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A questão racial no Brasil e as relações de gênero. ST 18 Beatriz ...

A questão racial no Brasil e as relações de gênero. ST 18 Beatriz ...

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questões de sociabilidade e recreação. A partir de então, a maior parte das associações criadas dedicou-se ao futebol ou ao carnaval, com o que terminou-se reforçando o estereótipo sobre o grupo. Na década de 1930, ainda houve uma forte participação política, especialmente daqueles vinculados ao jornal da etnia, A Alvorada, que, fundado em 1907, durou mais de 50 anos e tinha, em sua composição, várias lideranças negras e operárias 3 , que atuavam como um fator de conscientização, lutando pela “elevação” do negro e sua integração dentro da classe operária. Em 1933, formou-se a Frente Negra Pelotense que se correspondia com a Frente Negra Brasileira em São Paulo e participou do 1º Congresso Afro-Brasileiro do Recife, com um representante próprio. Ela se propunha a lutar pela educação do negro na sociedade, tendo sido um dos primeiros momentos em que críticas explícitas a discriminação racial e ao status secundário do grupo foram feitas de forma pública, na cidade 4 . No ano de 1934, suas lideranças participaram de partidos políticos de cunho socialista candidatando-se a deputação, sem sucesso. Após este período, a proposta de uma maior conscientização étnica perde espaço, havendo uma espécie de involução associativa, com as entidades mutualistas já completamente eliminadas, aquelas de representação abandonadas e os times de futebol negros passando a incorporar-se entre os demais, com o relativo arrefecimento da discriminação racial no esporte. Ocorre ainda um desaparecimento das entidades com finalidades teatrais, devido ao desenvolvimento do cinema e a difusão do rádio, e as associações recreativas transmutam-se em carnavalescas, das quais se tem um extenso rol, sendo significativos os clubes: Depois da Chuva, Fica Aí pra ir dizendo, Chove Não Molha, Está tudo Certo e Quem ri de nós tem paixão. No período que vai dos anos 20 até o fim dos anos 50, quando começam a se desenvolver as escolas de samba, essas associações reinam soberanas e disputam a preferência dos elementos do grupo. Embora mais especializadas estas entidades carnavalescas continuaram a cumprir o papel fundamental de integração e representação da etnia negra na cidade, diferenciando-se devido ao poder aquisitivo de seus membros (que, embora no geral fosse baixo, comportava pequenas variações familiares) e nos seus objetivos para a etnia. Entre suas direções, encontramos muitas lideranças sindicais e há, por parte de alguns clubes, muito apoio às atividades da Frente Negra pelotense, com a qual também compartem diretores. Porém, ao longo dos anos, se percebe um afrouxamento dos laços étnicos, visível no comportamento de alguns destes clubes entre si, que evoluem de uma posição mais fraterna e solidária, para atitudes de distanciamento e recriminações mútuas. Muitas destas questões são provocadas pelas atitudes de um dos clubes, o Clube Fica Ai para Ir Dizendo, considerado como da elite negra na cidade, o qual, especialmente nas décadas de 1940 a 1970, perseguia objetivos de integração passiva na sociedade branca e buscava imprimir um rigoroso código de conduta a seus sócios, muito influenciado pela religião católica e pelos padrões morais de seu tempo 5 . Neste

sentido, sua influência ia muito além do estreito espaço de sua sede, imiscuindo-se na vida privada dos associados, ditando regras e comportamentos a serem seguidos em todas as circunstâncias, inclusive em termos de amizades e companhias a serem evitadas. Procedendo desse modo e mantendo uma severa vigilância, especialmente sobre as mulheres do grupo, o clube procurava disciplinar suas mentes e seus corpos, influenciando diretamente em seu comportamento e, obviamente, padronizando também a formação das famílias negras e sua adequação às regras e normas vigentes na sociedade. Sua matriz de comportamento e inspiração era aquela vigente na sociedade branca, de cunho burguês, que privilegiava diferentes padrões de moralidade conforme o gênero, a mesma seguida pelos clubes de classe média e alta da cidade, havendo ainda uma forte influência da moral católica, religião que predominava entre seus sócios. Essas atitudes despertavam muito ressentimento e mágoa entre aqueles que não conseguiam cumprir com suas exigências associativas, o que fica evidente em vários dos depoimentos de sócios dos outros clubes. As demais associações eram mais flexíveis, com relação aos códigos de comportamento e também quanto a padronização de vestimentas, ou até sobre a situação das mulheres em seu meio. Entretanto, encontrou-se pouco material (atas, documentos) para avaliar as posições desses outros clubes em relação à situação do negro ou a influência da “ideologia do branqueamento” que se difundia pela sociedade brasileira da época e que praticamente implicava na eliminação do grupo negro como etnia, pela sua absorção cultural e física 6 . Contudo, do clube Fica Ai tem-se o suficiente para saber que, voltado para o estabelecimento de uma política de padronização dos comportamentos admitidos pelos sócios, o clube esperava ser a única associação a ser freqüentada pelas famílias filiadas, mesmo mantendo relações cordiais com as outras associações negras. A fidelidade esperada dizia respeito não só a evitar a concorrência associativa com as demais, mas incidia numa visão de que eles seriam a única associação a seguir um comportamento adequado e, portanto, os sócios que freqüentassem outros clubes estariam correndo riscos e maculando seu bom nome. Assim, a exigência da exclusividade funcionaria como uma espécie de sacrifício a confirmar as boas intenções em manter um padrão superior aos demais, pelas famílias associadas. Na consulta as atas, sucedem-se exemplos de exigências mais rigorosas às moças, que poderiam ser punidas por freqüentar outras associações, mesmo que fosse o clube irmão, Chove não molha. Também se tenta regular sua participação em festivais ou outras atividades, como corais, sempre no sentido de que as mulheres restrinjam sua participação apenas a festas e comemorações do Fica Ai Isso não se aplicava a todos os sócios, havendo uma nítida diferença na forma de tratamento reservada as “senhorinhas”, ou seja, as moças em idade núbil e aos homens, configurando a prática de uma “dupla moralidade”, comum a amplos setores da sociedade, com

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