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O Ofício de Mestre Queijeiro Ana Elizabeth ... - Fazendo Gênero

O Ofício de Mestre Queijeiro Ana Elizabeth ... - Fazendo Gênero

de

de força física para levantar os baldes, despejar no tanque, mexer, fatiar a massa depois de coalhada e cozida, etc. É uma a atividade braçal, desenvolvida essencialmente por homens. O queijeiro das Fabriquetas é um trabalhador rural treinado por outros queijeiros ou proprietários das fazendas. O trabalho está presente na vida deles desde cedo, desempenhando um papel educativo por meio da prática produtiva reproduzida socialmente, onde a escola tem um caráter secundário. A prática parece, como explica Ferreti (1988, p.102), ser o procedimento mais eficiente para a “aquisição de algum nível de qualificação profissional” e, conseqüentemente, o saber teórico é desvalorizado. São trabalhadores que não tiveram acesso à escola. E isso parece não ter importância alguma, pois, para a empresa, o que interessa é o trabalho prático, simplificado. Apesar do avanço tecnológico a produção de queijo não deixa de depender do trabalho humano. Esse oficio é também presente nas pequenas Indústrias de laticínio. Essas indústrias funcionam segundo as normas da agência de vigilância sanitária estadual. A seqüência das diversas operações desenvolvidas na produção do queijo é semelhante às Fabriquetas o que as diferencia é o uso da tecnologia e uma maior preocupação com a qualidade do produto. Várias etapas do processo, a exemplo do corte e modelamento da massa, transferência do leite de um local para outro, que nas Fabriquetas são feitas manualmente, nas indústrias são utilizadas tecnologias para execução dessas tarefas. Mas, a intervenção do trabalho humano é fundamental. Olhando “porta adentro” o processo produtivo das Fabriquetas e Indústrias de laticínios e o trabalho dos queijeiros e seus ajudantes, podemos observar o esforço doloroso e repetitivo dos procedimentos operacionais realizado por eles, permeado por uma seqüência de tarefas, abrangendo táticas, estratégias e soluções práticas. Durante as práticas de trabalho do queijeiro fica claro a importância da dimensão tácita do trabalho, adquirida pela experiência. No ambiente de trabalho, circulam saberes adquiridos continuamente renovados o que caracteriza a aprendizagem no contexto do trabalho: é o aprender-com-o-outro (FARTES, 2002). O conhecimento tácito (dimensão tácita do trabalho), fruto da experiência do trabalhador sinaliza a presença no campo do trabalho e na sua relação com os sentidos, sinais percebidos pelos trabalhadores mestres queijeiros: cheiros, cores, sabores. Blass (2006, p.16) ressalta que “o potencial criador, essencialmente humano, revela-se por meio do trabalho, principalmente diante dos impasses e desafios que surgem no decorrer do ato de criar. O enfrentamento desses desafios supõe trabalho cujo resultado, em geral, conduz, às soluções criativas”. Os queijeiros são conhecedores dos “macetes” da produção. São trabalhadores que tiveram pouco acesso a um tipo de saber mais sistematizado e raras possibilidades educativas além da dimensão prática do trabalho. Ao mesmo tempo em que se formam no/pelo trabalho realizam um processo de ensino-aprendizagem em relação aos trabalhadores a eles subordinados, lembrando à primeira vista as raízes da produção artesanal nos primórdios da industrialização, no qual o mestre 2

dirigia o atelier ao lado dos ajudantes e aprendizes e mais tarde, em virtude do estatuto do aprendizado, o aluno, depois de ter passado por um tempo de formação, depois de ter adquirido experiência poderia se tornar mestre. Na produção artesanal, o proprietário do atelier trabalhava ainda com seus aprendizes e alunos, já na manufatura, o patrão fica à parte e não participa diretamente da produção, vive inteiramente às custas do trabalho dos assalariados, graças a sua exploração. As transformações ocorridas nas relações entre o capital e o trabalho, desde o período manufatureiro até a grande indústria, são condicionadas pela gestão dos proprietários dos meios de produção em buscar diferentes meios de subordinação do trabalho. Os mestres queijeiros dispõem do trabalho manual, a produção depende da sua capacidade de artesão e de sua habilidade pessoal, mas não dispõem dos meios de produção. Os produtos do trabalho são apropriados pelos proprietários das Fabriquetas e pequenas Indústrias. No processo de produção o trabalhador exerce o seu ofício sob o controle do capitalista a quem pertence o seu trabalho, cuidando para que tudo se realize em ordem e os meios de produção sejam empregados de modo adequado, para tanto, os proprietários remuneram a força de trabalho de acordo com o que foi produzido. (MARX, 1985, p.154). Na produção social de sua existência os homens e mulheres se relacionam entre si independente de sua vontade, “as circunstâncias fazem os homens assim como os homesn fazem as circunstâncias” (MARX e ENGELS, 1982, p.56). Na divisão do trabalho podemos visualizar as contradições que se estabelecem na sociedade quando observamos, conforme Marx e Engels, a “separação da sociedade em diversas familias opostas umas às outras, a distribuição desigual, tanto quantitativa como qualitativamente do trabalho e de seus produtos” (p.46) e de gênero. Este último ponto, nos faz refletir sobre a identidade predominantemente masculina do ofício de mestre queijeiro nas Fabriquetas e pequenas Indústrias de laticínios. Carloto (2001, p.1) lembra que “a existência de gêneros é a manifestação de uma desigual distribuição de responsabilidade na produção social da existência. A sociedade estabelece uma distribuição de responsabilidades que são alheias as vontades das pessoas, sendo que os critérios desta distribuição são sexistas, classistas e racistas. Do lugar que é atribuído socialmente a cada um, dependerá a forma como se terá acesso à própria sobrevivência como sexo, classe e raça, sendo que esta relação com a realidade comporta uma visão particular da mesma.” A divisão sexual do trabalho mostra como a construção social de gênero nos permite compreender a partir da base material o que é trabalho feminino e o que é trabalho masculino, estudando a diferente distribuição de homens e mulheres nas relações sociais entre os sexos e nas relações que se estabelecem no mercado de trabalho, nos oficios e nas profissões. (HIRATA e KERGOAT, 2007). 3

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