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Amizades trans-viadas num espaço urbano de ... - Fazendo Gênero

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A amizade representa uma procura e uma experimentação de novas formas de relacionamento e de prazer; uma forma de respeitar e intensificar o prazer próprio e do amigo (ORTEGA, 1999, p.150). O autor propõe tomarmos, a partir do pensamento foucaultiano, o sado-masoquismo como metáfora para entendermos as relações de amizade: como um encontro permeado de relações de poder, mas que não se transformam num estado de dominação; um jogo intenso, às vezes arriscado, em que as regras são estabelecidas pelos parceiros no momento mesmo de jogar e são apenas válidas para esse jogo. Uma intensificação de prazer, uma possibilidade de experimentar com a multiplicidade de formas de vida possíveis, talvez mesmo a invenção de um modo de vida até agora inexistente. Neste estudo, as práticas observadas por mim conduzem meu olhar ao desejo de experimentação nestes jovens, levando-os a estabelecer uma pluralidade de relações, compartilhadas naquele lugar. Na esteira deste argumento, vejo como produtivo utilizar-me das proposições de Michel Foucault (2007) acerca da amizade enquanto modo de vida, para pensar nos modos como estes jovens se relacionam. O autor salienta que há certa confusão entre homossexualidade e amor entre os jovens, mas que poderíamos pensar em quais relações podem ser estabelecidas através da homossexualidade que não sejam apenas na forma de um casal. Segue o autor afirmando que o modo de vida homossexual, muito mais do que o ato sexual mesmo, torna ‘perturbadora’ a sexualidade, inquieta as pessoas que os sujeitos comecem a se amar. Inquieta o afeto, carinho, amizade, fidelidade, coleguismo, companheirismo, aos quais uma sociedade um pouco destrutiva não pode ceder espaço sem temer que se formem alianças, que se tracem linhas de força imprevistas. A amizade, então, pode ser vista como possibilidade de movimentar as relações sociais e construir novas subjetividades, que venham a transgredir os rígidos modelos apresentados a nós. A amizade pode ser assim, protagonista na criação de novos modos de vida, escolhas de existência, em relações abertas ao devir, numa experimentação de múltiplas formas de vida que se oponham às limitações e simplificações das relações contemporâneas. A partir da relação com o outro, tais relações se abririam para o novo, para novos, mesmo que provisórios, posicionamentos. Foucault (2007) concentrou-se nas possibilidades disponíveis na cultura homossexual para inventar novas formas de amizade, pois, para ele, ser homossexual significa ‘ser em devir’. As decisões sexuais possuem uma dimensão existencial, atravessam a totalidade da vida e são passíveis de transformá-la. Por isso, o problema da homossexualidade transforma-se no problema da amizade. Nesse sentido, a forma de vida (homossexual) e amizade permitem recusar toda uma cultura homossexual concentrada sobre a libertação do desejo e a procura da ‘própria identidade sexual’, em favor do uso da homossexualidade para a criação de novas formas de existência, a relações intensas que não se assemelham a nenhuma relação institucionalizada. 4

Para o autor, a amizade representa uma relação com o outro que não tem a forma nem de ‘unanimidade consensual’, nem de ‘violência direta’, uma provocação permanente, um desafio e uma incitação recíproca, mas não uma submissão ao outro. Falar de amizade é falar de pluralidade, multiplicidade, liberdade, intensidade e experimentação. Desigualdade, hierarquia e ruptura são componentes importantes da amizade, esta representa uma alternativa às formas de relacionamento prescritas e institucionalizadas. A gente vem aqui pra encontrar os amigos, a gente conversa, vê pessoas, fica aos beijos, paquera, beija um, beija outro...aqui é um círculo de amizade, as pessoas aqui trocam telefone, ficam, conhecem novas pessoas, isso aqui é um parque de diversões pra gente curtir, rir e brincar, entendeu? O excerto acima, extraído de conversa com um dos jovens, aponta para a diversidade de práticas produzidas naquele lugar, para a sociabilidade, o contato com o outro, a busca dos iguais. Importa a diversão, o prazer, a experimentação de afetos. Tomo tais práticas como práticas de amizade e penso com Foucault, ao ver a amizade como forma de vida, cuja importância reside nas inúmeras formas que esta pode assumir. Segundo Ortega (1999), Foucault pensava a amizade como reciprocidade, na forma de uma relação afetiva, ‘instersubjetiva’, capaz de respeitar o prazer do outro. Uma relação que poderia ser reabilitada mediante a introdução do componente eros (recusado desde a Antiguidade), sem a supressão das relações sexuais, mas não implicando que toda a amizade devesse ter um caráter sexual. Segue afirmando o autor, que a amizade tem, para Foucault, principalmente o sentido de uma amizade homossexual, concentrando-se, principalmente, nas possibilidades disponíveis na cultura homossexual para criar novas formas de amizade que contribuíssem para a tarefa de auto- elaboração, para a recriação de si e de novas formas de existência, sem no entanto, prescrever um único modo como correto. Foucault localizava a função da amizade, como salienta Ortega (1999), na possível criação de relações sociais, sublinhando que não existe nada dado nem necessário em nossa pertença a determinados grupos sociais. A amizade representa, então, uma relação de poder com o outro, uma relação que é ao mesmo tempo incitação mútua e luta, tratando-se não tanto de uma oposição frente a frente quanto de uma provocação contínua. Penso aqui nas múltiplas formas de ser e de viver desses jovens, nas práticas territorializantes, nas relações que estabelecem, nas trocas afetivas, nas experimentações como amizades trans-viadas, como relações que rompem fronteiras de morais vigentes e os levam a transformarem sua existência na presença do outro. A amizade representa segundo Ortega (1999, p. 171), uma possibilidade de constituir a comunidade e a sociedade no nível individual de um tipo de relação livre e não institucionalizada, assumindo uma dimensão coletiva na constante tarefa de (re)invenção de si. Na recusa das formas impostas de relacionamento e de subjetividade reside, então, a dimensão transgressiva da amizade. 5

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