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Gênero na Literatura e na Mídia. ST. 4 ... - Fazendo Gênero

Gênero na Literatura e na Mídia. ST. 4 ... - Fazendo Gênero

Nessa mesma linha de

Nessa mesma linha de pensamento encontra-se Shoshana Felman (2000:13-71) que, em um estudo sobre literatura, trauma e pedagogia, sustenta a relevância do método autobiográfico e do testemunho na transmissão do pensamento e na construção de conhecimentos, por meio das obras de Camus, Dostoivesky, Freud e Paul Celan, todos autores que, mediante a narrativa de suas experiências pessoais, criaram arte literária e conhecimento acerca do período histórico em que viveram, criando novas narrativas desde a ambigüidade desses mesmos períodos e, assim, reconstruindo-os. Para Shoshana também o conhecimento resulta da objetividade mais subjetividade, também o discurso autobiográfico produz epistemologia, sustentando não implicar conhecimento menor, mas sim conhecimento humano. Mesmo porque segundo Deifelt (2004:28): A arte não é somente uma representação da vida do artista, mas uma codificação simbólica de sua própria existência. Ou, em outras palavras, tudo o que é produzido não se restringe a uma representação de vida, mas a um imaginário, um discurso de poder-saber sobre os homens em sociedade, tudo o que escrevo desde minha subjetividade muito tem de todo o imaginário vigente, o importante é saber considerá-lo e criticá-lo enquanto sujeito construtor de um outro pensamento. É necessário cartografar mais para construir-se uma epistemologia feminista, como o fizeram Elisa Lucinda e Frida Kalho. Pois, cartografar é, simultaneamente, uma atividade visual e espacial, temporal e verbal. É uma construção simbólica, elaborada a partir de condicionamentos, experiências e expectativas: é um exercício de poder.(2004:30) Quando nos deparamos com fatos como o que ocorreu com Erna Ibañez, paraguaia presa em Buenos Aires acusada de infanticídio, constata-se ser cada vez mais urgente o estudo e a construção de uma epistemologia feminista para a resignificação das relações de gênero, construídas desde um olhar masculino, desde uma ideologia masculina, eis que somente um conhecimento autobiográfico e corporal feminino poderia contribuir para que mulheres não sigam sendo responsabilizadas por anormalidades que em verdade podem não ser anormalidades, mas que são consideradas como tal em razão do desconhecimento acerca do feminino, que tem sido pautado desde perspectivas essencialistas e biologicistas. Erna nasceu em Itapúa, sul do Paraguai, mudou-se para a Argentina, país onde estou vivendo, pois buscava escapar dos maus-tratos de sua mãe, que não aceitava sua gravidez. Frases como “si tenés el bebé, te mato a vos y a tu hijo”, eram proclamadas correntemente por essa mãe. Erna conta que em sua região de origem não existe assistência médica alguma nem muito menos exame pré-natal. Em Buenos Aires encontrou assistência médica e, assim, recebeu o prognóstico de quando seria o seu parto. 6

Ocorre que dias antes do dia marcado para o parto Erna sentiu dores muito fortes em toda a região genital e terminou por perder a consciência, caindo no chão da casa onde se encontrava. De nada se recorda, só é capaz de esclarecer que quando despertou perguntou por seu filho e sua irmã lhe afirmou que a criança estava morta. Erna nada sabia sobre o ocorrido e solicitava atendimento médico, pois sofria de dores fortes. Dias depois amigos e parentes a acompanharam ao hospital, Erna afirma que ao longo do caminho pôde perceber que sua irmã tinha jogado algo no rio, mas não sabia do que se tratava, sentia muitas dores e tentava olhar-se por baixo para saber de seu filho, mas nada encontrava. Com relação a essa angustia narra “Ya no aguantaba el dolor. Aparte iba a mirar abajo, a ver si estaba mi bebé y no lo encontraba”. Quando Erna chegou ao hospital, a médica a atendeu e passada meia hora Erna estava presa. Erna permaneceu presa no Presídio de Ezeiza, na grande Buenos Aires, por um ano e meio, acusada de infanticídio. No dia 28 de abril foi solta. No jornal Página 12, um jornal da capital argentina, a manchete, nesse dia, dizia: Erna Ibañez estuvo presa 18 meses, acusada de asesinar a su hijo al nacer. En el juicio, la fiscal pidió prisión perpetua. Ella adujo que fue un accidente. El tribunal consideró que se trato de un homicidio culposo y la liberó. Ayer también se supo que la Corte Suprema de la Nación abrió la vía para analizar la condena a Romina Tejerina en Jujuy. O caso Erna retrata a existência e a permanência do imaginário acima discutido, que a mulher nasceu para ser mãe e caso não o seja ou reaja à maternidade não pode ser considerada normal e mulher. Erna foi considerada uma mulher anormal e acusada de crime, terminou encarcerada, ao longo de 18 meses esteve isolada da sociedade, terminou com seu corpo estigmatizado. Ocorre que em momento algum foram considerados os antecedentes do caso e nem mesmo como tudo aconteceu, no momento da prolação da sentença nem a inexistência de assistência médica, os maus-tratos maternos, o silêncio da irmã e de seus amigos e a atitude da médica foram considerados, Erna respondeu sozinha, como mãe desnaturada, uma não mãe, como uma mulher enferma, um mulher falida. Nesse caso somente Erna falhou. Dessa maneira, constatou-se a mulher como única cuidadora, como a cuidadora por natureza. Por essa razão, para que se reconstrua esse pensamento de outra maneira, para que a maternidade, e toda a sua problemática, seja pensada de outro modo, considerando-a de forma não essencialista e biologicista, me parece muito importante construir uma epistemologia feminista com testemunho e corporalidade, eis que assim teremos maiores condições de desconstruir o pensamento vigente e construir um outro, mais eqüitativo para mulheres e mais afeito ao cotidiano feminino. Com essa 7

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