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1 Gênero, raça/etnia e escolarização. ST 23 Ana ... - Fazendo Gênero

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Anais

Anais do VII Seminário Fazendo Gênero 28, 29 e 30 de agosto de 2006 De maneira geral, o processo de escolarização e letramento em curso entre os Xakriabá abrange todos os segmentos da vida dos sujeitos, perpassando as experiências no campo social, cultural, político, econômico e religioso. Dentre as conseqüências mais importantes destaca-se a reformulação da participação política no município de São João das Missões v , a criação de diversas organizações comunitárias, novas possibilidades de emprego vi , a apropriação de conhecimentos decorrentes da escolarização e do contato com meios de comunicação e a ressignificação dos conhecimentos tradicionais. Tais mudanças estão configuradas num panorama de conflitos em que os atores sociais questionam a sua identidade e o seu papel na cultura, ressignificando os conteúdos e formas culturais (Gomes, Gerken & Álvares, 2004; Gerken & Teixeira, 2004, 2005). Neste trabalho apresentaremos diferentes aspectos que marcam a especificidade da identidade de gênero entre os Xakriabá, a partir dos resultados de três diferentes pesquisas do GEDUC (Gerken & Teixeira, 2004, 2005; Gomes & Machado, 2005; Gomes et alli, 2005). As reflexões aqui apresentadas baseiam-se nas discussões do gênero como categoria referida a um conjunto de significados e símbolos construídos sobre a base da percepção da diferença sexual e que são utilizados na compreensão da vida como um todo, especialmente nas relações sociais de saber e de poder (Scott, 1990). Nos interessa, portanto, discutir os significados atribuídos ao ser homem e ao ser mulher entre os Xakriabá e como estes significados articulam-se à escolarização e às estruturas mais amplas da sociedade e da cultura. HOMENS E MULHERES XAKRIABÁ A pesquisa recente de diagnóstico da economia Xakriabá vii nos permite ter um quadro mais descritivo quanto a aspectos da organização das atividades cotidianas nas aldeias e, mais especificamente, apresentar algumas discussões iniciais sobre a participação dos homens e das mulheres nestas atividades. Os Xakriabá caracterizam-se por uma população jovem, cuja distribuição espelha crescimento demográfico recente, especialmente nas duas últimas décadas. Atualmente, 29% da população está na faixa etária de 0 a 9 anos; 26% entre 10 e 19 anos e 65% da população está abaixo de 25 anos. Quanto à ocupação, os dados revelam que 52,8% das mulheres com idade entre 10 e 79 anos declaram o cuidado com a casa como primeira ocupação e 24,1% se declaram estudantes, totalizando mais de 75% da população feminina. Em relação aos homens de 10 a 79 anos, 65% declaram a agricultura como primeira ocupação e 21% de estudantes. Se por um lado, somente 8,7% das mulheres declaram ocupação remunerada e 11,8% declaram “trabalhar na roça” como primeira ocupação, apenas 3,4% dos homens declaram “cuidar da casa e da família” como primeira ocupação, e 14,4% como ocupação secundária. Esses dados apontam para um perfil social claramente marcado pelas distinções de gênero e pela dicotomia vida feminina privada X vida masculina pública (Ferreira, 2004; Viana, 2004), que podem ser recorrentemente observados em cenas cotidianas nas aldeias. 2

Anais do VII Seminário Fazendo Gênero 28, 29 e 30 de agosto de 2006 Os trabalhos de Gomes & Machado (2005) sobre cultura invisível no contexto escolar e comunitário na Aldeia Sumaré III e de Gerken & Teixeira (2004; 2006) sobre o lugar da oralidade e das práticas de letramento em rituais religiosos na Aldeia Barreiro Preto, trazem informações importantes para que se comece a problematizar a especificidade das relações de gênero entre os Xakriabá. Gomes & Machado (2005) descrevem a participação de meninos e meninas nas salas de aula, chamam atenção para o maior número e participação das meninas na sala de aula a partir da quinta série e apresentam cenas do cotidiano familiar nas quais é possível perceber as divisões do trabalho e do saber sob a perspectiva do gênero. Gerken & Teixeira (2004; 2006) discutem como os rituais religiosos constituem momentos privilegiados de ensino-aprendizagem das formas de organização social Xakriabá, especialmente das hierarquias de saber e de poder a partir da divisão por faixa etária e por sexo. Tanto na organização como no momento de realização ritual, o papel atribuído a homens e mulheres é claramente distinto. Tanto Gomes & Machado (2005), como Gerken & Teixeira (2004) chamam atenção para formas regulares de disposição das pessoas nas atividades comunitárias. Observaram, dentre outros fenômenos, que tanto na sala de aula como nos rituais religiosos é comum que as mulheres se concentrem ao centro e os homens em torno delas. Existe também uma divisão de acordo com a faixa etária dos presentes. A organização social das aldeias é baseada na estrutura familiar extensa e multinuclear. O pertencimento comunitário e familiar é um dos aspectos mais importantes no processo de aprendizagem da cultura, sendo caracterizado pelo contato constante entre pessoas de idades diferenciadas. Os filhos, ao se casarem, vão morar em terrenos próximos à casa dos pais, de forma que a família é composta por várias gerações que convivem mutuamente. Esta estrutura possibilita um contato próximo das crianças com os adultos e com crianças de outras idades, ampliando o seu universo de socialização primária. Normalmente são livres para circular por toda vizinhança, sendo comum acompanharem os adultos em atividades diárias, por exemplo, nas atividades domésticas, no cuidado com o gado, na lavoura, nas rezas e nas visitas a amigos e parentes. É justamente esse contato com atividades predominantemente femininas ou masculinas que permite às crianças aprenderem o que significa ser homem ou ser mulher Xakriabá, sem que isto seja necessariamente tornado explícito. As atividades cotidianas desenvolvidas pelas mulheres estão estritamente ligadas ao trabalho doméstico e ao cuidado das crianças, desenvolvido, na maioria das vezes, coletivamente. Em épocas de plantio e colheita, famílias inteiras se mobilizam na realização das atividades. Embora as mulheres participem das atividades da agricultura, a maioria não está envolvida com o cuidado com o gado. Da mesma forma, a participação dos homens nas atividades domésticas, incluindo o cuidado com as crianças é, do ponto estatístico, pouco significativa. Quando os homens estão trabalhando fora da aldeia, as mulheres se responsabilizam pelo cuidado dos filhos, das lavouras e do gado. Nesses casos, é comum que elas 3

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