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A questão racial no Brasil e as relações de gênero. ST 18 Beatriz ...

A questão racial no Brasil e as relações de gênero. ST 18 Beatriz ...

individualizada que não

individualizada que não passava pela afirmação étnica. Essa poderia ser uma das causas da diferença, embora ainda não consideremos finalizada a análise. E qual era a percepção das próprias mulheres envolvidas nestes dois clubes? Através das entrevistas, pode-se observar que aquelas senhoras que participaram do Chove Não Molha, mesmo que em épocas posteriores, trazem relatos de uma maior participação, mesmo que havendo diretorias ainda eminentemente masculinas. Já no Fica Ai, os relatos demonstram um certo abrandamento dos códigos de comportamento internos para as últimas décadas, com maior participação feminina ativa nas diretorias. Entretanto, a maioria das entrevistadas desse último clube, não parece terem questionado a posição subalterna das mulheres anteriormente, limitando-se a reafirmar seus estritos códigos de conduta. Obviamente, não é possível apreender a percepção feminina através das atas, apenas em alguns raros casos de cartas ou pedidos de demissão, provocadas por punições, ou ainda, em alguns momentos em que a insatisfação de sócios e sócias tomava o vulto de rumores, atingindo a própria diretoria devido aos encaminhamentos tomados. Nas atas do Fica Ai, referentes aos anos de 1938- 1942 e 1946-1956, as mulheres aparecem apenas na posição subalterna de “membro da comissão de festas” ou das “comissões de senhorinhas”. Ainda encontrou-se referência a “diretoria de senhoras”, expediente que vem desde o final do século XIX e que caracterizava um grupo de mulheres, normalmente das famílias dos diretores, que se preocupava com o cuidado interno do clube, a organização de quermesses, de festas infantis e de outras atividades festivas. As relações geradas a partir dos gêneros vinculam-se mais fortemente às construções culturais, tendo por isso uma permanência maior. Bourdieu trabalha com o conceito de violência simbólica, entendida como as formas e meios pelas quais as relações de dominação se inscrevem no habitus e nos corpos dos dominados, de tal modo que este incorpora os conceitos mentais, as categorias construídas do ponto de vista dos dominantes e até os próprios valores destes, naturalizando assim esta situação. “A força simbólica é uma forma de poder que se exerce sobre os corpos, diretamente e como que por magia, sem qualquer coação física; mas essa magia só atua com o apoio de predisposições colocadas, como molas propulsoras, na zona mais profunda dos corpos”.Assim, ela é resultado de um longo trabalho prévio: necessário para operar uma transformação duradoura dos corpos e produzir as disposições permanentes que ela desencadeia e desperta; ação transformadora ainda mais poderosa, por se exercer, nos aspectos mais essenciais, de maneira invisível e insidiosa, através da insensível familiarização com um mundo físico simbolicamente estruturado e da experiência precoce e prolongada de interações permeadas pelas estruturas de dominação. 10 Neste quadro, as mulheres não conseguem desenvolver uma capacidade de resistência a estes mecanismos, que lhes aparecem como dados, eternos e, mesmo que tomem consciência deles, dificilmente conseguiriam rejeitá-los, já que estão inscritos, tanto em seus corpos, quanto em suas formas de agir, pensar e sentir. No caso em questão, o espaço que elas poderiam ocupar, o espaço

permitido dentro do clube era compatível com a função delas dentro do lar, devendo atuar como auxiliares da diretoria masculina na organização dos eventos, no atendimento aos sócios e também na fiscalização do comportamento dos jovens nos bailes, de que as atas nos dão abundantes exemplos. Além disso, pelo mecanismo da tutela, responsabilizavam-se pelo comportamento de sócias solteiras cujas famílias não moravam na cidade. Mesmo o fato de que, em alguns momentos, poderiam acompanhar as reuniões do Conselho Diretivo da sociedade, se e quando estas fossem abertas a todos os sócios, não invalida o exposto acima, pois sua atuação sempre foi pautada pelo estrito obedecimento às normas, sendo punida severamente toda conduta rebelde. O espaço feminino seria o espaço interno, do cotidiano, do gerenciamento e cuidado com os sócios e da própria entidade, restrito aos limites internos do próprio clube. Se o poder masculino se expressa no público, muitas vezes relacionando-se com a própria figura do Estado, o poder feminino costuma encontrar espaço no privado, de forma difusa e periférica 11 . Portanto, e concluindo muito rapidamente, se pode dizer que o modelo comportamental que o Fica Ai tentava incutir representava, por um lado, a exacerbação de um comportamento de vigilância em relação a seus membros, compatível com uma posição de etnia dominada na sociedade; por outro, uma tentativa de educar seus sócios com relação a valores situados acima de sua classe na escala social, mas que se pretendia fossem os daquela comunidade e, por último, uma reafirmação dos padrões de dominação masculina aceitos naquela sociedade. ∗ Participaram também da equipe Débora Clasen de Paula, Marcele Vitória dos Santos, Viviane Tavares, Fernanda Oliveira da Silva, Juliana Marcello e Caroline Megiatto. A pesquisa sobre os clubes carnavalescos foi financiada pelo CNPq. 1 LONER, Beatriz. Negros: organização e luta em Pelotas. História em Revista, v.5, dezembro 1999, p.7-27. 2 Idem. Ver também LONER, Beatriz. Construção de classe: operários de Pelotas e Rio Grande. Pelotas: EDUFPel, 2001. 3 Seriam “intelectuais orgânicos” do grupo negro, segundo SANTOS, José Antonio. Raiou a Alvorada: intelectuais negros e imprensa. Pelotas (1907-1957). Pelotas: EDUFPel, 2003. 4 Nessa década aparecem artigos, denunciando a discriminação racial, fato praticamente novo na cidade, pois apenas em 1927, havia sido feita uma denúncia pelas principais associações negras pelotenses, reafirmando a existência do preconceito racial na cidade. LONER, Beatriz . Construção de classe, op. cit, p. 264. 5 LONER, Beatriz Classe, etnia e moralidade: estudo de clubes negros. Comunicação apresentada no XXIII Simpósio Nacional de História – ANPUH, julho 2005, Londrina. 6 DOMINGUES, Petrônio, Uma história não contada. Negro, racismo e branqueamento em São Paulo no pós-abolição. São Paulo: Senac editora, 2004. 7 Jornal Diário Popular, Pelotas, 22/02/1939. Biblioteca Pública Pelotense. 8 “Para buscar o significado, precisamos lidar com o sujeito individual, bem como com a organização social e articular a natureza de suas inter-relações, pois ambos são cruciais para compreender como funciona o gênero, como ocorre a mudança. Finalmente é preciso substituir a noção de que o poder social é unificado, coerente e centralizado, por algo como o conceito de poder de Michel Foucault, entendido como constelações dispersas de relações desiguais, discursivamente constituídas em ‘campos de força’ sociais”. SCOTT, J. Gênero: uma categoria de análise histórica. Educação e realidade, 16(2), 1990, p 5-22. 9 Para compreender as críticas sobre os limites da noção de gênero em relação a classes e raças, veja-se o dossiê “marxismo e feminismo” da Revista Crítica Marxista, n. 11, 2000, especialmente os artigos de Clara Araújo e Mary G. Castro. 10 BOURDIEU, Pierre. A dominação masculina. Rio de Janeiro: Bertrand do Brasil, 1998, p. 50. 11 PERROT, M. Os excluídos da história: operários, mulheres e prisioneiros. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1988.

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