Views
4 years ago

Ruídos na Representação da Mulher ... - Fazendo Gênero

Ruídos na Representação da Mulher ... - Fazendo Gênero

uma briga no bastidores,

uma briga no bastidores, e o camelô arremeda um discurso de valentia, enunciando-o juntamente com a sua naturalidade: Num baiano decidido, ninguém bota a mão: vai tudo virar mungunzá. O que se segue é o citado camelô fugindo à luta. Enquanto ele arrota valentia, ela, discreta, é quem é valente e bastante dura com ele, aplicando-lhe safanões quando ele tenta assediar as corista da buate. Tem-se aqui ainda um ato curioso: a auto-identificação não vem associada a uma autoestereotipação positiva, mas, sim, com uma inversão, que aponta para uma covardia...de um baiano. A valorização de uma valentia, que seria típica de uma naturalidade, está presente também em um outro filme com Nancy Wanderley. Em Quem Roubou meu Samba ?, essa atriz cearense é a enfermeira Iolanda, eterna noiva de um atrapalhado agente artístico, interpretado por Ankito. Ela se envolve em um briga com seqüestradores de um compositor, saindo-se bem na empreitada. Ao ser elogiada em sua performance pugilística por um de seus colegas com êta,baiana!, ela prontamente lhe responde: Baiana, vírgula. Eu sou é pernambucana. Em No Mundo da Lua, Nancy faz parte de uma quadrilha que põe um agricultor potiguar (interpretado pelo gaúcho Walter D'Ávila) no lugar de um sósia seu, o proprietário de uma fábrica de cimento. Esse nordestino está vindo ao Rio de Janeiro em busca de uma mulher, que conhece apenas por correspondência, sendo acompanhado na viagem por um sanfoneiro (o fluminense Reginaldo Faria). A função de Nancy no bando é estratégica, mas suas falas buscam realçar uma propensão à grossura e a uma proposta de truculência física, como se tem nesses trechos: Guarde essa valentia aí, ô, palhaço! (para um comparsa); "e não grita comigo, não, ô, careca, se não vai acabar conhecendo o gostinho de chumbo quente (para o violento chefe). Em um outro momento da narrativa, ela defenda a tortura do seqüestrado. Nesse filme, como em muitos outros, Nancy é a vilã e caracterizada como pernambucana, mas, em nenhum dos outros, ela aparece como seqüestradora e torturadora. A grossura da personagem interpretada por Nancy para a qual chamamos a atenção em No Mundo da Lua reaparece em Eu Sou o Tal. Aqui, ela divide a virulência com Chico Anysio. Ela se identifica como a psiquiatra Honorina Camucim. Seu parceiro no consultório é Republicano Nepomuceno de Aragão. Ambos atendem um inocente paciente (Vagareza) aos berros, impedindo grosseiramente que ele se manifeste. Eles ainda brigam à frente do paciente, batem nele e empurram-no tanto que esse se manifesta apreensivo em localizar um ortopedista. Aqui, novamente, Nancy é caracterizada mais uma vez como enérgica, tensa e rude, mas a estereotipagem que se destaca não é mais a de uma essencial valentia da mulher pernambucana, tipo que ela eternizou nas chanchadas, mas a formação do deboche a propósito do ensino universitário no Nordeste. Além das "paraíbas" ou ferozes pernambucanas que consagraram Nancy Wanderley, há pelo menos mais uma fora do seu currículo e, curiosamente, interpretada pela carioca Sônia Mamede em Garotas e Samba (RJ, 1957). Duas amigas de um ponto indefinido do Nordeste (Mamede e Adelaide Chiozzo) sonham em fazer sucesso no rádio e nas buates do Rio de Janeiro. A trama se

complica quando a personagem interpretada por Adelaide se apaixona por um galã do rádio (Francisco Carlos), mas é assediada pelo assistente de produção de uma emissora (Jece Valadão). Em certo ponto da história, a personagem de Mamede minimiza o objeto de sua viagem e passar a cuidar da sua amiga, revelando uma inesperada valentia e referências à sua peixeira de estimação. A propósito dos papéis de Mamede nas chanchadas, Bastos (2001) observa que ela representava aquelas nordestinas, que não possuíam nenhuma ingenuidade, lidando com maestria com malandros e paqueradores mais ousados. III Uma das evidências da amostra que se tem aqui é a disseminação de uma estereotipia na contramão de uma outra: o "cabra macho" nordestino. Nesse último aspecto, a nossa música popular é rica em matrizes para essa estereotipação como se tem em trechos das seguintes canções: "Forro de Caruaru" ( Zé Dantas): No forró de Sá Joaninha/ No Caruaru/ Cumpadre Mané Bento/ Só fartava tu/ Nunca vi meu cumpadre/ Forgansa tão boa/ tão cheia de brinquedo, de animação/ Bebendo na função/ Nós dansemo sem pará/ Num galope de matá/ Mas arta madrugada/ Pro mode uma danada/ Qui vei de Tacaratu/ Matemos dois sordado/ Quatro cabo e um sargento/ Cumpadre Mané Bento/ Só fartava tu. "Cumpadre João" (R. Cavalcanti - J. do Pandeiro): Lá na Paraíba, briguei em Princesa/ Minha natureza não sofreu abalo / Briguei em São Paulo na Revolução/ Ajudando os paulistas quatrocentão/ Cheguei em Caxias num dia de feira/ Me fiz na peixeira e não vi valentão. "Forró em Limoeiro" (E. Ferreira): Eu fui pra Limoeiro/ E gostei do forró de lá/ Eu vi um caboclo brejeiro/ Tocando a sanfona, entrei no fuá. No meio do forró, houve um tereré/ Disse o mano, agüenta o pagode/ Todo mundo pode, gritou o Teixeira/ Quem não tem peixeira, briga no pé. Peixeira pra lá, peixeira pra cá, esse instrumento acabou por servir como peça de (mais) estigmatização de nordestinos na mpb, no caso aqui em uma das canções do ítalo-paulistano Adorniram Barbosa, "Tiro ao Álvaro": Teu olhá mata mais/ do que bala de carabina/ que venenos estriquinina/ que peixeira de baiano... Albuquerque Jr. (2005:32-36), ao analisar o estereótipo do machão nordestino, contrapartida, por sinal, das personagens de Nancy Wanderley aqui discutidas, chama a nossa atenção para os seguintes aspectos que contribuiriam para a sua formação: a influência de Euclides da Cunha na difusão de atributos relacionados à coragem, destemor, valentia e virilidade; a associação desse 'último dos machos' com as representações mais corriqueiras do coronel, do jagunço e do cangaceiro; e a perigosa associação "ser nordestino é ser macho". Ao final do seu ensaio, jocosamente intitulado de "Cabra da peste!", esse historiador nordestino adverte:

Ruídos na representação da mulher ... - Fazendo Gênero
Ruídos na representação da mulher ... - Fazendo Gênero
1 Ruídos na representação da mulher - Fazendo Gênero 10
1 Ruídos na representação da mulher - Fazendo Gênero 10
representações visuais das mulheres nos ... - Fazendo Gênero
Gênero: multiplicidade de representações e ... - Fazendo Gênero
1 Gênero: multiplicidade de representações e ... - Fazendo Gênero
Gênero: multiplicidade de representações e ... - Fazendo Gênero
Gênero: multiplicidade de representações e ... - Fazendo Gênero
Relações de gênero e suas representações na ... - Fazendo Gênero
Ruídos na representação da mulher: preconceitos e estereótipos na ...
MULHERES INDÍGENAS EM PORTO VELHO ... - Fazendo Gênero
Ruídos na representação da mulher: preconceitos e estereótipos
Mulheres Negras - Participação Política - Identida - Fazendo Gênero
Ruídos na representação da mulher: preconceitos e estereótipos na ...
Confissões da 'loucura': narrativas de mulheres ... - Fazendo Gênero
As mulheres trabalhadoras na justiça do trabalho ... - Fazendo Gênero
MULHER SURDA: LUTAS E TRAJETÓRIA - Fazendo Gênero
Violência nas mulheres e violência das mulheres ... - Fazendo Gênero
O confinamento doméstico de mulheres em ... - Fazendo Gênero
A MULHER NO ESPAÇO DO FUTEBOL: UM ... - Fazendo Gênero
Simpósio Temático “Práticas e Representações” - Fazendo Gênero 10
História das mulheres na guerra do Paraguai - Fazendo Gênero 10
Famílias Chefiadas por Mulheres - Fazendo Gênero 10
Mulheres aprisionadas : Entre a subordinação ea ... - Fazendo Gênero
A mídia e as mulheres de “bom senso” Um ... - Fazendo Gênero
mulheres ortodoxas ucranianas: mudanças ... - Fazendo Gênero