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ST 38 Priscila Faria Vieira Mônica Varasquim Pedro Centro

ST 38 Priscila Faria Vieira Mônica Varasquim Pedro Centro

se expressa seja na

se expressa seja na forma do desemprego oculto pelo trabalho precário, seja num importante movimento de trânsito em direção ao desemprego oculto pelo desalento (ao se revelarem desencorajadas para procurar trabalho), seja em direção à inatividade. Esse achado confirma resultados paralelos obtidos por Melo (2004), em estudo quantitativo com o mesmo banco de dados, apontando para um desconcertante paradoxo de que justamente ali onde as condições de vida são tão precárias possa inexistir uma estratégia de sobrevivência que passe pela recolocação da cônjuge no mercado de trabalho e, muitas vezes, nem sequer contemple a procura de trabalho sistemática e efetiva. Assim, a decisão entre buscar inserir-se na atividade econômica ou de passar à inatividade parece levar em conta muitos fatores que não apenas a relação entre trabalho e pobreza. Entre tais fatores muitos estão relacionados com: i) a questão do gênero que se reflete nas relações de poder no interior da família e no papel socialmente instituído de homem provedor, ii) o papel de cada um dos membros do casal na família, que atribui à mulher uma série de tarefas domésticas que não podem sofrer concorrência ou ficar comprometidas por atividades remuneradas e iii) um limiar mínimo de condições familiares que, somente depois de ultrapassado, torna possível que mulheres muitos pobres se disponibilizem para o mercado de trabalho. Consistente com a anterior parece-nos ser o nosso achado de que a maioria dessas mulheres, em seus discursos, não se sente no desemprego, nem se diz “desempregada”. Ou seja, apesar de analiticamente classificáveis (e classificadas no levantamento PED como tal), elas não constroem sua identidade nesses termos, e, nesse sentido, a vivência do desemprego não aparece como estruturante dos seus discursos. Elas se afirmam socialmente como verdadeiras e eficientes mães e esposas; vêem-se como “trabalhadoras” à medida que não são desocupadas; até porque, como elas mesmas alegam e seus cotidianos confirmam, dedicam-se com afinco às atividades relativas às esferas doméstica e familiar (Segnini, 2003). As Mulheres Chefes de Família Cinco foram os casos-tipo de mulheres enquadradas ao grupo das chefes de domicílio. Novas convergências de perfil podem ser notadas, que as tornam relativamente homogêneas e as diferenciam do grupo de casos-tipo antes referido: têm idade entre 47 e 49 anos, duas delas com Fundamental I incompleto, uma com Fundamental II incompleto e duas com Ensino Médio completo somado a cursos de aperfeiçoamento na área administrativa – todos atualmente obsoletos. Quase todas fizeram algum curso de artesanato, visando uma atividade alternativa de trabalho como 4

estratégia de sobrevivência. A trajetória ocupacional dessas mulheres mostra que seus primeiros trabalhos fora de casa ocorreram já na adolescência, no serviço doméstico, ou seja, prestação de serviços de faxina e cuidados de crianças para famílias próximas a suas casas; mas, em alguns casos, o primeiro trabalho pode ter sido também na área rural, auxiliando a própria família no trato com a terra ou fazendo doces junto com a mãe para serem comercializados fora. Após a primeira experiência ocupacional, elas conseguem os seus primeiros empregos com registro em carteira: algumas vezes no terciário (auxiliares de escritório ou balconistas são exemplos); outras continuam no serviço doméstico, como empregadas mensalistas ou faxineiras diaristas. Mas são experiências de trabalho com baixa qualificação e sem chances de ascensão profissional através de promoções. Poucos são os eventos de trabalho com registro em carteira, dois ou três no máximo, sempre rompidos por situações familiares; e novamente aqui as trajetórias são entrecortadas por eventos familiares do tipo doença e morte de familiares, nascimento de filhos e casamentos. O trabalho fora de casa, também para essas mulheres, é marcadamente secundário no conjunto de suas obrigações sociais. Entretanto, isso não significa dizer que seja pouco importante para elas. O primeiro evento familiar que instabiliza a trajetória ocupacional é o casamento. Após o mesmo, elas ainda resistem em parar de trabalhar, o que fatalmente acaba ocorrendo quando os filhos começam a nascer. A partir daí as obrigações sociais de cuidado com a família e a casa impõem-se e levam ao afastamento da relação com o trabalho no espaço público. A passagem à inatividade por parte das mulheres parece ocorrer muito mais por convencimento exercido por parte dos seus maridos do que pela ausência de alternativas de cuidados com os filhos. Quer-se dizer com isso que não necessariamente se trata de uma pressão irresistível dos companheiros, já que muitas vezes sequer é sentida como tal pelas esposas, já que elas assumem ser esse o seu papel social, aderindo à sugestão de seus companheiros para que fiquem em casa, numa sorte de divisão de responsabilidades que as retém no espaço privado enquanto mantém o homem na esfera pública do mercado de trabalho. Após longo período de inatividade, cuidando da família e da casa, será um outro evento familiar que as fará voltar à procura de trabalho: a separação ou o abandono de seus companheiros. Trabalhar fora de casa passa a ser, então, uma necessidade à sua sobrevivência e de seus filhos. Mas, nesse momento, quando as encontramos em nosso trabalho de campo, elas se deparam com um contexto de acentuado e crescente desemprego na Região Metropolitana de São Paulo. Com baixa qualificação e escolaridade, idade por volta dos 47 anos e grande período de inatividade, isto é, sem 5