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Gênero na Literatura e na Mídia. ST. 4 ... - Fazendo Gênero

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Ocorre que assim como o

Ocorre que assim como o discurso acerca do ser mulher naturaliza contingências históricas em verdades universais, por outro lado, conta com a capacidade de historicizar tais verdades em contingências e questionar, assim, os modelos existentes de relações de gênero. Parece-me ser um pouco esse o caminho do poema de Elisa Lucinda. Elisa Lucinda aborda o outro da maternidade, o anormal, aborda o thanatos em meio ao eros também existente, porque existe amor em seu poema, existe carinho e realização, mas constatam-se outros sentimentos acerca do corpo feminino, da maternidade e da relação maternal, um corpo que explode buceta afora, que ingere excremento, que dá o que reservou de si para si mesma, que recebe agradecimentos displicentes. Existe uma outra representação da maternidade através da literatura, através da poesia. Essa representação trabalha com a ambigüidade, com a ambivalência e com a contradição em ser mãe, em ser materna e em ser mulher somente como mãe. Elisa Lucinda está a todo momento, como se estivera em uma escada caracol, articulando a representação dominante da maternidade com uma nova representação da maternidade, envolta em dor e em sofrimento, a fim de trabalhar com a ambigüidade. Desse modo, caracteriza-se sua poesia como uma narrativa (reconstrutora) mediante a ambigüidade, reconstrutora porque de saída está com a ambigüidade, com o não considerado acerca da maternidade, por chocar-se contra a natureza de mulher e de maternidade existentes, a indaga e anuncia uma outra representação, traz à tona uma outra possibilidade de discurso, de conhecimento e de construção de realidade, posto que narrativas constroem os seus objetos mediante a sua representação. Pensando assim o poema resta como reconstrução, como narrativa perpassada pela ambigüidade, como possibilidade, como criação e, por fim, como nova representação acerca do ser mãe e do ser mulher. Por maternidade passa a entender-se não natureza e escolha. Por maternidade não mais se entende realização única ou ser mulher. Por maternidade passa a compreender-se algo não tão distante de paternidade. Por fim, passa a pensar-se sobre a existência de uma outra relação inclusive entre pais e filhos, já que a maternidade não é mais considerada como algo de natureza feminina. Por ser o corpo um espaço privilegiado de representações culturais e históricas, decidi trabalhar com esse poema de Elisa Lucinda que aborda a maternidade como gestação e como relação pósnascimento entre mães e filhos e como um corpo construído para e mediante o discurso. Mas, principalmente, porque parece chamar-nos a atenção para uma espacialidade e temporalidade e, assim, reconstruí-lo mediante esse mesmo corpo de mulher. Por fim, porque desde esse ponto pode-se repensar e reinventar as relações de gênero e as chamadas funções femininas. Assim como Elisa Lucinda, aos olhos de Wanda Deifelt (2004:15-36), Frida Kahlo também trabalha com o corpo, com o discurso, com uma outra epistemologia, com a epistemologia feminista. 4

Mesmo estando em ambientes artísticos distintos, ambas discursam e discursam mediante a ambigüidade em construção. Por esse motivo, algumas das reflexões sobre a obra de Frida parecem ir ao encontro do ora pensado com relação à Lucinda. Deifelt (2004:16), em um momento de sua argumentação, escreve: A sua arte demonstra como o corpo permaneceu colonizado por meio de práticas discursivas, seja da biologia e da medicina, da filosofia e da teologia ou da própria arte. Ora, em minha opinião, o mesmo acontece com Lucinda. Da mesma maneira que Frida, Lucinda usa o corpo como categoria de construção de pensamento, usa-o como construto de uma epistemologia, de uma outra epistemologia da maternidade, contrário ao natural, ao sagrado e ao gozo. Nessa seara, pensando sobre o corpo e o cotidiano como categorias de pensamento feminista, argumenta Deifelt (2004:17): Partir do corpo de uma mulher (como ela mesma se apresenta e representa) pode até mesmo parecer um acomodamento aos padrões essencialistas, que situam as mulheres do lado da subjetividade, irracionalidade, alteridade, emotividade e corporalidade. As mulheres sempre foram reduzidas ao corpo, de modo que o acesso à cultura, educação, participação política e elaboração de conhecimentos parece marginal.Seu conhecimento se restringiu àquela realidade considerada inferior: o cotidiano, as relações familiares e afetivas, o cuidado de corpos. Por que, então, a teoria feminista se preocuparia em elaborar uma epistemologia feminista que usa o corpo como categoria fundamental?Precisamente porque o corpo humano, e, em especial, o corpo das mulheres, é epítome de conhecimento, de saber, é nele que se registram as marcas de uma cultura e sociedade dualistas, hierárquicas, assimétricas e cerceadoras do potencial humano. Outra consideração importante parece-me recair sobre a origem do discurso analisado. No caso de Elisa Lucinda, sua subjetividade narra, a autora parece discursar sobre si mesma, sobre sua condição de mulher e mãe, o que nos pode fazer pensar em um testemunho ou em uma autobiografia. Em meu entender, essa pode ser mais uma contribuição para uma epistemologia feminista, construída desde o corpo e desde o testemunho. Ou mais, enxergar a literatura como um método autobiográfico de reconstrução de um imaginário acerca das relações de gênero. Contudo, é certo que muitos não reconhecerão essa epistemologia, na medida em que articula objetividade e subjetividade, mas sobre essa crítica escreve também Deifelt (2004:17-18): ... objetividade é simplesmente o conhecimento que é história, cultural e socialmente situado, que reconhece seus postulados e pressupostos. Isto implica, em minha opinião, reconhecer a parcialidade, a provisoriedade e a processualidade com que o próprio conhecimento é construído. Falar de epistemologia feminista usando o corpo como uma categoria de construção de conhecimento é questionável dentro de uma lógica cartesiana, dicotômica, que prima pelo cognitivo e racional ao invés do corpóreo e pessoal. (2004:17) 5

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