Views
4 years ago

Gênero na Literatura e na Mídia. ST. 4 ... - Fazendo Gênero

Gênero na Literatura e na Mídia. ST. 4 ... - Fazendo Gênero

2 Choram meus filhos

2 Choram meus filhos pela casa Eu sou a recessiva bússola a cegonha a garça com único presente na mão: Saber que o amor só é amor quando é troca E a troca só tem graça quando é de graça. ii Introdução Pretende-se analisar como esse poema de Elisa Lucinda, representa, reconstruindo, o feminino, mediante sua descrição de corpo de mulher e de maternidade, consignando e indagando, simultaneamente, certas representações culturais e históricas. Na medida em que retrata a ambigüidade da maternidade, articula eros e thanatos iii , transformando contingências históricas em verdades universais, mas também gerando espaço para a reconstrução do pensamento sobre o ser mãe e ser mulher. Desenvolvimento Partindo do pressuposto, consignado na proposta do simpósio temático, de que o discurso é uma prática que forma os objetos de que fala, parece-me interessante pensar sobre o discurso de Elisa Lucinda, uma vez que, em sentido contrário à narrativa dominante sobre a maternidade, não a retrata como um estado de graça ou de existência máxima da mulher. Nos trechos seguintes percebe-se esse outro olhar sobre a função maternidade, pois para a poeta a maternidade é uma função: querendo o meu peito ou talvez o único leito que reservei pra mim. Na marra aprendi a dar mundo o quem do mundo é (...) e de quem eu sou mera babá. Eu que por eles explodi buceta afora afeto adentro Ingiro sozinha o ouro excremento desta generosidade Aprendo a dar meu eu, aquilo que não tem cópia tampouco similar. assino um documento onde aceito de bom grado lhes ter sido a mala o malote a estrela guia. Serei a quem se agradece displicente pelo adianto da carona de poderem ter sido humanidade. Para começar seria interessante retomar a maternidade como função, já que há muito tempo tem sido considerada da ordem da natureza da mulher. De fato, Elisa Lucinda atribui à maternidade o caráter de uma tarefa a ser cumprida, uma função a ser desempenhada e, assim, distancia-se do discurso corrente sobre o ser mãe e dos sentimentos considerados inerentes à maternidade. Os fragmentos selecionados chamam a atenção para uma outra dimensão da maternidade, para a sensação de invasão, de estranhamento, de não-lugar, de suporte de um processo, de um outro a

serviço, contrárias à sacralidade e à magnitude em ser mãe. Existe algo de morte. Essa mãe, ao narrar o seu cotidiano com as crias, em alguns momentos, parece morta, nula, inexistente, parece não sentir amor por seus filhos, parece sentir-se obrigada ao cuidado, ao resguardo, considerando-o como tarefa árdua. Constata-se, então, a existência de thanatos em sua narrativa. Ora, explodir buceta adentro afeto afora, conceder um espaço que reservou para si mesma ao outro, ingerir excremento, ser mala e malote de alguém não conotam beleza e satisfação, mas uma maternidade pouco explorada discursivamente. De acordo com o imaginário contemporâneo, em muitos casos, a mulher por natureza está predestinada a ser mãe e a cuidar. De fato, a mulher somente torna-se mulher na ocasião em que se torna mãe, a mulher nasceu para procriar, essa é a sua natureza e, por essa razão, escuta-se correntemente a expressão “instinto materno”, as mulheres são criadas para serem mães e para encararem a maternidade como um instinto, como algo inevitável e automático, como algo da ordem do natural e do animal. Dessa forma, a tessitura de relações sociais costuma estabelecer-se da seguinte maneira: a mulher pertence ao mundo privado, ao ambiente doméstico, e a ela incumbem os cuidados e a servidão, enquanto os homens pertencem ao mundo público, ao mundo que provê e a eles incumbe o econômico e a recepção dos cuidados femininos. Algumas mulheres emanciparam-se desse discurso, contudo muitas, para não dizer a maioria, ainda que bem sucedidas profissional e socialmente, sentemse oprimidas por tal narrativa acerca da realização da mulher. Dessa forma, se o imaginário encontra-se assim construído e disseminado, quando uma mulher declara não desejar ser mãe ou quando anuncia o sofrimento e o estranhamento em ser mãe, passa a ser considerada como uma mulher anormal, como uma não-mulher, como a exceção e como uma enfermidade social. Pode-se pensar que assim como a mulher está para a maternidade, o corpo feminino está para a procriação, o corpo da mulher conta com destino preconcebido, o corpo da mulher grávida e depois o corpo da mulher mãe é representado como o corpo de mulher, ou seja, existe uma construção de mulher desde a sua corporalidade. Por essa razão, de acordo com a proposta do simpósio: os corpos seriam também construídos culturalmente através de suas representações, que podem tanto naturalizar contingências históricas em verdades universais... Ou seja, os corpos femininos, a sua configuração, o seu normal e o seu anormal, há muito, são construídos por esse imaginário de mulher-mãe. Um corpo de mulher é um corpo materno. Se não o é, não pode ser considerado como um corpo de mulher. São corpos em potencial, seus corpos estão por serem preenchidos e completados, caso não o sejam, não serão corpos de mulher. Dessa forma, ser mãe para ser mulher passa a ter o efeito de uma verdade universal. 3

Gênero na Literatura e na Mídia ST. 4 Sandra Raquew dos Santos ...
Gênero na Literatura e na Mídia ST. 4 Maria do Rosário da Silva ...
1 Corpos Discursivos: Gênero na Literatura e na Mídia ST. 04 ...
Questões de gênero na literatura e na produção ... - Fazendo Gênero
gênero, idade média e interdisciplinaridade ST ... - Fazendo Gênero
- 1 - ST 49 – A Construção dos Corpos: Violência ... - Fazendo Gênero
De amor e romances: a censura, a literatura, o ... - Fazendo Gênero
gênero, idade média e interdisciplinaridade. ST ... - Fazendo Gênero
Gênero, Ciência e Tecnologia. ST 22 Maria de ... - Fazendo Gênero
Gênero e sexualidade nas práticas escolares. ST ... - Fazendo Gênero
História, gênero e trajetórias biográficas – ST 42 - Fazendo Gênero ...
Gênero e Religião – ST 24 Nadia Maria Guariza ... - Fazendo Gênero
1 Gênero , Ciências e Tecnologia. ST. 22 Auri ... - Fazendo Gênero
violência material e simbólica. ST 49 Cristina ... - Fazendo Gênero
Práticas corporais e esportivas. ST 21 Silvana ... - Fazendo Gênero
ST 38 Márcia Maria Severo Ferraz Vera Lúcia ... - Fazendo Gênero
Gênero Ciência e Tecnologia. ST 22 Claudia ... - Fazendo Gênero
Genêro e Religião – ST 24 Maria Cristina Leite ... - Fazendo Gênero
Gênero nas 'ciências naturais e exatas'. ST 25 ... - Fazendo Gênero
Gênero, memória e narrativas - ST 41 Lucia M. A. ... - Fazendo Gênero
Gênero e Religião – ST 24 Sônia Cristina Hamid ... - Fazendo Gênero
Gênero, violência e segurança pública ST. 39 ... - Fazendo Gênero
1 Gênero e Religião ST. 24 Joice Meire ... - Fazendo Gênero
Gênero e Religião ST. 23 Erica Piovam de Ulhôa ... - Fazendo Gênero
Violência de Gênero ST.5 Ana Luiza dos Santos ... - Fazendo Gênero