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Ruídos na Representação da Mulher ... - Fazendo Gênero

Ruídos na Representação da Mulher ... - Fazendo Gênero

A pertinência de uma

A pertinência de uma análise de estereótipos para o objeto que se pretende construir aqui lastreia-se nas pressuposições de que, segundo Stam (1995:70-84): a) o estudo da estereotipia revela formas opressivas de preconceito, formas que, em um primeiro momento, podem ter parecido fenômeno casual e inócuo; b) esse tipo de análise destaca a devastação psíquica, inflingida por retratos sucessivamente negativos de grupos sistematicamente atacados, seja pela interiorização desses estereótipos ou por meio dos efeitos negativos de sua disseminação; c) esse tipo de análise assinala a funcionalidade social dos estereótipos, evidenciando o fato de que eles não são erros de recepção, mas, sim, uma forma de controle social. Ao estabelecermos como o objetivo principal dessa comunicação a análise de uma dada identidade regional, no caso a nordestina, gostaríamos de destacar mais algumas perspectivas teórico-metodológicas que nos informam. Para Bourdieu (1989: 113), o poder de se destacar, em determinados grupos, uma identidade étnica ou regional, com a conseqüente estigmatização, é parte das lutas de classificações, que se corporificam na disputa pelo monopólio de fazer ver e fazer crer, de dar a conhecer e de fazer reconhecer, de impor a definição legítima das divisões do mundo social e, por este meio, de fazer e desfazer os grupos sociais. Para Hall (2000:109), as identidades surgem no interior das "modalidades específicas de poder", estando, desse modo, mais como o produto da marcação da diferença e da exclusão do que estando no lugar do signo de uma identidade idêntica, naturalmente constituída, de uma 'identidade' em seu significado tradicional. Os nordestinos têm se apresentado como personagens principais ou secundárias, com alguma relevância, majoritariamente em quatro momentos de nossa cinematografia. O primeiro desses momentos é na comédia musical carioca, a chanchada. Nesta, estereotipados elementos de composição de tipos "nordestinos" pareciam funcionar em direção à revalidação positiva de uma identidade social regional. O segundo momento desse tipo de representação dá-se principalmente na primeira metade dos anos 60 quando o Cinema Novo mais politizado buscou no Nordeste, mais propriamente em sua zona rural, composições "positivas" de uma "brasilidade" para não dizer "nacionalismo". O terceiro momento, a partir da segunda metade dos 70, dominado por dramas, pode ser marcado por processos de estereotipação que se estruturam sob um vetor de negatividade com representações na direção da discriminação e ao preconceito, em última forma. O último momento ainda se desenrola, apelidado de "Retomada", mas ainda é cedo para se traçar mesmo que provisoriamente um perfil desse ciclo no recorte que propomos. O nosso recorte aqui trafega na trilha dos deslocamentos e contrastes entre o primeiro e o terceiro momento. Descontada a distância de décadas e a mudança de gênero narrativo dominante, uma indagação que parece emergir a uma certa recepção crítica é a seguinte, parafraseando Ferro (2002:202): de que realidades esses filmes são a imagem?

II 1950. A Casa Civil do presidente Eurico Dutra encomenda um jingle para promover a candidatura de José Américo de Almeida a governador da Paraíba. Tratava-se de "Paraíba" (L. Gonzaga - H. Teixeira), cujo refrão se popularizou imediatamente: Paraíba, masculina / Muiémacho, sim, sinhô! Esses versos buscavam enfatizar o posicionamento daquele Estado durante a Revolução de 30 quando a cidade de Princesa (Isabel) - depois, João Pessoa -, chefiada por José Pereira Lima, declarou-se território livre e resistiu às tropas do governador Álvaro Pereira de Carvalho, incapaz de domina-la. Inicialmente, o citado refrão foi considerado como um insulto à mulher paraibana, criando-se um tumulto quando a canção foi apresentada em um comício. Independente dessa reação, Emilinha Borba, uma das "rainhas do rádio", a gravou com enorme sucesso ainda em 1950. 1952. No ano em que Luiz Gonzaga faz o seu próprio registro daquele sucesso, uma ágil chanchada, na onda do sucesso regional de "Paraíba", toma o estereótipo criado por ele como inspiração para a caracterização da Madame Pau-Pereira (Violeta Ferraz), protagonista do filme É Fogo na Roupa, dir. Watson Macedo. Tão logo se encerra a seqüência de abertura (créditos), um mestre-de-cerimônias do Hotel Quintandinha (Petrópolis, RJ) apresenta publicamente a presidente do Primeiro Congresso das Esposas em Defesa da Fidelidade Conjugal. A primeira aparição dela já a caracteriza fortemente: ela surge em cena vestida de paletó e gravata, fumando um charuto e com gestos grosseiros, configurando o estereótipo fácil de homossexual feminina em comédias. Para o que se busca problematizar aqui, torna-se difícil precisar o que teria mais efeito na generalização da "Paraíba masculina" se a canção de Gonzagão ou se essa chanchada de difícil acesso. O fato é que os traços marcados por Violeta Ferraz vão se eternizar na chanchada na composição de migrantes nordestinas, ora nuançados por uma valentia que surge no lugar de uma esperada masculinidade, que falhou em um par ou em um casal, ou acentuada por pura grosseira, quando não em uma inusitada cena de tortura. Para o espaço de que dispomos aqui, vamos nos concentrar numa amostra de chanchada protagonizadas pela cearense Nancy Wanderley, como pernambucana... uma feroz pernambucana, por sinal. Os filmes são O Camelô da Rua Larga (RJ, 1958), dir. E. Ramos; Quem Roubou Meu Samba? (RJ, 1958), dir. J.C. Burle ; No Mundo da Lua (RJ, 1958), dir. Roberto Farias; e Eu Sou o Tal (RJ, 1960) , dir. E. Ramos. Nancy Wanderley interpreta uma costureira de uma buate e eterna noiva do camelô do título em O Camelô da Rua Larga. Após uma confusão nos bastidores daquele local, a personagemtítulo troca a sua mala de muamba por uma outra idêntica, contendo dinheiro falso. Ignorando o fato, ele não se aproveita da súbita fortuna, que é descoberta pela dona da pensão em que reside. O camelô-protagonista vive a fugir do "rapa", dos marginais, a quem pertence a mala venal, e do assédio da sua eterna noiva. No momento em que os marginais buscam recuperar sua mala, trava-se

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