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ST 38 Priscila Faria Vieira Mônica Varasquim Pedro Centro

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experiência recente de

experiência recente de trabalho, a volta ao mercado de trabalho passa a ser um ideal inatingível. Diante da dificuldade de encontrar um novo trabalho acabam por voltar a prestar serviços domésticos ocasionais e sob relações precárias, fora de casa – a “viração”. Bem assim, tendo alguns dos filhos já crescidos, esses também começam a trabalhar de alguma forma para contribuir com a sobrevivência da família. Algumas dessas mulheres lançam mão, quando têm direito a tal, do recurso à justiça, buscando conseguir pensão para si mesmas e/ou para os filhos menores. Isso não as isenta de seguir recorrendo ao apoio da igreja e de programas sociais (bolsa escola, bolsa família e frentes de trabalho, entre outros). São, a propósito, bastante ativas na procura e conhecedoras desses programas governamentais voltados para minimizar a miséria dessa população. Nessa procura, parecem contar com uma vantagem relativa, a de residirem em casas próprias, não tendo que gastar com aluguel. Mais que isso: algumas têm como renda o aluguel de cômodos do fundo da casa, que passa a contribuir para a manutenção familiar; foram bens adquiridos no casamento, que passam a lhes caber após a separação. Apesar dessas possibilidades de auferir renda, as estratégias de sobrevivência, de maneira geral são buscadas com certo desespero já que a situação de pobreza é, nestes casos, extremada. Outras iniciativas estratégicas também são encetadas. Algumas voltam a estudar, fazendo supletivos do ensino fundamental e médio, na tentativa de adquirir a escolaridade básica necessária para a volta ao mercado de trabalho; outras vezes transferem esse alvo para os filhos, que são pressionados a continuar os estudos, de sorte que não tenham a mesma dificuldade que elas vivem. A expectativa de mobilidade através dos filhos parece ser patente, embora tenham consciência de que pouco podem fazer para auxiliá-los; há casos em que, apesar da precariedade das condições de vida, a mãe impede seus filhos de trabalharem, apenas para que se mantenham focados no estudo e na formação profissional, numa tentativa desesperada de maximizar-lhes chances futuras. Com efeito, essa é uma representação bastante forte entre elas, a da educação redentora da mobilidade ascensional da família. Será que isso nos permitiria dizer que, em termos de ajustamento emocional, a situação das mulheres chefes de domicilio seria melhor que a das mulheres cônjuges? Será que a sua maior mobilização para mudar a situação vivida, associada a melhores condições de compor a renda da sobrevivência, ainda que pequena, revelaria um ajustamento sob menos sofrimento emocional? Talvez não, posto que, nos seus discursos, emerge também o sofrimento resultante da perda do trabalho fora de casa, com registro em carteira, que assume elevado significado nos relatos sobre si construídos por essas mulheres. Não sem razão chamaram a nossa atenção os relatos sobre patologias 6

físicas como pressão alta, nervosismo e depressão (que se revela até mesmo no choro, contido por vezes, durante a entrevista). De fato, quando observamos a construção discursiva sobre a experiência do desemprego e do trabalho e analisamos as representações que aparecem nas falas das “chefes de domicílio” (e que as especificam face às “cônjuges”) destaca-se a valorização do trabalho formal, mesmo que seja apenas um trabalho regular exercido fora de casa, qualquer que seja ele. Acreditamos que, para além do significado de mecanismo provedor da sua sobrevivência física e de suas famílias, isso parece apontar que o trabalho formal lhes confere dignidade, seja por garantir-lhes direito como a aposentadoria, seja por lhes dar acesso ao mundo público. Os discursos reportam-nos para a importância da sobrevivência emocional, na medida em que o “sair de casa” para trabalhar fora, como faziam no passado, significa independência financeira, mas também emocional, fuga do insulamento familiar, ultrapassagem da retenção numa única esfera da vida: a casa e a família. Esse insulamento familiar parece ser, para as “chefes de domicilio” uma fonte explícita de sofrimento, ao contrário do que observamos no discurso das “cônjuges”, para quem a família parece ser a única dimensão da vida a ser valorizada. O insulamento é solidão, é ausência de movimento na vida, é estagnação. Os “bicos” que fazem como lavadeira, passadeira, doceira, babás dos netos e faxineira lhes dão, por certo, algum dinheiro; entretanto, eles não têm o mesmo valor do ponto de vista social, não lhes conferem o reconhecimento que percebiam ter em seu antigo emprego. A ausência do companheiro, em quase todos os relatos (exceto um caso, cuja mulher não conseguiu cortar a relação de dependência emocional do ex-marido), nem de longe era relatada com os códigos de um sofrimento que se seguisse à separação; pelo contrário, parecia ter sido um alívio, já que, a partir de então, elas tomavam suas vidas nas mãos novamente. Sensação em parte frustrada, pois não tiveram sucesso em conseguir um novo emprego. A experiência do trabalho formal, ainda que pequena, parece ter dotado essas mulheres de uma visão de mundo, de seu papel social, de suas obrigações sociais, que combina a identidade de trabalhadoras no mundo público e no mundo privado. A experiência do desemprego, portanto, não é superada pelo trabalho precário (os “bicos”) ou pela vida familiar (como no caso das “cônjuges”); entretanto, a vulnerabilidade dessas mulheres desempregadas é enorme, agravada pelos fatores antes sublinhados, como idade considerada avançada, longo período de inatividade e baixa escolaridade. Essa vulnerabilidade é por elas percebida, dando lugar a uma situação que é vivida como sem saída, daí todo o sofrimento. Em outras palavras, embora almejem conseguir emprego, têm consciência da 7