Views
5 years ago

A questão racial no Brasil e as relações de gênero. ST 18 Beatriz ...

A questão racial no Brasil e as relações de gênero. ST 18 Beatriz ...

espeito à

espeito à participação de mulheres. Isso fica evidente em todos os momentos, especialmente no fato de que apenas famílias e moças eram submetidas a investigação de sua vida pregressa, antes de serem aceitas como sócias, enquanto os homens solteiros estavam isentos disso. O moralismo em relação ao comportamento feminino continuava na vigilância sobre seu comportamento dentro do clube, suas companhias e seus namorados. Embora não de forma explícita, isso fazia parte de uma política de formação para as moças, a serem disciplinadas dentro dos “padrões adequados” que o clube queria impor, as quais, depois, teriam papel fundamental na inculcação desses valores a seus filhos. Nada novo, se lembrarmos que é o mesmo papel a elas era reservado pela Igreja Católica, outra fonte inspiradora desse grupo, eminentemente católico romano, embora alguns também se aproximassem do espiritismo. Quanto aos demais clubes, se sabe que tinham posições diferentes, alguns permitindo a entrada de não-sócios por convites, sendo também mais flexíveis em relação ao comportamento exigido de suas sócias, embora também haja situações em que moças foram expulsas ou impedidas de participar de festas, devido à “questões de honra” ou comportamento inadequado. Mesmo assim, os clubes tiveram que adotar, em conjunto, posições a respeito de comportamentos abusivos em seus bailes, seja de sócios ou de convidados, ainda em 1932, para resguardar-se de brigas e conflitos freqüentes em suas festas. Outro ponto comum à maioria dessas entidades, era a restrição da participação do homem branco, o que se justifica por duas questões básicas e correlatas para a comunidade negra: a reserva de mercado para os homens em idade de casamento e o medo do desfrute de moças negras pelos homens brancos. Na consulta aos jornais, percebe-se que as associações negras tinham que lutar com um problema crônico naquela sociedade: a falta de respeito de alguns setores em relação a elas. Assim, é comum, especialmente no final da década de 1920 e no início dos anos 30, o aparecimento de notícias sobre tumultos provocados por brancos, membros da Brigada ou não sócios, em bailes negros, o que sempre levava a brigas e pancadaria. Em 1939, há um episódio em que um desfile de carnaval do Chove não Molha na principal rua da cidade, foi dissolvido por soldados, a golpes de sabre. Isso porque, pouco antes, um grupo de civis tentou penetrar no desfile e molestar as jovens sócias que participavam do cordão, sendo rechaçados 7 . E então se vingaram, chamando “as forças da ordem”, que vieram pressurosos. O fato é noticiado pelo principal jornal da cidade, que se mostra indignado com a covardia, mas ao mesmo tempo insinua não ter idéia de quem teria partido a ordem, ou seja: a lição foi dada e o anonimato protegerá os autores, tanto da bolinação, quanto do espancamento. Quanto aos negros, foram, mais uma vez, colocados “em seu devido lugar”. Assim, o enrijecimento de códigos de conduta, a proibição da entrada de não sócios, e a vigilância sobre as mulheres do grupo, para evitar seu “desfrute” por outros grupos, também deve ser entendida como uma forma de defesa de um grupo ameaçado por práticas abusivas de outras

classes e setores. Historicamente, tanto no Rio Grande do Sul como em outros estados, os negros continuavam a fornecer a massa básica para capangas, soldados de facções em luta, ou para serviços menos valorizados e as mulheres negras foram vistas, mesmo muito depois da abolição da escravatura, como objeto sexual, que serviam ao homem branco desde sua adolescência até a velhice. Dessa forma, não é de estranhar que as lideranças negras, de todos os matizes, pusessem forte acento sobre este ponto. Veja-se que, embora com uma proposta de afirmação das raízes negras, também o grupo ligado ao Jornal A Alvorada, terminava se posicionando a favor de um modelo de comportamento feminino muito rígido, como pode ser observado na coluna do “Dr. Pescadinha”, que vigiava e denunciava as jovens envolvidas em situações perigosas, como amizades com homens brancos, ida a sociedades ou bailes de má fama, etc. A discussão das diferenças comportamentais e de exigências sociais baseadas na questão de gênero entre esses grupos negros deve ser entendida em todas as suas nuances. Em todas as sociedades constituídas, sempre houve diferenciação entre o comportamento esperado do homem e da mulher, portanto, seria absurdo imaginar que neste grupo, localizado numa cidade interiorana e tradicional de um estado conservador de um país latino-americano muito marcado pelo catolicismo, isso não fosse ocorrer. Afinal, entre a classe operária ou mesmo entre alguns setores de classe média, também se notava a vigilância explícita sobre o comportamento das mulheres de cada grupo e o mesmo fenômeno da dupla moralidade, ou seja, a existência de padrões de comportamento conforme o gênero. Por outro lado, o estudo das questões de gênero, se pode nos auxiliar a compreender a profundidade das relações de poder que se estabelecem entre os sexos 8 , não abrange o conjunto das relações envolvidas nessa análise em particular em que se misturam gênero, raça e classes sociais 9 , de forma inextricável. No caso em questão, se observa variações distintas entre os próprios clubes, todos situados entre a etnia negra e com pequenas variações reais em termos de classe social, mas com uma variação comportamental bem mais acentuada em relação à posição da mulher em seu meio. Dos dois clubes que temos maiores dados, viu-se que a posição do Fica Ai praticamente definia-se por uma política associativa própria de clubes da elite, ou seja, de grupos de classe média, dos quais, pela sua composição social, (funcionários públicos de baixa extração, operários especializados) ele não fazia parte. Já o Chove não Molha, cuja extração social era praticamente a mesma, tinha uma política bem mais aberta em relação à participação feminina, pois nele as mulheres conquistaram o direito a votar e ser votadas já em 1938 e, através das atas, se vê que não se consolida uma política tão rigidamente moralista quanto no anterior, aproximando-se mais do modelo de clubes operários. Aparentemente , o Chove Não Molha teria relações mais próximas com os grupos vinculados a Frente Negra Pelotense e aos elementos socialistas, pela observação de algumas de suas lideranças, enquanto os Ficaianos mostravam-se mais influenciados por uma estratégia de inserção social

Relações raciais no Brasil e Moçambique segundo ... - Lusotopie
liberais, comunitaristas e as relações raciais no brasil
1 Questões de gênero e educação – ST 58 ... - Fazendo Gênero
corpo do outro. Construções raciais e imagens - Fazendo Gênero 10
classe, etnia e gerações. ST 34 Neuza de Farias ... - Fazendo Gênero