comer. Médica: bem o que você [poderia FAZER:] → Paciente: [e até que elas] terminem a comida delas está fria sabe Médica: [e e e e e ] → Paciente: [e elas gostam] =mas eu não gosto de comida fria (0.2) Médica: uma coisa que você poderia fa[zer::] Paciente: [especi]almente se a comida não deveria estar fria Médica: okay, se você come a carne primeiro, sabe. mas se tiver uma salada pra comer você pode deixar ela de lado para depois que você comer a carne. porque a salada geralmente é fria. (West 1998b, p. 406) [nossa tradução] Como podemos observar no excerto 6, na interação com a médica mulher, acontece uma situação exatamente oposta a que observamos na relação médico homem-paciente mulher. Aqui, as interrupções são iniciadas pelas pacientes, ao invés de pela médica. Dessa forma, a situação de controle ou poder na interação, é revertida. Outro estudo sobre essa mesma temática foi desenvolvido por Weits, Houtkoop e Mullen (1993). As autoras discutem a dificuldade que alguns médicos têm quando o assunto sexualidade deve ser abordado com suas pacientes. As autoras relatam que “mais da metade dos médicos considera suas abilidades comunicativas insuficientes para falar sobre problemas sexuais e um 5

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